A lista

16 de maio de 2017

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A lista de convocados para representar o Brasil nos Mundiais de natação costuma ser uma mera formalidade. Em geral, o critério envolve nadar abaixo de um índice e limita apenas dois atletas por prova. No momento em que toca na parede e vê seu tempo e colocação no placar, o atleta já costuma saber se está dentro ou não; ao final da última seletiva, quem atingiu os critérios vai para casa sabendo que seu nome aparecerá em breve no próximo Boletim da CBDA.

Mas dessa vez foi diferente, tanto para o Mundial Junior de Indianapolis como o absoluto, em Budapeste, as duas competições mais importantes da natação na temporada.

Dessa vez, por indefinição no orçamento, não bastava fazer o índice da prova. Era necessário estar entre os oito primeiros índices técnicos entre todas as provas olímpicas. Em português mais claro: dessa vez, havia um número máximo – e baixo – de nadadores a ser convocado, uma drástica queda frente aos 20 nadadores que compuseram a seleção no último Mundial, em Singapura-2015, e os 31 que estiverem em Dubai-2013. Não bastava fazer um tempo forte e ganhar sua prova; para estar dentro da seleção era necessário estar entre as 8 provas mais fortes de toda competição.

Ao menos essa era a regra definida pelo Boletim 245/2016 da CBDA.

No Congresso Técnico do Maria Lenk e nas rodas de técnicos já se falava sobre a possibilidade de aumento de vagas, tanto para o Mundial Júnior como para o absoluto. Mas ninguém sabia se isso de fato aconteceria, nem quantas vagas seriam abertas.

Na dúvida, os nadadores disputaram o Maria Lenk mirando os oito primeiros lugares; ao final da competição, esses oito nomes já eram conhecidos: Caio, Lucas, Rafaela, Fernanda, Breno, Matheus, Camila e Maria Luiza começaram a semana seguinte sabendo que defenderiam o Brasil em Indianapolis. Para os demais, veio uma longa semana pela frente até que eles recebessem a ligação ou a mensagem e pudessem ver a lista com seus próprios olhos. Conversamos com os oito para saber qual foi a reação ao verem seus nomes na lista.

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João Paulo Pacheco de Andrade, que treina em Brasília e defende o Fluminense, nadou o 400 livre no primeiro dia de Maria Lenk. Com 3’59”11, ele entrou na lista dos oito primeiros índices técnicos e lá ficou até o último dia de competição, quando Camila Lins Mello fez uma excelente prova de 200 livre. João passou a ser exatamente o 9o melhor índice técnico, o primeiro a ficar de fora se fossem levados apenas os oito primeiros. Ele tinha grande expectativa de entrar – fossem oito vagas adicionais abertas, quatro ou mesmo apenas duas, ele estaria dentro – mas quando foi anunciada a seleção absoluta para Budapeste, na quinta-feira, e nada foi dito sobre o Mundial Junior, ele achou que não ia dar. Na sexta-feira, estava no nutricionista com seu pai quando a mãe ligou para avisar que sim, as novas vagas tinham sido abertas. Ele estava dentro.

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Enzo Kihara estava dormindo antes do treino de dobra quando foi acordado por uma ligação de seu técnico, PA (Paulo Augusto), gritando os parabéns pela convocação. Enzo demorou para entender e acreditar que ele era o 14o nome da lista; chorando ligou para seu pai e disse “Tô dentro, a gente vai pra Indianapolis”. A mãe atendeu assustada por ouvir o filho chorando mas logo se juntou a ele; a avó agradeceu pelo presente de dia das mães que tinha acabado de ganhar. Fundista, Enzo não sabia nem por qual prova havia entrado. Foi pelo 1500 livre, no último de provas, em que nadou para 15’57”21, 753 pontos de índice técnico. Além da família, quando chegou no Corinthians, Enzo levou às lágrimas seu treinador, PA, e o assistente, Caio Caneda.

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A também fundista Aricia Peere não fazia ideia da possibilidade de aumento da vagas para o Mundial. Mesmo antes do Maria Lenk Aricia achava que seria muito difícil conseguir um bom índice técnico em suas provas, dado que a recordista mundial é a americana Katie Ledecky com tempos fortíssimos. Aricia nadou o Maria Lenk focada em ganhar experiência e melhorar seu tempo. Conseguiu: ficou em 7o no 800 livre com 8’55”93. Estava sozinha em casa, na Bahia, quando recebeu o link da convocação no whatsapp. Começou a gritar em casa e ligou para os pais dizendo para eles sentarem e ouvirem uma notícia bombástica: seu nome era o 15a da lista, Aricia estava convocada para o Mundial.

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Kayky Mota venceu a final B do 400 medley no Maria Lenk, mas saiu da competição desapontado: seu foco de treino no semestre era entrar na seleção, e seus tempos não foram suficiente para ficar entre os oito. Sua mãe já havia falado da possibilidade da CBDA abrir mais vagas, mas ele não achava que isso aconteceria de verdade. Estava na aula de inglês quando recebeu uma mensagem de seu técnico, Luiz Fernandes Barbosa; sua mãe estava certa: oito novas vagas foram abertas e uma era dele, em 12o, pelo seu 2’04”99 feito no 200 medley. A comemoração da família foi grande.

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Maria Eduarda Sumida já sabia da possibilidade de aumento de vagas e também sabia que a definição aconteceria até sexta-feira. Duda, que defende o Pinheiros e treina em Marília com seu pai, não escondia que entrar no Mundial Junior era o principal objetivo da temporada. O Maria Lenk não saiu como ela esperava; entre as várias provas que nadou, seu melhor índice técnico foi no 200 medley, com o 2’18”51 feito na final da prova, acima do tempo que fez no Brasileiro de categoria em novembro. Duda passou a sexta passada inteira entrando no site da CBDA à espera da lista final. Estava no carro com seus pais quando finalmente apareceu o link, e quando abriu seu nome estava nele, na 13a posição.

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Rodolfo Moreira, companheiro de Pinheiros de Duda, saiu um pouco decepcionado do Maria Lenk. Antes da competição, ele tinha o 6o melhor índice técnico na disputa para o Mundial, pelo 50”93 feito no 100 livre na primeira seletiva, quando ainda defendia o Corinthians. Mas no Maria Lenk Rodolfo não melhorou seus tempos nem no 100 nem no 50 livre, e ficou fora da lista dos oito primeiros índices técnicos. Seu técnico, Albertinho, já havia dito que as vagas podiam aumentar, mas ele achou que seriam apenas quatro e acabaria de fora mesmo assim.

Rodolfo estava na sala com a família quando sua mãe o chamou para ver “uma coisa” no computador; a coisa era a lista atualizada, com seu nome nela: exatamente o 16o melhor índice técnico, exatamente a última vaga para fazer parte da seleção. Rodolfo chegou a chorar de emoção, e começou a mandar mensagens avisando seus amigos, entre eles Marco Túlio, seu ex colega do Corinthians, e Luiz Gustavo Borges, colega de Pinheiros esse ano.

Luiz Gustavo Borges tinha feito contas com os amigos e técnicos para ver que tempo precisaria fazer no 50 livre, no último dia de Maria Lenk, para estar entre os oito convocados. Ele fez 22”92 nas eliminatórias e 22”87 na final B, terminando a competição com o melhor tempo entre os nadadores de até 18 anos na prova. Mesmo um pouco chateado por não estar entre os oito, Luiz não esquentou a cabeça e, sem imaginar que haveria mais convocados, esqueceu o Mundial e começou a pensar no Finkel e no Paulista. Foi seu técnico, Albertinho, que ligou para contar que ele estava convocado; a notícia foi repassada e muito comemorada com a família, entre eles seu pai, o quatro vezes medalhista olímpico Gustavo Borges.

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Quando a mensagem de Rodolfo chegou, o celular de Marco Tulio estava carregando e ele passeava no shopping com a namorada Isadora. O foco durante o Maria Lenk era conseguir entrar na seleção pelo 200 borboleta, mas Marco Tulio não foi bem na prova. Depois, melhorou seu tempo no 100 borboleta, baixando de 55”0 para 54”39, marcando 768 pontos na tabela do índice técnico. Sabendo que não estava entre os 8 primeiros, ele até esqueceu do Mundial Junior e seguiu a vida. Quando voltou do shopping viu duas mensagens: a de Rodolfo e de seu nutricionista, Alan Nagaoka, dando parabéns pela seleção: seu nome era o 10o da lista anunciada pela CBDA. Marco estava confuso e feliz, mesma reação de seus pais quando ligou para contar a novidade. Depois de cair a ficha, foram muitas mensagens de parabéns, dos colegas de treino, família e amigos de Goiânia, onde nasceu.

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