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A aposentadoria de Beatriz Travalon

30 de janeiro de 2017

Aposentadorias1 comentário em A aposentadoria de Beatriz Travalon

Por Beatriz Nantes

A nadadora Beatriz Travalon, de 23 anos, anunciou na noite de domingo sua aposentadoria da natação. Membro da seleção brasileira no Mundial de Barcelona e no PAN de 2015, Beatriz nadou no Primeiro de Maio quando era mais nova, defendia atualmente o Pinheiros e era especialista em provas de peito. Conversei com ela na segunda a noite, por telefone, enquanto ela estava em Auburn. Falamos sobre seus momentos inesquecíveis na natação, o processo de decisão até parar, seu laço com seu ex-técnico Sérgio Maques e o que vem pela frente. “Eu pensava que tinha me redimir, mas o que eu precisava mesmo era me perdoar”.

Em seu post anunciando a aposentadoria, você disse que já estava pensando nessa decisão há um ano. Como foi?
Depois do Maria Lenk do ano passado tirei um mês de folga. Já estava um pouco indecisa. Tentei voltar, fiz dois treinos e minha cabeça ainda não estava pronta. Tirei mais um mês e voltei para o Finkel, pensando que tinha que colocar a cabeça de volta no lugar. Sempre fui uma atleta que sonha com natação antes de dormir, cria cenários, coloca frases no espelho. E isso não estava mais acontecendo. É muito estranho não ter essa chama, por isso lutei contra isso por um ano. Sempre vou amar natação, mas aquele algo a mais que você precisa para ser diferente, para buscar essas metas, não tenho mais. E se não for para ser 100% é difícil chegar lá.

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Como foi o processo de tomar a decisão final? Alguém já sabia?
Eu falei com meus pais, com algumas pessoas mais próximas, conversei com o Chicão aqui de Auburn. Esse ano treinando percebi que não dava e finalmente fiz as pazes comigo mesma. Uma hora a gente para e tá tudo certo. Sempre achei que fosse falta de coragem parar, agora eu vejo que precisa de muita coragem pra falar tchau pra uma coisa que você ama. Eu liguei para o Serjão [Marques, técnico da atleta no Pinheiros até o fim de 2013] na quarta-feira, e assim que desliguei com ele falei para o Sérgio [Miro] de Auburn que queria até o fim de semana de folga. Disse que achava que já tinha acabado. Ele disse que sabia que ia acontecer, acho que até o técnico tem esse feeling quando chega a hora. Comentei com o Albertinho também, por questões de renovação com o clube. Falei para todos eles que daria a resposta na segunda. De sexta a domingo eu fiz uma retiro espiritual, fui acampar sozinha, no meio do mato, para ter certeza que era algo que ia me fazer bem. Voltei tranquila e decidida.

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E feliz?
Feliz. Parece que saiu um peso de deixar ir. Falei para os meus pais que é como um paciente que já morreu e só falta desligar os aparelhos, puxar a tomada. Estava lá, mas não estava vivo, só precisava ter coragem de finalmente deixar ir. Me sinto livre. Sei que nas próximas semanas e meses eu vou sentir falta, vou ter que lidar com isso.

 

Como seus pais reagiram?
Eles estão bem. No fim do ano passado isso tudo me afetou bastante psicologicamente, tive um fim de ano bem perturbado mentalmente. Meus pais acompanharam tudo isso de perto, gerenciaram o stress comigo. Eles sabem o quanto a natação era parte da minha vida. Eu sinto que eles sentiram o mesmo que eu, angústia, depois tranquilidade e leveza.

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O Serjão já não era seu técnico há alguns anos. Como foi essa conversa com ele?
Mesmo depois que ele saiu do Pinheiros eu continuava conversando com ele, não só sobre natação. Ele sempre vai ser um paizão para mim, temos essa conexão, algo que é difícil achar nos treinadores americanos. Criei esse laço com ele e mais ninguém. Antes de decidir tirar o tempo off da decisão final, liguei para ele, que me apoiou no que eu fizesse. Eu até disse que a única pessoa que poderia me convencer pessoalmente seria ele, a tentar isso por mais quatro anos. Mas não dá, até por conta dos estudos aqui e de já ter alguns estágios engatilhados.

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O que você pretende fazer agora?
Eu me formo em maio em International Business, com minor em sustentabilidade. Apliquei para dois estágios, um para a CNN em Atlanta, e outro para uma ONG na Filadélfia. O plano principal é ficar, conseguir experiência de trabalho, quem sabe fazer um mestrado na Europa. Esse é o plano. Mas muita coisa tem que acontecer para isso dar certo, a gente vai seguindo o rumo que aparecer.

Você lida bem com o fato de não ter classificado para as Olimpíadas?
O que me quebrou foi o Open de 2015 [primeira seletiva olímpica]. Talvez tenha sido ignorância minha, mas achei que as duas primeiras de cada prova classificariam, com índice B mesmo, pela Olimpíada ser em casa. Na minha cabeça era algo mais atingível, mas mesmo assim eu treinava para o índice A, 1’07’’9. Quando saiu o critério falando que seria o A, me deu um pequeno choque.

Mas os treinos que eu estava fazendo, tanto física como psicologicamente, eram para o 1’07”9. Eu estava pronta. A competição começou, eu nadei bem o 50 peito e o 200 peito. No 100 eu acho que estava tão nervosa que me sabotei. Fiz 1’12 de manhã e 1’11 de tarde. Não é que fiz um tempo ok mas não classifiquei, nadei muito acima. Foi falha minha, minha cabeça me sabotou. Me deixou frustrada comigo mesma, me pegou psicologicamente. Em 2016 eu comecei o ano com a notícia que não teria apoio financeiro, o salário só seria mantido para quem era olímpico. No Maria Lenk [segunda e última seletiva para o Rio-2016] eu já estava mais chateada pelo resultado do Open, fui desacreditada de mim mesma. Acho que por isso foi tão difícil parar, eu pensava que tinha me redimir disso, mas o que eu precisava mesmo era me perdoar, porque acontece. Eu me perdoei só agora, entendi que é humano.

Conseguiu assistir as Olimpíadas, ou ver aquilo te deixava chateada?
Eu fiquei meio chateada sim, não conseguia ver natação direito. Fui pra Jamaica na época, para ir para longe mesmo. Ficava de olho nos brasileiros, assisti as finais com a minha amiga, mas não foi aquela coisa de ficar checando os resultados 24 horas por dia.

Qual foi seu momento inesquecível na natação?
Com certeza o Open de 2012 e o Pan de 2015. Acho que nas duas eu nadei bem como consequência, me senti muito feliz na competição, desde acordar e tomar café da manha até nadar. Me lembro de estar muito feliz.

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Como surgiu essa coisa de amigas do peito que você mencionou no post?
Sempre que vai ter prova de peito, se você olhar no balizamento, é diferente. Tirando o fato de sermos adversárias, a gente se dá muito bem. Somos muito amigas entre nós, algo difícil de ver em um meio tão competitivo. A gente quer sair, se encontrar. Lembro no Open de 2015, a Ju Marin nadou pela primeira vez abaixo de 32”no 50 peito, eu olhando para a Carla [Ana Carla Carvalho], e a gente estava mais feliz com o resultado dela do que com o nosso próprio. A gente se deu tão bem que virou as amigas do peito. Esse é um momento que eu queria ter tido, uma última competição, nadar lado a lado delas. Até as duas estrangeiras [Macarena Ceballos e Julia Sebastina, que costumam nadar competições no Brasil] fazem parte, temos até um grupo no whatsapp.

Como elas reagiram quando você anunciou?
Eu sempre imaginava uma resposta de comoção, as pessoas chateadas porque acabou. E o que eu estou recebendo delas e de todos são mensagens de parabéns. Porque é um momento feliz da minha vida mesmo, que eu estou seguindo em frente.

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Um comentário em "A aposentadoria de Beatriz Travalon"

  1. José Roberto disse:

    Minha querida, você tem a vida toda pela frente. Aproveite

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