A carta de aposentadoria de Missy Franklin

20 de dezembro de 2018

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A norte-americana Missy Franklin, dona de 5 medalhas de ouro olímpicas e atual recordista mundial do 200 costas, anunciou ontem sua aposentadoria da natação competitiva, aos 23 anos.

Um dos maiores destaques das Olimpíadas de Londres, conquistando 5 medalhas com apenas 17 anos, e uma das nadadoras mais carismáticas de sua geração, Missy lutava contra dores nos ombros que atrapalhavam seu rendimento desde 2015.

Em 2016, Missy não conseguiu se classificar para defender seus títulos olímpicos de 100 e 200 costas, e parou nas semifinais do 200 livre, prova em que havia sido bronze em 2012. Conseguiu a medalha de ouro no revezamento 4×200 livre, prova em que participou das eliminatórias. Na carta, ela explica como tentou de tudo para superar seus problemas no ombro, além de diversos treinamentos diferentes.

Abaixo, a emocionante carta de despedida da nadadora em tradução livre para o português (o original pode ser lido aqui):

Em minhas próprias palavras – O próximo capítulo
por Missy Franklin

É com lágrimas nos olhos, mas o corações cheio de amor que eu começo a escrever esta carta.

É difícil saber por onde começar, mas me sinto confiante e satisfeita em como isso vai acabar, e isso é tudo que eu poderia pedir.

Nadar foi meu primeiro amor verdadeiro. Estar na água me deu uma sensação de liberdade, diversão e alegria. Era onde eu podia ser totalmente eu mesma, sem nenhum limite ou restrições. Foi onde encontrei meus primeiros melhores amigos, meus primeiros mentores e meu primeiro gosto pela competição. É das pequenas coisas que eu lembro sobre o começo de tudo, como jogar tubarões e peixinhos na sexta-feira de manhã depois de treinar com meu time de verão, os Heritage Green Gators, seguidos pelos donuts Krispy Kreme. Era fazer revezamentos com abóboras no Halloween e boliche de peru no treino antes do Dia de Ação de Graças. É trabalhar tão duro todo dia, e amar cada minuto disso. Era aprender sobre gestão do tempo, liderança e esportividade. Atingir metas e saborear cada momento.

As pessoas sempre me perguntam quando eu soube que era boa, e eu sempre respondo que realmente não sei, porque eu só estava preocupada em me divertir. Estava apenas sendo uma garotinha, passando tempo com meus colegas de equipe e amigos mais íntimos no treino, tudo isso enquanto eu ainda estava dando uma boa risada enquanto nós engasgávamos para respirar na parede entre os intervalos. No entanto, se eu tivesse que escolher um momento, seria estar na seletiva dos Jogos Olímpicos de 2008 aos 13 anos de idade. Eu nunca vou esquecer de olhar ao redor do deck da piscina e ver todos os nadadores que eu admirava a apenas um metro e meio de mim. Eu também nunca vou esquecer de perceber que eu estava na mesma competição que eles, nadando na mesma piscina e lutando pelos mesmos sonhos. Eu sabia que queria estar de volta à seletiva em quatro anos, e queria ser uma das pessoas para quem as crianças de 13 anos iam olhar no deck da piscina.

Os primeiros 18 anos da minha carreira foram tão perfeitos quanto possível. A equação não poderia fazer mais sentido: você trabalha duro, você tem uma atitude positiva, você aparece todos os dias e dá o seu melhor, e você fica mais rápido. Foi assim que funcionou para mim. Eu trabalhei mais duro, treinei mais e nadei mais rápido, ano após ano. Depois das Olimpíadas de 2012, decidi continuar amadora e nadar pela faculdade, e essa foi uma das melhores decisões que já tomei. Nadar na Universidade da Califórnia, em Berkeley, foi uma das maiores honras e privilégios que tive como atleta e como pessoa. As equipes que eu pude fazer parte em 2014 e 2015 me ensinaram mais do que posso começar a dizer. As pessoas às vezes riam quando eu dizia que queria nadar na faculdade porque sabia que encontraria minhas futuras damas de honra no meu time e que elas se tornariam minha família por toda a vida. Bem, eu as conheci mesmo. Uma maid of honor e três bridesmaids, para ser exata.

Em 2015, decidi ir para casa e treinar em Colorado com Todd Schmitz e o Colorado Stars, e trabalhar com meu preparador Loren Landow. Eu tenho sido muito aberta sobre o que passei enquanto me preparava para as Olimpíadas em 2016 e falava abertamente sobre as lutas que sofri, que incluíam dor no ombro sempre que eu tentava treinar ou competir, depressão, ansiedade e insônia. Foi também o ano em que comecei a aceitar completamente o fato de que algo estava errado com o meu corpo e ele não estava funcionando da maneira que deveria funcionar.

No GP de Mesa, em abril de 2016, tive que ser retirada da competição devido a uma intensa dor no ombro por uma lesão sofrida no aquecimento. Eu nunca tinha experimentado esse tipo de dor antes e comecei a me desvencilhar completamente. Os Jogos Olímpicos aconteceriam em apenas quatro meses e muitos esperavam que fosse o melhor momento da minha carreira atlética. Depois do sucesso que tive em minhas primeiras Olimpíadas, em Londres, as expectativas para a minha segunda participação olímpica só aumentaram.

Eu treinei por cima de tudo isso – tanto a dor física quanto emocional – e fiz tudo que eu poderia ter feito para manter minha cabeça erguida. Olhando para trás, sobreviver aos oito dias no Rio foi a maior conquista da minha carreira. Eu fui capaz de permanecer fiel a quem eu era tanto durante um fracasso e desapontamento como quando eu ganhei e fui a melhor do mundo.

Depois que passei pelas Olimpíadas, eu sabia que finalmente tínhamos que lidar com a dor que eu estava tentando ignorar com toda minha energia. Em janeiro e fevereiro de 2017, fiz uma cirurgia nos ombros esquerdo e direito. Deveria ter sido uma recuperação rápida, mas quando voltei à piscina em abril eu soube, com base no meu nível de dor, que precisava de mais tempo para me curar. Tirei o verão para descansar e acabei me reconectando com o homem com quem vou me casar no ano que vem. Eu não consigo nem começar a explicar como funciona o tempo de Deus, mas tudo que sei é que isso é lindo, perfeito e mágico.

Voltei a treinar no outono com Dave Durden e a equipe masculina de Berkeley. Eu ainda fazia fisioterapia de duas a três vezes por semana e frequentemente precisava ajustar os treinos para compensar a dor no ombro que estava sentindo. Eu estava começando a ficar verdadeiramente frustrada. As cirurgias não deveriam ajudar? Isso tudo não deveria ir embora? Eu não deveria me apaixonar pelo esporte de novo?

Em dezembro decidi que eu precisava me colocar em um ambiente novo e diferente. Por mais difícil que fosse deixar as pessoas que eu tanto amava no norte da Califórnia, também sabia que precisava tentar algo diferente. Arrumei minhas malas e dentro de duas semanas estava morando em Athens, Geórgia, e treinava com Jack Bauerle na Universidade da Geórgia. Jack e a equipe me acolheram e me receberam de braços abertos, e comecei um tipo de treinamento totalmente diferente do que estava acostumada. Eu estava pronta para começar meu retorno, para provar a todos que estavam errados, para mostrar a todos que lutadora eu era e voltar melhor do que nunca. Eu realmente acreditava que poderia fazer isso, e eu tinha as melhores pessoas por perto que também acreditam nisso.

Infelizmente, foi nessa mesma época que minha dor no ombro se tornou a pior que eu já havia experimentado. Eu ainda estava fazendo fisioterapia várias vezes por semana e meus treinadores estavam fazendo tudo para me ajudar a passar por cada treino. Cada momento que eu não estava treinando era gasto me recuperando com gelo e descanso, enquanto tentava me curar e me preparar para o próximo treino – mas nada estava funcionando. Eu passei por três diferentes rodadas de doses de cortisona, uma delas antes do Campeonato Nacional no verão passado, e também tive uma injeção de tendão de bíceps ao final no final de setembro. Tecnicamente falando, meu diagnóstico médico é tendinite crônica severa tanto do manguito rotador quanto do tendão do bíceps. Após o fracasso da minha última rodada de doses, eu tinha apenas uma outra opção: outra cirurgia, e mesmo isso era apenas uma aposta.

Quando ouvi a palavra “cirurgia”, eu imediatamente desmoronei porque já sabia minha resposta: não. Eu estava sentindo muita dor, por muito tempo, para passar por outra cirurgia, com um tempo de recuperação mais longo e nenhuma garantia de que isso ajudaria. Eu rezei e rezei e rezei. Conversei com as pessoas que mais confio na minha vida. Quando meu agora noivo olhou para mim e disse o seguinte, minha resposta finalmente ficou clara: “Eu vou apoiá-la plenamente, não importa o que você escolher. Mas o que mais importa para mim, mais do que tudo, é que você pode segurar nossos filhos em seus braços um dia sem estar sofrendo dores excruciantes.”

Comecei a perceber que o meu maior sonho na vida, mais do que o ouro olímpico, sempre foi me tornar mãe. Nadar foi uma parte importante da minha vida desde que eu consigo me lembrar, mas não foi toda a minha vida. Ainda tenho sonhos, objetivos, aspirações e intenções que planejo viver todos os dias da minha vida. Nunca serei capaz de expressar em palavras o quanto sou grata por nadar – pelos lugares que me levou, pelas lições que me ensinou e, mais importante, pelas pessoas que trouxe à minha vida.

Para todos os companheiros de equipe, todos os treinadores, mentores, todos os dirigentes, vocês me tornaram a pessoa que eu sou hoje, e é uma pessoa que estou incrivelmente orgulhosa de ser.

Para todas as empresas e marcas com as quais trabalhei, especialmente a Speedo, a Coca-Cola, a Minute Maid, a Streamline Brands e a USA Swimming Foundation, vocês tornaram-se família e permaneceram ao meu lado nos bons e maus momentos. Obrigado pelo seu apoio inabalável.

Aos meus pais, minha família e meus queridos amigos, que sempre serão as pessoas mais importantes da minha vida, obrigado por me educar, me ensinar e me inspirar a ser uma mulher forte e corajosa o suficiente para tomar essa decisão, e apoiá-la de todo coração.

Esta carta se tornaria um romance (se já não é um) se eu listasse todos os agradecimentos que estão em meu coração, mas, por favor, saibam que eles estão lá e muito.

Isso não é de forma alguma o fim. Em vez disso, escolho encarar isso como um novo começo. A natação tem sido, e sempre será, uma grande parte da minha vida e eu planejo me envolver no que eu acredito ser o melhor esporte do mundo, apenas de uma maneira diferente. Espero continuar a inspirar os outros a serem seus melhores, tanto dentro quanto fora da piscina, e estou realmente empolgada com este próximo capítulo e como meu relacionamento com o esporte continuará a mudar e crescer.

Levei muito tempo para dizer as palavras: “Estou me aposentando”. Um longo, longo tempo. Mas agora estou pronta.

Estou pronta para não sentir dor todos os dias. Estou pronta para me tornar uma esposa e, um dia, uma mãe. Estou pronto para continuar crescendo a cada dia para ser a melhor pessoa e modelo que posso ser. Estou pronta para o resto da minha vida.

Obrigada,
Missy

This was perhaps the hardest letter I’ve ever had to write. There are so many words to say and I thank you all for letting me share them with you, and for your continued support. Today, I announce my retirement from competitive swimming. A link to my letter to you all is in my bio. “This is by no means the end. Rather, I choose to look at this as a new beginning. Swimming has been, and always will be, a big part of my life and I absolutely plan to stay involved in what I believe is the best sport in the world, just in a different way. I hope to continue to inspire others to be their best, both in and out of the pool, and I’m truly excited about this next chapter and how my relationship with the sport will continue to change and grow.” Thank you❤️

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