A inesquecível carreira de Missy Franklin

21 de dezembro de 2018

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Missy Franklin anunciou sua aposentadoria da natação competitiva na quarta-feira, aos 23 anos. Suas conquistas são impressionantes: campeã olímpica e mundial em provas individuais e de revezamento, recordista mundial, destaque no NCAA, integrante da forte seleção americana em duas Olimpíadas.

Precoce, Missy ainda é dona de vários recordes americanos de categoria em piscina longa. Na categoria 11-12 anos ela é a recordista do 50 livre (26”21) e 200 medley (2’19”12), marcas feitas dois meses antes de completar 13 anos (pela regra do Brasil, se encaixariam na categoria infantil 1). Nesse mesmo ano, Missy participou da seletiva americana para os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. Em sua carta de aposentadoria, ela conta como esse foi um momento importante em sua carreira. “Eu nunca vou esquecer de olhar ao redor do deck da piscina e ver todos os nadadores que eu admirava a apenas um metro e meio de mim. Eu também nunca vou esquecer de perceber que eu estava na mesma competição que eles, nadando na mesma piscina e lutando pelos mesmos sonhos. Eu sabia que queria estar de volta à seletiva em quatro anos, e queria ser uma das pessoas para quem as crianças de 13 anos iam olhar no deck da piscina”.

Na categoria 13-14 anos, Missy ainda é a atual recordista do 50 livre (25”23), 100 livre (54”03), 200 costas (2’09”16) e 200 medley (2’12”73), todas feitas em agosto de 2009, meses depois de completar 14 anos (infantil 2 no Brasil).

Um ano depois, em 2010, com 15 anos, Missy se classificaria para sua primeira seleção absoluta americana, conseguindo vaga para o Pan Pacific, onde terminou na quarta colocação no 100 costas. No final do ano, disputou o Mundial de piscina curta, em Dubai, e conquistou sua primeira medalha internacional: prata na prova de 200 costas e no revezamento 4×100 medley.

A evolução continuou e, com 16 anos, Missy conquistou seu primeiro título mundial, vencendo o 200 costas no Mundial de Shangai, em piscina longa como novo recorde americano: 2’05”10. A competição mostrou a versatilidade de Franklin e a colocou como uma das principais peças da forte equipe feminina norte-americana: além do ouro no 200 costas, participou também dos revezamentos campeões do 4×100 medley (fechando de crawl) e 4×200 livre – nesse, abriu para 1’55”06, mais forte do que o tempo que Federica Pellegrini fez para vencer a prova individual. Missy ainda foi prata no 4×100 livre e bronze no 50 costas.

Em 2012 Missy voltou à seletiva americana da forma como havia desejado quatro anos antes, e se classificou para sua primeira Olimpíada. Com uma atuação memorável, Franklin se classificou para Londres nas provas de 100 costas (batendo o recorde americano de sua ídola Natalie Coughlin, com 58”85), 200 livre (segundo lugar, atrás de Allison Schmmitt), 100 livre (também em segundo lugar, atrás de Jessica Hardy) e 200 costas.

Missy chegou a Londres, com 17 anos, classificada para quatro provas individuais e os três revezamentos. Ela aguentou a pressão e saiu de sua primeira Olimpíada com incríveis cinco medalhas: ouro no 100 e 200 costas, essa com novo recorde mundial (2’04”06), que dura até hoje; ouro nos revezamentos 4×200 livre (com recorde americano) e 4×100 medley (com novo recorde mundial); prata no 4×100 livre. Ainda terminou em quarto lugar no 200 livre e quinto no 100 livre.

Um ano depois, em 2013, Missy foi um dos grades destaques do Mundial de Barcelona, tornando-se a primeira mulher a ganhar seis medalhas de ouro em uma edição de Campeonato Mundial. Missy venceu o 100 e 200 costas e o 200 livre – nessa prova, superou a então bicampeã mundial Federica Pellegrini. Missy ainda abriu os revezamentos campeões do 4×100 livre e 4×100 medley e fechou o 4×200 livre – nessa prova, pulou na água 1 segundo atrás da Austrália e buscou o ouro (avance para o minuto 6 do vídeo para assistir o parcial):

Depois do Mundial, Missy decidiu estudar e treinar em Berkeley, na Universidade da Califórnia. Com isso, pode participar do NCAA mas precisou abrir mão de contratos publicitários, uma vez que a regra do NCAA não permite que os atletas recebam remuneração. Durante sua carreira universitária, ajudou o CAL a chegar ao título do NCAA em 2015 e se tornou a primeira mulher da história a nadar abaixo de 1’40 no 200 jardas livre.

Durante seus anos na faculdade, embora tenha sido destaque no NCAA, não conseguiu melhorar seus tempos em piscina longa. Em 2015, decidiu se profissionalizar e voltou a morar em Colorado e a treinar com Todd Smitz, seu técnico desde os 7 anos. No Mundial de Kazan, ficou fora do pódio do 100 costas, mas terminou em segundo lugar no 200 costas e terceiro no 200 livre.

Missy sempre se referiu com muito carinho a esse período na faculdade. “Depois das Olimpíadas de 2012, decidi continuar amadora e nadar pela faculdade, e essa foi uma das melhores decisões que já tomei.  As pessoas às vezes riam quando eu dizia que queria nadar na faculdade porque sabia que encontraria minhas futuras damas de honra no meu time e que elas se tornariam minha família por toda a vida“; atualmente noiva, Missy conta que conheceu quatro de suas madrinhas de casamento na faculdade.

A seletiva olímpica para o Rio foi um momento difícil. Missy começou a competição ficando em sétimo lugar no 100 costas, com 1’00”24, bem acima de sua melhor marca. Com isso, não poderia defender seu título olímpico da prova de 2012 no Rio.

Um dia depois, ela voltou à piscina para nadar a final do 200 livre. Essa é de longe minha prova preferida dela. Missy nadou na raia 6, virou os primeiros 100 metros em quarto lugar e terminou a prova em segundo, garantindo vaga para a prova individual no Rio, um dia depois de viver uma grande frustração. Seu técnico, ainda eufórico em entrevista após a prova, exalta seu poder de competição:

“I don’t even know what that third split was. She came out for that last one, she raced. That’s what Missy Franklin does, she races. And that’s what I knew, if she was in a position to get that hand on the wall, I was confident she was gonna do it. I said tonight it’s all about racing. Came off that last wall and walk that wall more than anybody else, and that’s what she did”.

[“Eu nem sei quanto foi o terceiro parcial. Ela deu a virada, ela competiu. Isso é o que Missy Franklin faz, ela compete. E eu sabia, que se ela estivesse em uma posição para bater a mão na parede e conseguir, ela faria isso. Eu disse para ela, hoje é sobre competir. Você vai virar e vai sair daquela parede mais forte do que todo mundo, e foi isso que ela fez”].

A expressão em seu rosto depois de ver o resultado fala por si.

Missy fala em sua carta de despedida como os primeiros 18 anos de sua carreira foram perfeitos. “A equação não poderia fazer mais sentido: você trabalha duro, você tem uma atitude positiva, você aparece todos os dias e dá o seu melhor, e você fica mais rápido. Foi assim que funcionou para mim. Eu trabalhei mais duro, treinei mais e nadei mais rápido, ano após ano”.

Mas nem sempre é assim. E o mais incrível sobre ela – ainda mais do que seus resultados com 17 e 18 anos, que sempre serão espetaculares – foi essa capacidade de seguir tentando depois que a equação parou de fazer tanto sentido, depois que trabalhar duro e fazer o melhor não significou ficar mais rápido. Um dia depois de ficar em sétimo lugar em uma prova em que era quase imbatível poucos meses antes, Missy conseguiu voltar para a piscina e lutar por um lugar na seleção olímpica americana.

Nas Olimpíadas, não passou das semifinais da prova e ainda perdeu a vaga do revezamento – ganhou o ouro por ter nadado nas eliminatórias, mas não esteve na final e não subiu ao pódio. Isso apenas 3 anos depois de ter fechado brilhantemente em Barcelona. Altos e baixos em um curto período de tempo. Não deve ter sido fácil para ela, e isso é mencionado na carta também: “Olhando para trás, sobreviver aos oito dias no Rio foi a maior conquista da minha carreira. Eu fui capaz de permanecer fiel a quem eu era tanto durante um fracasso e desapontamento como quando eu ganhei e fui a melhor do mundo”. Missy, que sempre foi sorridente e solítica, continuava atendendo às entrevistas e aos pedidos de autógrafos mesmo sofrendo muito por dentro.

Foi sua última grande competição internacional. Depois das Olimpíadas ela operou os dois ombros, mas o problema persistia. Tentou mudar de técnicos duas vezes, intensificou o tratamento e a fisioterapia, mas nada parecia adiantar. No último Campeonato Americano, Missy terminou em 17o e 19o lugar em suas provas, longe da final A. Abaixo, ela segura muito o choro em entrevista após a prova, falando em como estava desapontada.

Ler sua carta de despedida foi de partir o coração; sentirei falta dela, de seu final de prova, do sorriso antes e depois de nadar, da energia contagiante, da sua coragem de se colocar a prova mesmo estando muito distante de seu melhor. Mas como ela mesma disse: “Nadar foi uma parte importante da minha vida desde que eu consigo me lembrar, mas não foi toda a minha vida. Ainda tenho sonhos, objetivos, aspirações e intenções que planejo viver todos os dias da minha vida”. 

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