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Torcer para o Thiago

30 de março de 2017

AposentadoriasNenhum comentário em Torcer para o Thiago

Por Beatriz Nantes

Thiago Pereira, um dos maiores nomes da história da natação brasileira, anunciou ontem sua aposentadoria da natação competitiva. Não faltou nada em sua carreira: teve medalha olímpica, medalha de Mundial, recorde mundial, sulamericano, brasileiro e muitas medalhas de PAN – ninguém em nenhum esporte jamais ganhou mais medalhas na competição do que ele.

Para falar sobre toda sua trajetória, recomendo o ótimo texto de Daniel Takata na SwimChannel.

Eu peço licença do meu papel como jornalista e queria falar sobre o que representou torcer para o Thiago Pereira nos últimos 15 anos. Para isso, antes preciso falar sobre um nadador italiano.

Você conhece o Alessio Boggiato?

Nadador de 400 medley, ele foi quarto colocado nas Olimpiadas de Sidney, aos 19 anos.

Um ano depois, no Mundial de Fukuoka, Alessio Boggiato sagrou-se campeão mundial na prova. Foi uma edição especial para a natação masculina da Itália, que saiu do Mundial com 6 medalhas: 2 bronzes, 2 pratas (uma no revezamento 4×200 livre, superando os EUA) e 2 ouros, ambos nas provas de medley: Boggiato no 400 e Massimiliano Rosolino no 200.

Chegou Atenas-2004 e Michael Phelps já era o grande nome do 400 medley. Mas ninguém é invencível e o pódio tem 3 lugares; Boggiato nadou novamente a final, buscando sua medalha. Terminou em quarto lugar, 13 centésimos atras do terceiro, Laszlo Cseh.

Pequim 2008. Aos 27 anos, Boggiato nadou sua terceira final olímpica da prova.

Quarto lugar, de novo.

Três Olimpíadas, três quarto lugares.

A vida é mais que natação, é claro, e com certeza é muito mais do que uma medalha olímpica. Mas de vez em quando, em devaneios, me pergunto como Boggiato lida com isso depois de ter encerrado a carreira. Será que esses quarto lugares ainda atormentam seu sonhos?

Alessio+Boggiatto+Olympics+Day+5+Swimming+Ro_oybt6SC-l

Ser medalhista olímpico não é fácil, ser medalhista olímpico é gigante. São tantos nomes que se destacam em um ciclo olímpico – tanta gente treinando à exaustão 7 dias por semana, abrindo mão de um monte de coisa, tanta gente com muito talento e muito treino, e só três sobem no pódio. Depois de toda preparação, nadar muito bem na hora certa, e esse bem ser melhor do que o bem dos sete caras nas raias do lado.

Com tudo zerado atrás da baliza, um detalhe e a medalha vem, um detalhe e a medalha escapa, para sempre.

É cruel, é esporte.

Depois do Mundial de Roma-2009, quando Thiago Pereira ficou em quarto no 200 e 400 medley, lembrei do Boggiato. Thiago já tinha sido quinto em Atenas-2004 e quarto em Pequim-2008.

A forma como Thiago nadava – começando muito forte e tendo seu calcanhar de aquiles no crawl – dava desespero para quem torcia. E ai vinham todas as teorias: que ele amarelava, que ele não tinha a garra necessária para aguentar o final, e até o “mas se ele sabe que sempre cansa no crawl, porque não treina mais isso?” (verdade gente, ele e o técnico ainda não devem ter pensado nisso).

Eu via e quase morria. Começavam a anunciar a série final do 200 medley e meu estômago doía. Ele já era um nadador excelente, na verdade sempre foi. Vimos ele quebrar aqueles recordes do Ricardo Prado, aquela barreira do 2 minutos que parecia imbatível. Já parece um passado distante, mas pré Thiago o medley não era uma prova muito forte no Brasil. Hoje é, e ele tem grande participação nisso.

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Mas eu queria muito que ele conseguisse aquela medalha. Não porque ele precisasse provar nada para ninguém, mas por ele. Porque Thiago Pereira é um cara do porte de medalha olímpica. Nem todos nadadores com esse porte chegam lá, é muito difícil. E a história do Boggiato e seus três quarto lugares, justo no 400 medley, me assombrava.

Londres-2012, 28 de julho.

O Brasil vinha de um início de Olimpíada incrível, com ouro da Sarah Menezes e bronze de Felipe Kitadai no judô. A tarde começava a natação.

O 400 medley nem era a prova preferida do Thiago: ele chegou a cogitar não nadá-la. Seu foco era o 200. Mas lá estava ele na final, nadando na raia 6. Ryan Lochte, Michael Phelps, Chad Le Clos, Kosuke Hagino, Luca Marin, Yuya Horihata e Thomas Fraser-Holmes completavam a série.

Primeiros 100 metros, borboleta: Thiago em quarto.
Segundos 100 metros, costas: Thiago em quarto
Terceiros 100 metros, peito: Thiago em segundo.

Um parcial impecável de peito. Agora Thiago estava na frente do Phelps. Na frente do Hagino. Na frente do Le Clos. Desesperada, já antecipei que ele ainda viraria os 350 na frente, mas seria ultrapassado por dois desses três e terminaria em quarto. Lembrei do Boggiato.

Lochte estava disparado na frente e a câmera focou só nele. Eu me odiava por ter certeza que quando abrisse o Thiago estaria em quarto. Quando vi, estava em segundo. Ainda faltavam 25 metros. E depois 15. E os caras foram chegando. 5 metros. Pelo amor de Deus, o PHELPS estava chegando.

Até Londres-2012, apenas 13 nadadores na história tinham conseguido ganhar medalha em sua terceira Olimpíada depois de não subir ao pódio em duas edições (o incrível dado é da matéria do Takata).

Thiago foi o 14o caso. 

Segundo, na frente do Phelps. Na frente do PHELPS.

A Olimpíada podia acabar ali, foi lindo. E ainda penso sorrindo, 5 anos depois, como deve ter sido pro Thiago encostar a cabeça no travesseiro na Vila Olímpica naquela noite.

Ele ainda nadou o 200 medley e ficou em quarto. Foi para mais um ciclo olímpico, ganhou medalha nos dois Mundiais de longa (2013 e 2015) e chegou à final no Rio-2016, pela quarta Olimpíada consecutiva. Terminou em sétimo, depois de estar em segundo, cansando bastante no final.

Vou sentir muita falta do frio na barriga, do desespero nos últimos 50, do primeiro atleta do Brasil que acompanhei de longe desde o juvenil até chegar ao pódio mais desejado do esporte no mundo.

Não consigo imaginar um Maria Lenk sem ele, não consigo imaginar uma seleção brasileira sem ele.

Pelas lembranças, pelos quartos lugares, por não ter desistido, pela coragem e por aquele segundo, obrigada por tudo.

thiago

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0 comentários em "Torcer para o Thiago"

  1. Claudio disse:

    Texto verdadeiramente emocionante. Bia consegue transportar o leitor para beira da piscina para torcer juntos e sair molhado pelos respingos da competição.
    Bravo !!!

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