nag categoria de base

A profissionalização precoce na natação

6 de julho de 2017

Editoriais14 comentários em A profissionalização precoce na natação

Indo na contramão do mundo profissional não-esportivo, a natação a cada ano se vê mais precocemente profissionalizada. Entenda “profissionalizada”, não só o fato de se estar entre os melhores do mundo, mas o investimento e seriedade destinado a prática.

Lembro minha mãe dizendo que começou a trabalhar com 13 anos de idade, pra ajudar nas despesas da casa. Não à toa, se aposentou beirando os 50 anos de idade. Hoje, a prática poderia ser considerada como trabalho infantil.

Agora, tomando como exemplo a minha infância na natação (e considerando que eu era uma das atletas que mais levava os treinos e competições com seriedade), não me recordo de ver nadadores da minha idade com trajes iguais às estrelas brasileiras e mundiais da época, muito menos de se suplementarem. Acompanhar nutricionista, psicólogo, fisiologista com 12 anos de idade não existia. Fazer musculação só depois dos 15, “pra não atrapalhar o crescimento”.

Em campeonatos da categoria infantil, nos dias de hoje, a sensação que tenho é que temos mini-Cielos, mini-Joannas, mini-Fratus, mini-Etiennes, mini-Phelps. Igual mini craques, sabe? Todos com trajes, óculos e toucas de última geração. Todos com atitude “marrenta”, tentando imitar seus ídolos em gestos.

categoria de base natacao

Na época que eu vendia material esportivo, lembro de mães de nadadores petizes me ligando desesperadas porque seus filhos precisavam ter aquele super traje de lançamento, do contrário perderiam de seus adversários.

Aonde quero chegar?

Será que é saudável incentivar as crianças a levarem tão a sério o alto rendimento desde tão pequenos? Em uma fase que a evolução é tão natural e rápida, por si só, o quão dependentes de itens e fatores externos esses nadadores podem ficar ao longo da carreira?

O que vejo é cada vez mais nadadores de categoria de base fenômenos e recordistas que acabam estagnando depois dos 15/18 anos.

Considerando que a natação (e o esporte em geral) de alto rendimento é exaustiva e sacrificante, quanto antes se começa, mais rápido se chega ao esgotamento mental e físico. Imagina um nadador sofrendo pressão dos pais e dele mesmo desde os 12 anos de idade. Qual a probabilidade dele desistir de nadar aos 20? Ou começar a odiar a natação aos 25? Psicologicamente falando, o ser humano tende a criar repulsa por algo ou alguém que se dedica intensa e incessantemente e não recebe nenhum retorno ou compensação.

Por isso que é admirável ver atletas que lutam ciclo após ciclo pela sonhada vaga/medalha olímpica. Esses, que se mantêm motivados e felizes por mais de uma década mesmo com tanto sacrifício e sem alcançar seus objetivos, são casos raros, acredite.

Por outro lado, entendo pais quererem comprar o melhor que há disponível para seus filhos. Investirem, se possuem essa sorte e oportunidade. Por isso, sou bastante a favor da regra que criaram em uma das regiões dos Estados Unidos, em que nadadores de categoria não podem utilizar trajes em determinadas competições.

Minha opinião é que nadadores só poderiam começar a usar trajes a partir da categoria juvenil. E não é pelo traje em si. Acredite, não é o traje que vai fazer seu filho de 13 anos nadar rápido, mas sim a confiança que ele tem de que aquele traje vai ajuda-lo. Assim como a sunga não atrapalha seu filho, e sim o fato dele acreditar que quem usa traje nada mais rápido.

Os nadadores adultos de alto rendimento utilizam recursos tecnológicos e modernos para melhorarem apenas centésimos de segundo. Seu(a) filho(a) de 10 anos melhora vários segundos a cada queda n’água (saudades). Entende? A melhora é natural, o que os pais e treinadores precisam é apenas faze-los acreditarem que não dependem de nada externo nessa fase para nadarem mais rápido.

Por isso, fica o apelo: tentem fazer dessa fase dos seus filhos e pupilos a mais divertida e leve possível. Incentive-os a prática esportiva e competitiva, sim! Mas fazendo de tudo para que o brilho do esporte permaneça até o fim da carreira e além.

Posts relacionados

14 comentários em "A profissionalização precoce na natação"

  1. Debora disse:

    Que texto ótimo.
    Quando vou numa competição fico observando essa estória do traje tecnológico e acho um absurdo, vejo crianças do mirim super desconfortáveis, reclamando que não conseguem respirar de tão apertado que é o traje, pais que transformam os festivais numa competição de vida ou morte deixando as crianças tensas, nervosas.
    Sou mãe de uma menina de 13 anos que compete e venho evitando tudo isso, mas chega uma hora que, ou você entra no jogo ou cai fora.

  2. Não concordo muito com o texto abaixo. Se com trajes, suplementos, e etc, estamos bem distantes dos tempos de atletas de fora, imagina sem essas “ajudas”. Acredito sim que o que deva mudar, é a mentalidade e a forma com que os treinos são aplicados e exigidos. E não culpar a “precocidade” profissional. Quanto mais cedo o lado profissional e as exigências aparecerem nos atletas, mais cedo teremos possibilidades de atletas de ponta. Deixar bater os 15,16 17 anos para daí começar a querer profissionalizar o atleta, pois antes eles devam ser “infantis” ou sem as tais cobranças, acho meio tardio e sem possibilidade de tempo de bons resultados. Quando não há profissionalismo as pessoas cobram, e quando há, reclamam de excessos. Daí nao dá pra entender. “!!! Realmente o fato de usar um traje nao irá mudar em quase nada o tempo dos atletas amadores, mas só o fato de acostumá-los com o que há de mais profissional, tanto em postura, quanto equipamentos, já acho válido. Agora se eles vão se estagnar ou cansar quando estiverem maiores, daí vai da personalidade, talento, competência e cobrança de cada caso.!!!

    • Augusto Torres disse:

      É perigoso tratar crianças como profissionais de um esporte que é amador no Brasil. O ponto do texto é que o tratamento profissional (trajes, suplementos, psicólogos) para atletas de 11,12,13 anos não garante o destaque a longo prazo, pelo contrário, prejudica pelo excesso de estresse e cobranças numa fase de franco desenvolvimento físico e mental.

  3. Sigried disse:

    Crianças não precisam de “periféricos” como trajes e suplementos, mas amor, carinho, atenção e… educativos! Se os atletas estrangeiros estão mais bem qualificados tão jovens, isso certamente se deve a um treino esmerado e cuidadoso, focando em movimentação correta e evitando futuras lesões.
    Pode haver alguns que necessitem de atenção com a alimentação desde cedo, por excesso ou falta de peso, mas aí são outros quinhentos…

  4. Wilson disse:

    Tudo é discutido e as opiniões são diferentes mas aproveitáveis ! Na minha concepção a idade para se treinar com seriedade e alto rendimento dependendo do objetivo e sim os pais podem optar por isso uma vez que os pequenos atletas são dependentes. Nós países de primeiro (mundo), eles quando se voltam ao esporte seja natação ou outro se dedicam e se tornam destaques com muito esforço e dedicação inclusive preparo psicologico , sendo cobrado! Porque num mundial a pressão é forte e quem já está habituado a ser cobrado , vai tirar de letra. No Brasil existe muito “lúdico” beleza . Brincar é bom e faz parte e é direito da criança ou pré adolescente , mas quem almeja ser um campeão ,os treinos tem que ser fortes , desde pequeno , e se as roupas ou tecnologia ajuda no desempenho isso deve ser usado sim . O apse da carreira de um atleta não é longo e se começa cedo ele deve surgir na idade certa 16 a 25 anos . Essa minha opinião !!!

  5. Alberto disse:

    Texto perfeito, o que faz o atleta evoluir é a disciplina e dedicação , trajes para atletas de juvenil para baixo não apresenta melhria de rendimento, não vale o investimento.

  6. Rafael da Hora disse:

    Exatamente isso que ocorreu comigo. Dos 9 aos 16 foram inumeros treinos inclusive de madrugada, uma exaustiva rotina que me afastava de festas e experiências que a idade e a época promovem. Tudo bem que nunca figurei em muitos pódiuns em brasileiros infantis e juvenis, mas o desgaste nao me deixou tentar buscar o alto nivel de fato. Simplesmente não quis tentar mais um ano. As vezes me arrependo de não ter tentado fazer aquele tempo que tinha treinado para fazer nos 200 livre. E se eu tivesse feito? Será que hoje as coisas seriam diferentes? Será que eu poderia ser olimpico?
    A pergunta que fica é quantos e quantos atletas nao perdemos por essa precocidade? Será que a culpa é só dos tecnicos e pais por isso acontecer ou pelo fato do esporte ter pouco apoio de patrocinadores que querem atletas prontos para prover a sua marca…enfim desculpem o desabafo.

  7. Excelente texto! Não temos o que discutir sobre sua posição, durante a infância tem que haver o equilíbrio entre a responsa de uma competição e a alegria de praticar diariamente tal atividade.
    Eu tenho um aluno de Personal extremamente competitivo no qual sou eu quem deve dosar os desafios dele para que ele se frustre em excesso. Quando ainda estava a conhecê-lo eu o estimulei algumas vezes para ver qual era o seu limite, e descobri que neste caso não haviam limites para ele, portanto cabe a nós adultos trabalhar com sabedoria. É legal ver um menino se esforçando e quebrando barreiras? É. Mas é saudável para ele? As vezes não…

  8. Ed disse:

    A desigualdade social atinge tudo e todos. Mas infelizmente sempre será assim
    Hoje para ser um atleta de alto rendimento tem que ter muita $orte

  9. Fábio LATUF disse:

    Parecer pertinente.

  10. Rafael Oliveira disse:

    Excelente reflexão, parabéns pelo texto. O lúdico faz parte do universo infantil, por isso concordo com a sugestão de permitir o uso de trajes apenas no juvenil. Lembrando que até 2010 a situação era ainda pior com os trajes tecnológicos, caros e de pouca durabilidade, beneficiando apenas aos mais abastados e excluindo os demais. Nos Estados Unidos há um perfeito sincronismo entre estudos e treinamento, logo, a natação é vista como um investimento na formação profissional (concessão de bolsas de estudo) e o profissionalismo é apenas uma consequência.

  11. Diego disse:

    Lindo texto , acredito que crianças devem ser motivadas a nadar a apurar a técnica, com alegria e não a velocidade embora competições sejam importantes para motivar a nadar mais e fazer amigos e experiências novas . Mas nem um por cento vai ir para as olimpíadas e por isso mesmo o ensino da natação deveria priorizar a a técnica o aprender a fazer bem feito , com apuro pois este aprendizado é que a criança vai levar para a vida adulta. Não obstante o corpo ainda em crescimento e com uma técnica apurada vai cada vez nadar mais forte, rápido e com menos desgaste . Ah a roupa tecnológica fica para depois disso tudo…. mas é bem vinda para competições estaduais, etapas do Brasileiro .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

« »