brandonn pierry

Brandonn e Joanna

17 de julho de 2015

Editoriais, Toronto 20155 comentários em Brandonn e Joanna

Competições em que muita gente está nadando bem tem desses “problemas”: não dá muito tempo para falar sobre um grande feito, porque a próxima etapa está ai, cheia de novas emoções e novos “grandes feitos” para relatar. Mas só por um momento vou quebrar essa regra jornalística. Hoje já é dia de torcer e falar de Etiene, Guido, Carol, Leo, Bruno, Graciele e tantos outros, mas ainda vou me demorar um pouco no dia mágico que presenciamos ontem.

Por que mágico?

Passei a manhã tentando encontrar um paralelo do que é ficar 11 anos sem melhorar um tempo em sua principal prova. Pensei em paralelos no mundo dos negócios, no mundo escolar, na vida amorosa, mas não encontrei nada: talvez porque melhora de tempo pertença só a esse universo particular do esporte. Ele não é melhor ou pior do que os outros mundos, mas tem uma magia própria. Não tem muito jeito: eu posso falar sobre toda a beleza e crueldade de acordar dia sim dia sim para treinar depois de bater na trave em 2008, 2009, 2012, posso falar sobre perseverar depois de crises de pânico e sobre dúvidas que vem no meio da noite: “será que um dia vai rolar”, posso falar sobre treinos com paraquedas, sobre lactato e musculação pesada, mas não é fácil entender. Talvez a foto ajude um pouco.

Foto: Satiro Sodré/SSPress

Foto: Satiro Sodré/SSPress

 

Talvez esse post no instagram ajude um pouco mais:

jujuca1987 Nas minhas conversas com Deus, eu perguntava pra ele se eu iria viver com esse fardo, perguntava se valia a pena tentar mais uma vez, se era melhor deixar do jeito que estava, eu batia na trave, eu sofria, eu perguntava pra ele: “o que você quer de mim?” E ele NUNCA me deixou sem resposta. Porque todas as vezes que eu batia na trave, logo após a prova eu sentia uma força que me impulsionava pra tentar mais uma vez. Obrigada Deus, por ter me guiado, ouvido meus pedidos de ajuda, soprado no meu ouvido o quanto você me ama nas crises de pânico, por ter se feito presente na minha vida através de pessoas tão iluminadas. Obrigada mesmo, os 11 anos de espera fizeram sentido, obrigada por ter me colocado na piscina novamente, eu só posso te agradecer mesmo. E as pessoas, meu muito obrigada também! Todos vocês, que ao longo desses 11 anos me disseram em inúmeras oportunidades “eu acredito em você”. Obrigada a vocês por terem depositado em mim uma confiança que não sei se mereço. Agradeço também aos que se fizeram presentes pra me ensinar lições, vocês podem ter me feito mal com atitudes e/ou palavras mas de alguma forma essas porradas me tornaram mais forte, então obrigada a vocês também. Hoje é o dia mais feliz da minha carreira, seja ele acompanhado de um bronze ou de um quarto lugar, eu tenho em mim a certeza de que no dia de hoje, eu nunca fui tão feliz. 💚💛💙🇧🇷😂

Mágico também foi ver o exato momento em que Brandonn Pierry Almeida colocou a mão na cabeça sem acreditar no que via no placar.

Volta 5 anos, e prometo que o flashback vai ser rápido: meu irmão, Caio, voltava do seu primeiro dia de estágio como auxiliar da equipe infantil do Corinthians. Perguntei se tinha algum destaque da equipe e ele respondeu: “tem o Brandonn, fundista, sabe? é um fenômeno do petiz.”. Eu não sabia. Falamos mais um pouco sobre ele (e sou grata a minha memória porque eu lembro exatamente desse dia; se eu estivesse lendo esse texto talvez não acreditasse nisso, mas é verdade).

Só que a gente conhece a história. Quantos fenômenos petiz nós já vimos, continuamos vendo, e vamos continuar a ver? Ser um fenômeno petiz é muito diferente de se manter um fenômeno infantil, juvenil, júnior, e o mais difícil, absoluto. Chegar à seleção absoluta já é um grande feito. Se destacar nela é mais difícil ainda. O funil das gerações é cruel.

E não tem problema: o esporte vale mesmo assim. Não vale a pena ter nadado e se dedicado nas categorias de base só se o resultado final é uma medalha olímpica; vale a pena se você dá importância para aquilo e consegue extrair o melhor de tudo. A dimensão individual de viver o esporte competitivo é inegável e isso é uma coisa que ninguém tira de você.

Mas como é bonito quando “vai”. Naquele dia em 2010 eu só pensei “que legal que tem um fundista bom lá, vou acompanhar”, mas jamais imaginava ali que o Brandonn viraria campeão panamericano, que ele poderia virar olímpico. Nesse meio tempo, as coisas que achei mais legal de acompanhar na sua trajetória foi saber o quanto ele é um viciado em treino e apaixonado pela jornada. Entrevistei o Brandonn em 2013 e não esqueço de quando eu perguntei: “Você gosta de treinar”. Foi assim:

“Voce gosta de treinar?
Adoro treinar. Eu prefiro treinar do que competir.

Por que?
Nao sei…

Coisa de fundista?
Acho que sim, é coisa de fundista gostar de treinar né. Eu gosto de competir também, mas eu gosto muito dessa coisa de treino.”

“Eu gosto muito dessa coisa de treino”; essa frase é maravilhosa.

Em um dia de PAN que começou com uma notícia triste de doping, que bom ver a vitória de dois atletas que valorizam a jornada. São esses atletas que precisamos formar. É o que Bob Bowmann, técnico de Michael Phelps, falou semana passada: “Não é sobre excelência a cada 4 anos, é sobre ser excelente hoje, em uma sexta-feira a tarde”. Jornada é sobre valorizar cada treino de madrugada, cada série de perna e cada competição de preparação – foi o Caio quem me disse isso; jornada é fazer um treino porrada e repetir amanhã tudo de novo, e repetir de novo, sem ter certeza do resultado, jornada é o que a Joanna tentou explicar e muita gente não entendeu: não é a medalha, definitivamente não é a medalha, é todo o processo e todas as pessoas para chegar lá. A imagem mais linda de Joanna ontem foi seu abraço no Amém: valorizar o técnico é valorizar a jornada. E ironicamente, esses dois atletas que já estavam em êxtase com seu tempo e não precisavam de nada mais, ainda herdaram medalhas depois de desclassificações: Joanna o bronze, Brandonn o ouro.

Jornada.

Screen Shot 2015-07-17 at 12.54.33 PM

 

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5 comentários em "Brandonn e Joanna"

  1. Renato disse:

    Espetáculo de post, Beatriz. Irretocável!

  2. Fabio Onodera disse:

    O jornalista para Brandonn: O que vc esta sentindo?
    Brendonn para ele mesmo: Nao sei cara. Nao sei o que dizer.

  3. Thalandra disse:

    Maravilhoso o post Beatriz ! Parabéns pelas belas palavras

  4. Teresinha Maranhão disse:

    Posso falar com clareza dos 4.40 de Atenas de Joanna, eu estava lá, sem muita noção da grandeza do fato histórico, do valor da marca pessoal, Brasil, 14 anos após Piedade Coutinho, uma final Olímpica, uma menina de 17 anos, franca atiradora, depois a coisa ficou mais séria, treinos, treinos, mudanças de clubes, país, estado, enfim, falta de patrocínio, mãetrocínio, desencantos, aposentadoria precoce, volta a nadar, novamente muda de Clube e Estado, excelente adaptação, pessoas sérias, ótima estrutura e com determinação. Nesses 11 anos, diminuiu seus tempos em todas as provas, até a que nunca foi especialista, exceto os 4.40 dos 400 medley, chegou a 4.40.01, parecia uma barreira intransponível.Hoje fluiu, quase 2 segundos abaixo, valeu a pena, cada dia, cada treino,cada dor, Valeu tudo a pena, VAI JUJUCA…

  5. José Moura disse:

    A mais pura verdade!

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