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(Des)classificação do Zika-vírus

8 de fevereiro de 2016

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Em pleno carnaval, e muito antes dele, o Brasil tem vivido uma grande preocupação: a epidemia de Zika. Sinto que todo verão há sempre uma grande preocupação com epidemias. E que epidemia é sempre uma grande preocupação: de fato.

E tratando-se de risco de epidemia no ano e no país que vai sediar os Jogos Olímpicos, a preocupação é mundial. E tratando-se de risco de epidemia em um país sub-desenvolvido, a preocupação dá lugar ao caos. Dentre uma manchete e outra sobre o assunto, quase nunca clicada, parei em uma da Forbes em inglês: “Surto de Zika significa que é hora de cancelar as Olimpíadas do Rio

Opa, cliquei. Um título sensacionalista desse, em um site renomado e não esportivo, deve ter conteúdo importante e relevante. Será mesmo que precisaremos cancelar os Jogos?

Após o segundo parágrafo, parei de levar em consideração. Me senti lendo um desses textos sobre política brasileira, extremamente tendenciosos. Terminei o texto decepcionada e resolvi dar uma pesquisada sobre Zika, pra ter certeza de que não estava louca sendo precipitada com as minhas conclusões.

Para simplificar e ser bem direta, peguei 3 trechos do texto da Forbes que considero equivocados, como:

“Mulheres jovens não podem viajar para lá [Brasil] de forma segura (…) Quem vai viajar para o Rio no meio de um surto de Zika? Não serão jovens mulheres fãs do esporte, que podem engravidar e correr o risco de ter uma criança com deficiência. Nem fãs homens que são sexualmente ativos e correm o risco de transmitir a doença à sua parceira.”

Primeiro e o mais importante: De acordo com o último Informe Epidemiológico, até 30 de janeiro haviam sido registrados 4783 casos suspeitos de microcefalia. Até semana passada, 709 casos já haviam sido descartados e 404 confirmados. Desses 404, 4,2% já tiveram a confirmação de que estão ligados ao Zika. Então, por enquanto, temos 17 casos de recém-nascidos com microcefalia ligados ao Zika vírus.

Dentro desses casos descartados, estão bebês que não possuem microcefalia ou que possuem, mas devido a causas não-infecciosas. Consumo de drogas pela mãe e radiação, por exemplo, podem provocar microcefalia no feto.

Não há nenhum registro também de que o vírus permaneça na pessoa contaminada, após a doença. Em trecho do site do Ministério da Saúde: “Conforme estudos aplicados na Polinésia Francesa, não foi identificada a replicação do vírus em amostras do leite, assim como a doença não pode ser classificada como sexualmente transmissível.”

Ou seja, ainda há muito a ser estudado, mas por enquanto não há indícios de que uma mulher que não está grávida corre riscos de infectar seu futuro bebê e nem seu parceiro lhe transmita a doença através de relações sexuais.

De qualquer modo, agora no carnaval, já que nada ainda está comprovado, todo cuidado é pouco. Já que ainda não foram descartados os contágios de Zika através de: saliva, urina e semen.

Insetos hospedeiros de vírus atacando pessoas em uma cidade que sediará um mega evento esportivo parece um roteiro de Hollywood. Mas isso não é um ficção científica ou filme de ação (…) O Zika virus é real.

Sim, esse foi o tipo de texto utilizado pelo Dr. Arthur L. Caplan para a Forbes, para convencer seus leitores de que estamos vivendo a 7ª praga do Egito. Em primeiro lugar, o Ministério explica que cerca de oito em cada dez infectados não têm sintomas. Desta forma, a maioria das pessoas que contrai Zika melhora sem que seus casos sejam registrados em médicos.

Isso, por um lado, pode inferir que há muito mais casos que imaginamos. Mas olhando o copo meio cheio, nos faz acreditar que não trata-se de uma Ébola, por exemplo.

Não estou aqui para banalizar um assunto que é, sim, muito sério. Mas acho importante, antes de publicar algo só pelo fato de lhe ser conveniente, que pondere e pesquise. Ainda mais tratando-se de um veículo formador de milhares – se não milhões – de opiniões.

O meu principal ponto e que me encorajou a postar em um blog sobre natação é: se, de fato, o Brasil estiver rumo à calamidade pública, colocando em risco atletas brasileiros e de todo o mundo, cancele/adie/transfira os Jogos Olímpicos, sim! Mas lendo textos como esse da Forbes, mais me parece uma forma de tentar convencer as pessoas de que países como o Brasil nunca estarão preparados para receber um evento de tal porte.

“O COI precisa ou transferir os Jogos, ou adiar ou cancelar. Prevenção é o melhor caminho em face a uma séria ameaça à humanidade.”

Estando ou não com razão, usem os argumentos certos, por favor. Enquanto o COI permanecer com o Brasil como sede, façamos de tudo para recepciona-los com a melhor estrutura e o carisma que só nós possuímos. E o principal – pelo bem da população e principalmente das gestantes: sem epidemias.

Leia também esse texto em inglês do The New York Times.

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