Quanto vale o Mundial de curta?

4 de dezembro de 2014

Editoriais2 comentários em Quanto vale o Mundial de curta?

Hoje a tarde assistimos um dia histórico do Brasil no Mundial de Curta. Como sempre, junto aos parabéns vimos indagações sobre “como o Brasil só consegue desempenhar bem na curta e em provas não-olímpicas” ou sobre a ausência dos EUA e China com força total na competição. “O que importa são as Olimpíadas, o que adianta ganhar essa prova aqui e não pegar nem final lá?”

Nadadores não são burros. A Swim Brasil fez uma série de entrevistas com nadadores de destaque do país esse ano e 99% deles disseram a mesma coisa: “ESTOU TREINANDO PARA A PROVA OLÍMPICA X, NA LONGA. TENHO FACILIDADE NA CURTA, MAS O FOCO É A LONGA”. Já ouvi isso centenas de vezes na zona mista do Maria Lenk, em entrevistas ao vivo e por telefone. Podemos questionar o motivo de termos resultados tão bons em provas de 50 estilo e provas de piscina curta, que não servem de parâmetro para Olimpíadas, podemos questionar a distribuição de verbas e bolsas levando em conta esses critérios, mas não podemos nem devemos questionar uma conquista Mundial feita em um campeonato legítimo e importante.

Ele é tão importante como o mundial de longa? Claro que não é. Mas vale muito, sim, e deve ser valorizado como tal. E os nadadores sabem dessa distinção – todos eles sabem, eu garanto. Assim como sabem o quanto vale o PAN, o quanto vale o Pan Pacífico, o quanto vale o Maria Lenk, o quando vale as Olimpíadas. E na verdade, no fundo, o valor de cada competição é relativo. Existe, claro, a relevância em termos gerais, mas existe também a relevância individual, a qual ninguém pode julgar.

De uma vez por todas: precisamos parar de diminuir uma conquista pensando apenas no que ela “significa” em termos olímpicos. Da mesma forma que parte da imprensa e das pessoas precisa começar a se informar minimamente sobre natação e, sem perder o respeito, saber que um resultado agora não garante nada daqui a 2 anos. Vamos sediar uma Olimpíada, já está na hora de parar de menosprezar ou exaltar tudo sem distinção, como se as coisas fossem todas um grande fracasso ou uma grande festa.

Os Estados Unidos estão quase com força máxima, com poucos nadadores ausentes. O Brasil também não tem o time completo, já que estamos sem Thiago Pereira, Nicolas Nilo, Leo de Deus e Bruno Fratus, que haviam se classificado mas desistiram da competição. Por outro lado, é nítido que comparado com outros países, inclusive o Brasil, o comprometimento americano em relação a esse Mundial costuma ser menor. E nem podemos culpá-los (nem os americanos, nem os brasileiros que não foram): teremos 2 longos e árduos anos até o Rio, não fazendo sentido um desgaste excessivo físico e mental nesse momento para os que não dão esse valor ao Mundial de curta, ao menos nesse momento. Também pode-se falar sobre o destaque brasileiro em provas não-olímpicas, algo que não é de hoje…

Mas calma lá: Felipe França venceu uma prova olímpica. Em cima do campeão olímpico, inclusive, que nem subiu ao pódio. Cameron, Manaudou, Ranomi, Gyurta, Lochte… estão todos em Doha. E se estão, é porque dão importância ao evento.

Em minha opinião, é muito pobre pensar em todas as provas levando em conta “o que isso significa para as Olimpíadas”. É claro que a Olímpiada é o sonho máximo da maioria dos atletas. Mas para chegar lá, existe uma jornada (o esporte seria mais limpo e ético se as pessoas entendessem isso e parassem de buscar atalhos, valorizando a jornada). Uma competição como esse Mundial faz parte dessa jornada.

Nada melhor para um nadador, que vive uma rotina de treinos massacrante, ter competições no meio do caminho que sirvam de motivação a seguir treinando. Para ajudar a encostar a cabeça no travesseiro com a alegria de finalmente ter melhorado um tempo e  estar no caminho certo.

Só nesses 2 primeiros dias tivemos vários desses momentos. O quanto vale para Mireia Belmonte vencer Katinka Hosszu em duas provas incríveis? Só porque é na curta isso não tem importância? Felipe França ficou fora da seleção ano passado e hoje, depois de muito treino, dúvidas e recomeços, viveu um dia de glória. O quanto vale isso? O quanto vale segurar a medalhista de mundial Fran Halsall fechando um revezamento? E ouvir o hino do Brasil no pódio? E para um técnico, ver um atleta que treina diariamente batendo a mão na frente de todo mundo? E a felicidade de, pela primeira vez em anos, melhorar o tempo?

Faltam dois anos para as Olimpíadas e há muito o que fazer e evoluir. Mas hoje é dia de comemorar e ficar muito orgulhoso – nossos nadadores têm todos os motivos do mundo para dormir muito felizes.

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2 comentários em "Quanto vale o Mundial de curta?"

  1. Marcel Pacheco disse:

    Perfeito. Para um nadador nada se compara à felicidade de ver que superou o seu proprio tempo. Provas são provas, competições são competições, ganhar é excelente…. mas superar o próprio tempo é maravilhoso!!
    Quantas vezes vemos um atleta chegar em 6° ou mesmo 8° e sair feliz da vida, pq superou, e muito, a sua melhor marca? E até quando alguém vence, mas não se satisfaz pq não fez bom tempo?
    A grande verdade é que para quem passa grande parte de seus dias se dedicando e esforcando ao maximo, o que vale no final é saber que consegue se superar e que os treinos estao surtindo esse efeito…
    Ademais, PARABENS a toda essa equipe fantastica do Brasil!!! O rev. misto se mostrou uma prova maneirissima de acompanhar!! Sensacional!!! Entrou pra ficar e nao sair mais….

  2. Sem tirar nem pôr, concordo plenamente, Beatriz. Tudo já foi dito. Que importa ser de piscina curta, que importa ser de piscina longa. O que importa é que nunca a natação brasileira esteve tão bem e nossos nadadores merecem todos os aplausos porque estamos vendo a melhor geração de nadadores aqui criada. Me arrisco a dizer que melhor até que a de Gustavo Borges e cia.
    E imagino que, com o psicológico na boa e melhores investimentos, vamos, se não superar, entrar em pé de igualdade com EUA, Europa e Austrália. Pelo menos!

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