A medalha

3 de setembro de 2018

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Carolina Athayde tinha 14 anos quando nadou seu primeiro Campeonato Brasileiro Absoluto, em 2000, na lendária piscina do Julio de Lamare, Rio de Janeiro. A prova foi o 100 borboleta e a competição, o Troféu José Finkel. Carol terminou em 14o lugar na prova, uma posição à frente de sua irmã mais velha, Tatiana Athayde. As duas defendiam o Vasco da Gama, clube campeão daquela competição com um super time, incluindo a campeã olímpica Inge de Brujin, que chegou a bater o recorde mundial do 50 livre naquele Finkel.

Para Carolina, uma das atletas mais novas dessa equipe do Vasco, aquela seria a primeira de 30 participações em Campeonatos Absolutos até hoje. Desde 2000, foram muitas finais A e B nas provas individuais, alguns sextos lugares, alguns anos parada por problemas financeiros, algumas medalhas de revezamentos, momentos de dedicação integral e de atenção dividida com outras responsabilidades, alguns quartos lugares, o nascimento de sua filha, outra volta às piscinas, treinos sozinhas até que, 18 anos depois da estreia, no Troféu José Finkel de 2018, Carolina ganharia sua primeira medalha individual em um Brasileiro absoluto. Uma história de persistência e amor ao esporte.

*

“Comecei com dois anos de idade. Era muito levada, tomava banho de pia, de tanque. Minha mãe, Rose, viu que eu gostava muito de água e me colocou na natação. Minha avó Odete me levava para a aula, e a própria professora falou pra me levar para um clube que federasse, porque eu tinha talento”, conta Carolina Athayde.

Ela e sua irmã nadaram um tempo no Canto do Rio, clube de Niterói que revelou o finalista olímpico Gabriel Mangabeira, também nadador de borboleta. Depois, as duas passaram a defender o Fluminense. “Minha mãe viu que para melhorar as pessoas iam para os clubes do Rio. Ela e meu pai nunca mediram esforços para dar tudo do bom e melhor para nós. Eu e minha irmã começamos a ir van para o Fluminense. Demorávamos duas horas de Niterói até chegar lá”.

O esforço dava resultados. Em seu primeiro Campeonato Brasileiro de categoria, em 1999, Carolina já se destacou: venceu o 100 borboleta, batendo o recorde da prova nas eliminatórias.

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Começava ali um domínio incrível: Carolina venceu o 100 borboleta em todos os Brasileiros de categoria que disputou de infantil a juvenil, sendo campeã seis vezes. Foi também campeã do Troféu Chico Piscina e foi convocada para a Seleção Brasileira Juvenil, disputando o Sulamericano em Medelin, ao lado de nomes como Joanna Maranhão, Lucas Salatta e Mariana Brochado. Na competição, conquistou o ouro no revezamento e ficou em 3o lugar na prova de 100 borboleta.

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Um ano depois da estreia no Finkel, Carolina pegou sua primeira final A na competição. Com 15 anos, ela terminou em quarto lugar no 50 borboleta a apenas 13 centésimos do pódio, atrás de Monique Ferreira, Ivi Monteiro e Fabíola Molina.

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Desde então, Carolina continuou batendo na trave algumas vezes. Em 2005, ficou novamente em quarto lugar, dessa vez no Open. Viveu os momentos de altos e baixos da natação do Rio de Janeiro, além dos seus próprios altos e baixos no esporte.

“Já fiquei três anos sem melhorar meu tempo. Mas se você faz aquilo que ama, não desiste. Mesmo sabendo que, financeiramente, nenhum clube ia me ajudar em alguns momentos, porque eu não era a melhor, continuei seguindo. Tive pessoas que me apoiaram muito. Falava para a minha avó que não sabia se continuava, que tinha dúvidas. E ela dizia: ‘eu sei que é difícil, mas se você ama não para, isso te faz tão bem..’. Minha mãe também sempre me apoiou muito”.

Depois de defender o Fluminense e Vasco, Carolina foi para o Flamengo em 2008, chamada por um antigo técnico. “Fui quando não tinha mais opção nenhuma. Não sei porque, tinha um pé atrás com o Flamengo.. e hoje em dia eu amo aquele lugar. Engraçado, você nunca se vê lá, e de repente não se vem sem aquilo”.

Em 2011, Carolina ficou ainda mais perto do pódio individual: depois de terminar em sexto lugar no Maria Lenk e sétimo no Finkel, foi quarta colocada no Open no 100 borboleta, com 1’01”50, apenas 7 centésimos atrás da terceira colocada. No Maria Lenk, ainda subiu ao pódio com o Flamengo no revezamento.

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Em 2012, uma surpresa que mudaria a vida de Carolina. Sem saber, nadou o Maria Lenk, que naquele ano foi seletiva para as Olimpíadas de Londres, grávida de sua primeira filha. “Eu estava desconfiada. Quando acabou a competição fiz sete exames e todos deram positivo. Assim que soube eu parei de nadar, mas continuei no Flamengo como assistente do meu técnico”. Manu, sua primeira e única filha nasceu em dezembro de 2012. Assim que o médico liberou, Carolina voltou a nadar, treinando sozinha em Niterói, onde mora. Chegou a disputar o Maria Lenk de 2013 pelo Botafogo e teve que parar de nadar novamente.

“Fiquei um tempo parada, precisava me reestruturar financeiramente e ajudar na estrutura familiar. No meio de 2015, li uma postagem falando que a seletiva olímpica para 2016 seria na piscina das Olimpíadas, e eu queria muito nadar lá. Liguei para o Nandão [Fernando Pereira, seu técnico até hoje] e falei que queria voltar. Fiquei um tempo fazendo o treino dele sozinha em Niterói”. Conseguiu o índice para a competição e, em 2016, nadando pelo Flamengo, atingiu o objetivo de nadar na piscina olímpica, terminando a prova do 100 borboleta em 13o lugar.

Depois do resultado, Carolina pensou em novas metas na natação. “Eu nadava e trabalhava em Niterói, era professora de natação e de personal, estava com a vida mais organizada financeiramente. No lugar onde eu trabalhava tinha uma pessoa da coordenação que me incentivou muito a me manter como atleta. Ela falava: “vai competir, não para! Quanto tiver competição a gente dá um jeito aqui”. Ai coloquei como objetivo nadar para 59” de 100 borboleta na curta, que eu nunca tinha nadado. E tentar buscar minha medalha, que eu tentava desde os 15 anos. Sempre falo para meus atletas e amigos que a vida é feita disso: criar objetivos para seguir naquilo que você gosta”.

Em 2017 veio o convite para ser técnica da categoria mirim do Flamengo e uma decisão difícil pela frente. “Fiquei muito feliz quando me chamaram, porque tinha um sonho de ser técnica de uma equipe grande.. e era o Flamengo. Mas estava muito indecisa, pela questão financeira e de ficar longe da minha filha. Nos primeiros anos dela eu fiz tudo: dava banho, buscava na escola. Quem me ajudou a decidir foi minha mãe. Ela me falou: “a única chance que você tem é agora. Eu sempre trabalhei e fiquei longe de vocês, não é isso que vai fazer sua filha deixar de te amar. Foi difícil decidir. Mas às vezes você tem que andar para trás para depois ir para frente”.

A decisão deu certo. Hoje Carolina fala que o Flamengo é uma grande família para ela. “O técnico do infantil, Ney, foi meu técnico de petiz. O do petiz foi meu calouro em Mococa, é mais novo que eu. Dificilmente você vai me ver de mau humor, eu chego lá para fazer o que gosto, que é treinar e dar treino”. A rotina é desgastante: Carolina sai de casa às 5h30 e volta às 20h30, contando com a ajuda da mãe de criação de seu marido, Délcio, para ajudar com sua filha. “Ele também é um paizão, faz tudo”.

E embora ser técnica de uma grande equipe seja um sonho realizado, Carolina não desistiu do outro: conseguir sua medalha individual de Brasileiro Absoluto. Mesmo nadando no Flamengo, seguiu fazendo sozinha os treinos de Nandão, porque o horário da equipe principal bate com o treino do mirim. A rotina de treinos inclui sessões de 2 horas por dia, com dobra terça e quinta, e preparação física três vezes por semana.

Em 2017, novamente ficou em 4o lugar no Open.

Em 2018, a busca do sonho continuou. No Maria Lenk, em maio, ficou em quinto no 100 borboleta e conseguiu nadar para 1’00 de 100 borboleta. Aos 32 anos, Carolina estava melhorando seus tempos tanto em piscina curta como na longa. Ela atribui a melhora ao tipo de treino de Nandão, aeróbico com intervalo curto. “Desde que estou com ele, melhorei demais”. Por influência dele, ela que sempre foi especialista no 100 borboleta, começou a nadar mais a prova de 200.

Enfim, chegamos ao Finkel. Sua 30a participação em Campeonatos Brasileiros absolutos.

No primeiro dia de competição, no Pinheiros, Carolina nadou bem o 100 borboleta, conseguindo fazer 59”05. No segundo dia, veio uma medalha no revezamento 4×200 livre, em que fechou para 2’00. A medalha já deixou Carolina aliviada: ela tinha dito para a filha que voltaria com uma na bagagem. “Quando ganhei pensei: que bom, já tenho a medalha para ela! Mas eu queria a minha individual também”.

No terceiro dia, veio o 200 borboleta. E a expectativa dela e do técnico era de alcançar o sonhado pódio naquela prova.

“Eu tinha certeza que ia nadar para 2’10 e sabia que com esse tempo ia ter chances. Mas não fui muito focada nisso, porque sempre que ia pilhada demais na medalha acabava sendo ruim. Fui tranquila, acho que essa maturidade ajudou. Sabia que tinha que estar preparada para não me preocupar com quem estava do meu lado”.

“Na hora da prova, só conseguia ver a Giovanna Diamante, que estava na frente. Sabia que estava disputando com as meninas da outra ponta, a Maria Pessanha e a Naná Almeida. Não conseguia ver. Quando bati na borda, não olhei nem o tempo. Só vi aquele 2 do lado da minha raia, não conseguia acreditar. Foi muito tempo treinando para isso e agora foi. Consegui lavar minha alma. Parece que fui recompensada por tudo”.

Aos 32 anos, 18 anos depois de seu primeiro Finkel, Carolina Athayde subiu ao pódio individual pela primeira vez.

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Quando ligou para contar para a filha, ela estava alucinada. “Quando falei que tinha conseguido mais uma medalha, ela virou pro meu marido e falou: “papai, a minha mãe tá demais, ela ganhou outra medalha.. ela tá nadando muito!”.

“2018 está sendo um mega ano para mim. O mirim do Flamengo conseguiu ser campeão do Sudeste no início do ano, depois de muito tempo. Consegui entrar para a Marinha como atleta de lifesaving, o que é uma grande conquista para mim. E agora veio a medalha”.

Depois de realizar seu sonho, Carolina pensa em novas metas: agora mira ganhar a prova, e quem sabe entrar em alguma seleção nacional do Brasil.

Entre tantas comemorações de um ano especial, uma já está sendo preparada: uma grande festa de aniversário para a filha, que completa seis anos em dezembro.

“Se você gosta, tem que levar de alguma forma. Porque vai ser recompensado daquilo de algum jeito e sentir do jeito que eu estou me sentindo agora, feliz e satisfeita. A gente vê algumas pessoas parando com 21, 22 anos porque parou de melhorar e nenhum clube quis mais. Às vezes tem tanta coisa para aquela pessoa conseguir na frente, e ela só não conseguiu se manter forte psicologicamente. E às vezes a pessoa queria continuar, mas vai fazer outra coisa, e não faz da mesma forma. É tão bom quando a gente faz o que ama”.

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guara

 

 

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0 comentários em "A medalha"

  1. Caio disse:

    Bela história e bela matéria…

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