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Brandonn: “Sempre que eu caio, eu levanto mais forte”

21 de agosto de 2017

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Brandonn Pierry Almeida, campeão mundial junior e panamericano, viajou ontem para Columbia, capital da Carolina do Sul, nos EUA, sua nova casa a partir de agora. O nadador de 20 anos, sétimo colocado no Mundial de Budapeste na prova de 400 medley, passará a treinar e estudar na University of South Carolina, sob o comando do Head Coach McGee Moody, treinando com Mark Bernardino. Na última sexta-feira, a Yes Swim acompanhou as homenagens recebidas por Brandonn no Corinthians, clube que defende há 13 anos e por onde continuará competindo no Brasil. Brandonn treinou com os nadadores mirim e petiz do clube, deu autógrafos, sorteou touca, tirou fotos e recebeu uma homenagem das crianças, além de um vídeo com imagens dele desde o mirim (veja abaixo). Confira a entrevista exclusiva.

Beatriz Nantes: Como está esse momento pré viagem?
Brandonn Pierry: Estou ansioso. Quero que chegue logo, mas também não quero me despedir das pessoas aqui. Ainda é difícil desapegar, é muito tempo vivendo a mesma rotina, ao redor das mesmas pessoas. Mas ao mesmo tempo estou bem ansioso e confiante para essa nova jornada.

E a sua mãe?
Ela procura não me passar muito isso e não comentar tanto. Mas acho que ela vai sentir um pouco…

Por que você decidiu ir para essa faculdade?
Quando tomei minha decisão de ir, ano passado, estava com várias propostas de faculdade. Sentei para conversar com o Carlos [Matheus, Head Coach do Corinthians e seu técnico nos últimos 4 anos] para ele me ajudar a fazer essa escolha. A gente queria um lugar que parecesse com nossa filosofia de treino aqui no Corinthians. Pesquisamos bastante, conversamos com treinador, e essa foi a faculdade que mais se aproximou do nosso trabalho. É uma universidade que tem característica de treino forte, e queríamos que tivesse alguns meninos para eu treinar junto. Vai ter o Akram [Mahmoud, finalista de mundial na prova de 1500 livre], o Tomas [Peribonio, recordista equatoriano do 4oo medley e finalista de PAN na prova], o Cody [Bekemeyer, nadador de fundo]. O grupo é muito bom, é um diferencial da faculdade. E o treinador tem vários atletas olímpicos, de várias provas. Agora ele se especializou no fundo, mas teve atletas olímpicos de 50 a 1500 livre.

Você chegou a pensar em ir para a Itália [Brandonn fez um training camp com o grupo de fundo da seleção italiana no início de 2016]?
Sim, pensei em ir para a Itália, mas lá não tem o mesmo apoio que os EUA. Teria que bancar tudo e isso ia pesar.

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E como foi a decisão de sair do Brasil e ir treinar nos EUA? 
Eu nunca tive essa vontade. Mas depois da Olimpíada tive algumas propostas e pensei: porque não tentar alguma coisa diferente? O principal diferencial de lá é conseguir focar em natação e estudos. Eles até estão na frente na natação mas a gente está chegando, não tem tanto segredo. O segredo é treinar. Mas pesou bastante isso do treino e estudo junto, aqui não encontraria em alto nível.

O que você vai estudar lá?
Sports management. Eu queria fazer algo voltado para a área esportiva. Pretendo passar minha vida inteira trabalhando perto da piscina.

Você volta para o Brasil para nadar o Open?
Ainda não tenho certeza, ainda estou conversando com eles. Quero voltar para o Open e para o Mundial Militar, que é logo depois. Vai depender das provas finais, que são na semana após o Open. Mas minha idéia é vir.

E você costuma nadar bem o Open. Seu melhor tempo do 400 medley é do Open do ano passado, no ano anterior teve o recorde mundial júnior…
Sim, e no anterior foi quando eu fiz 4’17..

Sobre esse 4’17 em 2014. Da última vez que te entrevistei, em 2013, você disse que o foco era conseguir a seleção para os Jogos Olímpicos da Juventude em 2014. Você acabou ficando fora, mas no mesmo ano melhorou 7 segundos no 400 medley. Como foi 2014 para você?
Foi bem difícil o começo. Eu realmente acreditava que ia conseguir ir para as Olimpíadas da Juventude. Com meu tempo de 1500 livre e 400 medley eu estaria dentro, mas lá não tem essas provas [As Olimpíadas da Juventude tem todas as provas da natação, incluindo provas não olímpicas, mas o programa não incluir o 1500 livre e 400 medley, duas provas olímpicos e as especialidades de Brandonn]. Foi bem difícil quando eu não classifiquei. Mas um dia depois eu estava aqui para treinar, me dedicar. Virei a página. Chorei bastante quando não peguei a seleção e lembro do que o Carlos falou: “você não está indo para essa porque você vai estar no Rio”. Eu nunca deixei de acreditar. Foi uma motivação a mais eu não ter ido. Lembro que treinava pensando muito nisso, em mostrar que eu poderia estar lá.

Brandonn Almeida. Torneio Open de Natacao na UNISUL. 26 de Novembro de 2016, Palhoca, SC, Brasil. Foto: Satiro Sodré/SSPress.

Em que momento você viu que estar no Rio era uma possibilidade real e não só um sonho?
Foi nesse 4’17 no Open, que eu quase fiz o tempo para estar no Mundial de Kazan, que era quase o mesmo da Olimpíada. Sabia que seria entre 4’16 e 4’17 para a Olimpíada.

No ano seguinte, no Maria Lenk, você já pegou o índice para o Mundial no 1500 livre e 400 medley, mas acabou não indo para priorizar o Mundial Junior. Como foi tomar essa decisão?
Quando você é mais novo você quer ir em tudo. Eu queria ir em tudo. O Carlos conversou comigo, falou que eu estaria vindo do PAN e do Mundial absoluto, e o foco era o Mundial Junior, sempre foi. Pensando friamente vi que seria a melhor coisa.

No Mundial Junior você ficou em segundo no 400 medley, em que era favorito, mas no dia seguinte ganhou o 1500 livre. Como foi superar isso em um dia?
Eu procuro sempre virar a página, por mais que seja difícil. No começo do ano a gente sempre traça nossas metas, e a meta em 2015 era ser campeão mundial júnior. A gente não especificou a prova. Era meio óbvio que eu queria no 400 medley, estava melhor ranqueado, era minha melhor prova em nível mundial. Cheguei lá e fui segundo. No dia foi bem difícil. Pior do que ficar em segundo é ficar longe do seu tempo, saber que você não deu seu melhor. Mas no outro dia eu estava lá de manhã treinando. Fiz um treino de 5 mil metros antes de nadar o 1500 a tarde. Estava mais tranquilo, mais concentrado. Acho que estava um pouco nervoso no 400 medley, ter 3 segundos de diferença do segundo tempo acabou sendo um peso a mais e eu não soube lidar muito bem.

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Antes disso você foi para o PAN, sua primeira competição maior pela seleção absoluta, e já saiu de lá sendo campeão. Como foi essa competição?

Foi bem legal e eu não esperava mesmo. Queria pegar final e sabia que ia ser uma competição difícil. Mesmo sendo a seleção B, os Estados Unidos são muito fortes, e ia ter o Canadá, com bastante gente boa. Fui com  intuito de dar meu melhor. Claro que queria medalha, mas não tinha pretensão nenhuma de algo mais. Sabia que estava bem, mas me surpreendi, não estava 100% polido. Foi bem legal essa experiência de estar em uma vila, com vários atletas top. Foi uma das melhores experiências da minha vida.

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Um ano depois você estava na Olimpíada, e você já disse várias vezes que esperava nadar melhor lá. O que você acha que aconteceu?
Foi uma primeira experiência bem frustrante. Eu estava muito bem, tenho certeza disso. Não errei nada de planejamento, nada. O que errei foi chegar na hora e não sair. O nervosismo deve ter me atrapalhando sim: primeira prova, primeira Olimpíada. Não que seja uma desculpa, mas não consegui ser eu. Não era o Brandonn nadando lá. E depois teve o 1500, que não foi bom nem ruim, nadei um pouco melhor. Fiquei meio chateado, pensando que só daqui a 4 anos ia poder me redimir. Mas cada vez que eu caio eu levanto mais forte. Fiquei com vontade de voltar no final do ano e quebrar tudo. Não teve ressaca olímpica, eu prometi para mim mesmo que ia voltar mais forte. Em termos de resultado, o Open do final do ano foi a melhor competição da minha vida. Abaixei todos os meus tempos, bati o recorde sulamericano do 400 livre. Então o Rio foi ruim mas ao mesmo tempo foi bom, para me deixar mais forte para as próximas competições.

Apesar de tudo isso, você realizou um sonho de estar na Olimpíada. Conseguiu curtir, ou ter nadado mal ofuscou isso?
Não, eu curti bastante. Fiquei um pouco deslumbrado até, andava e passava um campeão olímpico. O 400 medley foi a primeira prova, a que eu estava mais focado e preparado. Entre essa prova e o 1500 dias fui assistir a todos os dias e tentei curtir mais o momento. Depois também curti bastante, foi bem legal.

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Saiu algo de aprendizado observando tudo isso?
Mudou uma chavinha, de curtir a competição. Estou aprendendo isso. Acho que foi uma das coisas que me fez nadar bem no Mundial. Tive um trabalho muito bom com a minha psicóloga que consegui colocar em prática, de não ficar só vidrado na prova, de conseguir curtir. Claro que sem avacalhar, treinando, nunca esquecendo da sua prova e do que você foi fazer lá. Mas percebi que o pessoal é feliz nas competições, curte o momento. Eles tem uma filosofia um pouco diferente da nossa. A gente acha que para nadar bem tem que dormir aquela hora, comer só aquilo, respirar só natação, e é muito diferente. Você vê o pessoal indo passear um dia antes da competição. No Mundial de curta, em Windsor, eu estava com a Penny [Oleksiak, campeã olímpica do 100 livre no Rio] e dois amigos dela, e um deles, que ia competir o 400 medley no dia seguinte, ia cortar o cabelo. Eles falaram para eu ir junto e falei: “mas eu vou nadar amanhã”. E ela falou: “eu também”. Não é isso que vai te cansar, porque você foi até ali fazer uma coisa, sabe. Eu estou mudando aos poucos isso, curtindo a viagem. Fiz isso em Budapeste, saia um pouco, fui ver o polo aquático com a Joanna [Maranhão], sem ficar preso no quarto do hotel com a perna pro alto, respirando a competição toda hora, que pode atrapalhar.

Como foi pegar a final?
Foi muito legal. Eu fui sozinho dessa vez, sem o Carlos, e a gente tinha conversado que para pegar a final, que era o objetivo, eu tinha que nadar para 4’13 na eliminatória. Foi incrível. Eu ainda não tinha encaixado uma prova boa em Mundial, e meu trabalho com a psicóloga era muito isso, conseguir colocar em prática meus treinos também quando estivesse nadando com os caras top. Foi muito importante ter ido pra Itália [Brandonn disputou o Sette Colli na Itália algumas semanas antes do Mundial]. Dai, quatro nadadores pegaram final. Não era nada novo, eu estava ali com eles, de novo. Foi muito legal ter conseguido “eu” nadar. Às vezes não era eu nadando. Foi a realização de um sonho. Quando entrei na final e vi meu nome em todos os cantos, Brandonn Almeida, Brandonn Almeida, fiquei deslumbrado até. Sei que podia ter nadado melhor, estava preparado pra mais do que 4’13”00.

Ficou alguma frustração do tempo?
Frustração não, porque o objetivo era estar na final, independente do tempo. Mas agora mudou o objetivo, agora é mais ambicioso. O 4’13”00 me deixou feliz por eu ter pego a final, mas sei que posso fazer muito melhor que isso.

Brandonn Almeida. Campeonato Mundial de Desportos Aquaticos. Duna Arena. 30 de Julho de 2017, Budapeste, Hungria. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Brandonn Almeida. Campeonato Mundial de Desportos Aquaticos. Duna Arena. 30 de Julho de 2017, Budapeste, Hungria. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

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