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Entrevista: Amém

30 de junho de 2015

Entrevista com Bia Nantes, Entrevistas3 comentários em Entrevista: Amém

Foto: Satiro Sodré, SS Press

André Ferreira, mais conhecido como Amém, é um dos principais técnicos de natação do país hoje. Depois de passar pelo Paineiras, Minas Tênis Clube e começar nas categorias de base do Pinheiros, hoje Amém está à frente de um grupo de elite do clube, treinando nomes como Joanna Maranhão, Henrique Rodrigues, Guilherme Guido, Manuella Lyrio e Larissa Martins. Prestes a viajar para seu segundo Pan-Americano, Amém falou para a Yes Swim sobre sua trajetória, o nervosismo do técnico pré competição, doping, relação com atletas e ex-atletas e suas maiores emoções como treinador.

Eu já entrevistei alguns atletas seus e eles fazem questão de falar de você como o técnico da vida. Você teve um técnico assim também?

Tive. O Heliani Rinaldi dos Santos, o Nene. Foi o cara que me inspirou a ser técnico e me treinou quando sai de São José, no interior, para São Paulo. Teve também o Francisco Gaos, o Pancho, com quem não cheguei a nadar, mas que foi um espelho para mim.

Você sempre quis ser técnico?
Inicialmente, com 14 anos, queria ser engenheiro, imitando meu irmão mais velho. Perto do vestibular percebi que era natação o que eu gostava.

Como foi o início da sua trajetória como técnico?
Me formei na Fefisa e voltei para São José dos Campos na casa dos meus pais. Continuava nadando até os 27 anos, nessa época eu mesmo montava meus treinos. Comecei a trabalhar em academias e escolas de natação e meu primeiro grande clube foi o Paineiras, onde comecei em 1995, no infanto-juvenil. Depois assumi o Junior e Senior, e uns dois anos depois, o Mirco me convidou para o Minas Tênis Clube.

Como foi tomar essa decisão?
Eu estava super tranquilo, bem acomodado, com a vida encaminhada. Não ganhava rios de dinheiro, mas dava um jeito: personal, treinava faculdade de Medicina de Santo André. Ir para o Minas era uma mudança radical: eu tinha acabado de comprar um apartamento e de repente ia largar tudo em busca de um sonho profissional. O Renato Cordani inclusive foi um dos que me aconselhou e me fez ver que seria importante sair do comodismo.

Foi a decisão certa?
Com toda certeza. Hoje, quando converso sobre oportunidades com atletas e amigos, cito isso como exemplo.

E dois anos depois você voltou para São Paulo, para o Pinheiros.
Essa sim foi uma decisão difícil. Porque eu já estava trabalhando com o Júnior e Sênior, e o Albertinho me chamou para trabalhar no Infantil. Na teoria parecia que tinha sido rebaixado, que estava dando passos para trás. Mas minha namorada na época estava em São Paulo – inclusive foi ela que insistiu com o Albertinho, ela é sócia do Pinheiros e sempre perguntava quando ele ia trazer o Amém de volta. Nos casamos e hoje ela é mãe dos meus filhos.

Gostava de trabalhar com a base?
Sempre gostei, é um trabalho muito gratificante. Você vê a evolução, nota alguns talentos, mas tem alguns problemas. Um deles é lidar com os pais e suas paranóias.

amemO técnico, ainda mais nessa fase, pode ter um impacto pro resto da vida da pessoa. Você tem casos de atletas com quem teve uma relação assim?
Tenho vários. Um deles é a Julia Abdu. Depois de muitos anos que parou de nadar, ela me ligou para agradecer porque tinha sido efetivada no trabalho. Eu disse que não conhecia ninguém na empresa, o que tinha a ver com isso? E ela falou que se não fosse pelos ensinamentos, não só dentro da água, mas como ser humano, não teria conseguido. Achei aquilo fantástico. Depois ela casou e me chamou para ser padrinho, está grávida agora. Outro atleta sensacional que passou pela minha mão foi o Nicolas Oliveira, sempre que nos encontramos falamos não só de natação. Fiquei do lado dele em um momento difícil e isso fica. Tem outro garoto que treinei, chamado Marcos Vita, cheguei a ir até a Espanha para visitá-lo.

Se um atleta quisesse ser técnico e viesse pedir conselho para você, você apoiaria?
Com certeza. Eu incentivo qualquer carreira que você goste e faça bem feito. A chance de dar certo é maior do que se entrar na profissão por modismo ou por dinheiro. Se você não gosta do que faz, não adianta. Se houver dedicação e esforço, você chega.

Como se deu sua formação como técnico, além da faculdade?
Algumas coisas influenciam. É importante ser formado, embora o curso que fiz não tenha sido tão fundamental na minha carreira. Uma coisa muito importante foi minha experiência como nadador. Treinei por 20 anos e passei na mão de inúmeros técnicos. Até fiz as contas, foram 22. Você aprende com todos, vê o que dá certo, errado. Tem muito troca e conversa, peguei muita coisa do Pancho por exemplo. E quando me mudei para BH, investi pesado na minha carreira. Comecei a buscar artigos, ler sobre natação e treinamento, buscar o que me trouxesse informação. Depois de alguns anos em São Paulo, tive a oportunidade de fazer o curso de treinadores do COB, que foi bem significativo na minha carreira, até pelo tipo de trabalho que aplico hoje. Outro que foi quem realmente me fez enxergar a natação moderna foi o Albertinho. O PC Marinho também me mostrou muito sobre o sistema de blocos que aplicamos hoje no clube, sentou do meu lado para explicar e deu muitas palestras sobre o tema.

Em uma entrevista para o site do Pinheiros em 2009 você fala sobre a Olimpíada como seu sonho. Em 2012 você esteve lá com o Daniel Orzechowski. Como foi?
Quando assumi o Júnior e Sênior eu nem estava com esse objetivo, entrei para suprir uma necessidade no momento. Não cheguei pensando em trabalhar para as Olimpíadas. Fomos trabalhando com os atletas e o Daniel veio até mim, depois de umas férias de experiência ele acertou que voltaria para São Paulo e começamos o trabalho. Não era o sonho olímpico inicialmente, talvez tivéssemos isso em mente para um próximo ciclo. Mas ele foi melhorando, evoluindo, e começamos a vislumbrar essa possibilidade. Na época tinhamos alguns atletas com potencial de índice e em janeiro fomos para altitude em La Loma, tinha Flavia Delaroli, Andre Daudt, Daniele Paoli, e o Daniel. Todos ali tinham possibilidades. Ele conseguiu no Maria Lenk de 2012 e foi muito gratificante.

Na Olimpíadas, teve dois momentos que foram muito marcantes. Primeiro a entrada na Vila Olímpica. Lembro de passar pelo portão, fazer o credenciamento, aquele mundo de gente de todos os países, todas modalidades. Eu fiquei realmente… não sei, aquilo é o auge da carreira. Outro momento foi na piscina. Combinamos de ir apenas para a piscina de aquecimento e que não iríamos na da competição, era só uma soltura. Quando acabou resolvemos ir lá ver. Quando subimos a escadinha e vimos a piscina, foi muito legal. Lembro que sentamos em duas cadeiras e ficamos uns 5 minutos em silêncio, contemplando o lugar. Passou um filme na cabeça de cada um, ele com as emoções dele e eu fazendo minha retrospectiva, passou um filme na minha cabeça.

Sonho realizado: PC, Amém e Daniel Orzechowski em Londres

Sonho realizado: PC, Amém e Daniel Orzechowski em Londres

Acho que a maioria dos leitores sabe como é o nervoso pré competição de um atleta. Como é no caso dos técnicos?
Parece que você vai infartar. É muito nervoso. Eu sempre falo que eles nadam no máximo 4 vezes na competição, a gente nada 4x 10 atletas, ou quantos atletas tiver. Não tem desgaste físico, mas o emocional balança bastante. E temos que passar segurança para o atleta. Ficamos nervosos, tensos, o coração acelera.

Qual a sensação de ver um atleta que treinou bem competindo mal?
A gente fica um pouco impotente diante de uma situação em que sabe que ele pode nadar melhor. Só que foge da sua mão. Algumas vezes dá até para antever que a prova não vai ser tão boa, pela aparência, nervosismo. Não é fácil. Você consegue levar o atleta até o banco de controle. Dali para frente não tem mais o que fazer. Às vezes é meio frustrante e se você sente que o atleta não está bem por algo que aconteceu no programa, sente até culpa. Geralmente o atleta faz aquilo que acredita. Costumo fazer uma revisão dos treinos quando um atleta nada mal, para ver o que aconteceu em cada fase.

Fora do treino, você fica pensando nisso ou consegue desligar?
Hoje tenho 2 filhos e eles tomam muito do tempo que não estou trabalhando. Mas quando estou sozinho, penso. Muitas vezes fico dormindo e acordando, como foi essa noite inclusive. Eu até sei quando vou dormir bem ou não. São tantas noites que passo pensando acordado.

Tem algumas imagens muito bonitas suas comemorando o revezamento 4×50 medley no Mundial de curta ano passado. Queria que você falasse sobre esse Mundial e sobre a importância de uma medalha como essa, mesmo sendo não olímpica, para o trabalho de um técnico e atleta.
Independente da competição que você está, se é um Regional, Mundial de curta ou Olimpíada, você e todos envolvidos querem ganhar. Você quer dar o melhor resultado independente da prova ser olímpica, na curta ou na longa. A alegria do momento é enorme, de ter conseguido o que conseguiu. Naquele campeonato, sair como campeão geral, e no meu caso ali com a Larissa, foi uma alegria e emoção muito grandes. Mas a gente, claro, está pensando em Olimpíada. Eu não trabalho para competição de curta, mas se estamos lá, queremos fazer o melhor.

Além dessa e da Olimpíada, que outras emoções te marcaram todos esses anos.
Várias. Meu primeiro resultado, que foi justamente com a Julia Abdu, quando ela bateu um recorde paulista de 100 borboleta. Eu não esqueço de ver o sorriso dela olhando para mim. Tenho muito disso: o atleta chegar e eu estou olhando para ele. Quero que ele sinta que o resultado, bom ou ruim, a gente está junto. Quando o Daniel fez o índice olímpico em 2012 foi muito emocionante também. Tive uma competição pelo Minas, um José Finkel em 2004, que meu grupo era grande e a gente foi 100%. Todo mundo melhorou tempo. Me senti campeão mesmo sem termos ganhado o título. Meu primeiro PAN, viver a entrada na Vila. Eu estava com as meninas, Juliana Kury, Gabriella Silva, Michelle Lenhardt, Flavia Delaroli. Meu primeiro Mundial de longa, em Barcelona, levando o Daniel para o balizamento, ele estava muito bem e preparado. Foi uma prova boa, ele saiu bem e até os 25 tava liderando. A primeira medalha de Mundial, com o Guido em 2012.

Pergunto para os atletas e quero saber de você: gosta mais de competição ou treino?
Eu gosto de competição e gosto muito do processo, do treino. De jogar o desafio e ficar esperando ver quem consegue cumprir. Sei que muitas vezes é difícil alcançar o que estou pedindo, e ver eles se superando, me deixa alucinado. Muitas vezes parece que estou em êxtase, saio do meu corpo. E a competição, a gente trabalha para isso. Adoro competição, adoro a energia, me preparo. Nunca vou sem um ritual, seja deixar a barba, cortar o cabelo, preparar uma lista de músicas para ouvir no caminho da piscina.

Como é treinar a Joanna?
É um desafio muito grande. Eu estou curtindo muito. Ontem até falei para ela que nunca vi ninguém treinar como ela. A Joanna tem uma recuperação incrível, uma noção do que tem e o que precisa fazer. Dar treino para ela é todo dia esperar um espetáculo a parte, saber que vem coisa boa.

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Você se envolve na vida pessoal dos atletas?
Já fui mais aquele técnico paizão, ia na casa dos atletas, viajava junto. Hoje digo que não quero ser amigo deles. Podemos, com o tempo, nos tornar amigos, mas a gente tá ali para uma relação profissional. Agora eu quero saber tudo pessoal que puder atrapalhar a natação. Não quero saber se você tem um cachorro e ele é bonitinho, fofinho, mas se o cachorro late e não te deixa dormir a noite, quero saber. Eu preciso saber da vida deles, para saber se o descanso está sendo cumprido, se tem alguma preocupação extra que pode interferir no treino.

Me parece que nesse ciclo olímpico, de um modo geral, há mais apoio para os atletas em termos de Bolsa e preparação. É verdade?
Nós vinhamos muito bem até esse ano, que começou com essa crise no país e começamos a perder muito. Não está um momento tão bom como ano passado, por exemplo, não sabemos se teremos algumas ações preparatórias. Agora 2012, 2013 e 2014 foram bons. Isso na seleção. No clube, dentro da programação, tudo está sendo cumprido certinho.

Temos o PAN e o Mundial de Kazan no próximo mês. Qual o foco do treinamento da sua equipe?
O tipo de trabalho que eu faço permite que o atleta nade não somente uma competição. Fizemos um programa para o PAN, mas acredito que dê para nadar até melhor no Mundial. Mas o objetivo foi o PAN, e depois uma manutenção.

Você conversa com seus atletas sobre doping? 
Todo começo de ano eu faço uma reunião com meu grupo, e o primeiro slide é sobre doping. Deixo bem claro que sou totalmente contra e o trabalho que fazemos é em cima de muito esforço e treinamento, sem usar esse tipo de recurso. Já vivi uma situação dessa com atleta e é muito desgastante, você fica até envergonhado de chegar na competição, embora nunca tenham me falado nada. Gosto de prevenir e falar sobre suplementação, que é proibido fazer qualquer suplemento em farmácia de manipulação. Já cheguei a programar palestras, no passado, levar médicos para pais e atletas. Hoje como o grupo é de altíssimo nível, se acontecer é porque houve descuido ou intenção.

Qual a parte mais difícil?
Eu passo muito tempo longe da minha família. Graças a Deus tenha apoio grande da minha esposa, mas dói muito, às vezes chega a ser até físico. Tenho dois filhos, de 3 e 5 anos, e quando meu filho tinha 2 meses sai para uma viagem de 1 mês. Se não tivesse apoio e suporte da minha esposa, não sei se ia segurar essa onda. Já vi muitos técnicos se separando porque é uma rotina desgastante, a gente passa semanas, meses fora. E a mulher sendo motorista, babá, empregada, mãe e pai.

 

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3 comentários em "Entrevista: Amém"

  1. Renato disse:

    Espetáculo de entrevista, parabéns Beatriz. Essa relação técnico-atleta é muito forte e foi top ver isso aí abordado de forma muito legal.

    Quanto ao Amém(doim), sou suspeito para falar, mas ele é o cara!

  2. Ari disse:

    Show de entrevista. Toda sorte do mundo pra voce Amém e para seus nadadores!

  3. Giseli Pereira disse:

    Muito boa a entrevista! Parebéns!
    Conviver com o Amém é um privilégio que ñ se pode abrir mão.
    Como Técnico ele é impecável, como Amigo ele é tudo.
    Parabéns!!!!

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