Entrevista: Brandonn Pierry

30 de outubro de 2013

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Beatriz Nantes, do Esporte em Pauta, fez uma excelente entrevista com o jovem nadador sensação do momento: Brandonn Pierry. Veja abaixo a entrevista na íntegra:

Se pudesse chamar uma pessoa para jantar, Brandonn Pierry, chamaria Sun Yang, o homem a ser batido nas provas de fundo na atualidade. “Eu perguntaria o que ele faz. Ele é muito absurdo”. Atleta do Corinthians desde o mirim, Brandonn é um dos grandes destaques das categorias de base do país hoje. Campeão brasileiro de categoria 28 vezes em provas individuais (venceu todas as provas que disputou desde o infantil), este ano ele subiu ao pódio pela primeira vez em campeonatos absolutos, com 16 anos – algo até mais comum entre as mulheres, mas raro no masculino – conquistando o bronze na prova de 400 medley no Finkel.

No Mundial Junior (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

A competição teve um gosto especial por ter sido disputada no Corinthians, na piscina onde treina todos os dias. Levado ao clube depois de aprender a nadar em uma academia, Brandonn começou na escolinha, na piscina interna do clube. Em uma competição contra os atletas do mirim, Brandonn ganhou de todos eles, e a partir daí passou a integrar a equipe, treinando com Bira e Elis. Hoje tem o quinto melhor tempo do Brasil no ano no 1500 livre e o quarto no 400 medley. No Mundial Junior, disputado em Dubai este ano, que reuniu atletas nascidos entre 1995 e 1997, foi o melhor colocado entre os nascidos em 1997 nas duas provas – ficou em nono no geral no 400 medley, e 15o no 1500 livre.

Beatriz Nantes entrevistou Brandonn no Corinthians depois de um treino no sábado, que começou às 7h. Um pouco tímido e muito humilde em todas as respostas, Brandonn é apaixonado por natação e por treinar. “Eu adoro treinar volume grande. Gosto muito de competir, mas gosto mais de treinar.”

Esse é seu último ano de juvenil. Como está sua expectativa e ansiedade para a mudança?
Acho que não vai mudar muita coisa, só o treinamento. Vou continuar me dedicando para ter bons resultados.

Já pretende começar a especificar para uma prova?
Eu não sei o que o meu técnico vai querer, mas minha vontade é continuar treinando para todas as provas.

Esse ano voce nadou muitas competições e melhorou várias vezes: Austrália, Sulamericano, Multinations, as competições de categoria, Maria Lenk, Mundial de Dubai, Chico Piscina. Como você avalia o seu ano?
Foi muito mais do que eu esperava. Eu tinha um caderno de metas para 2013, e eu fiquei bem longe, foi muito melhor. Nem eu acreditava mesmo que pudesse fazer esses tempos. E eu acho que ainda dá para melhorar mais. Estou treinando bem melhor agora do que no primeiro semestre, acho que dá para melhorar no Brasileiro.

E você vai nadar o Open também?
O Open eu não tenho certeza, eles vão falar ainda.

Você quer nadar?
Eu quero.

Você sempre quer né?
Haha, sim. E tambem porque é seletiva para o Sulamericano absoluto. E tem uma chance, é real.

Depois do 1500 no Maria Lenk, “Melhor prova da minha vida” (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

Qual dessas competições você gostou mais?
O Mundial Júnior, em Dubai. Por causa da experiência, e de ver o que fazem os atletas da sua idade.. na verdade eles não eram da minha idade, mas era quase.  Foi legal ver o que eles fazem diferente, analisar isso.

O que você acha que é?
Acho que a parte física principalmente. E eles encaram tudo como se fosse uma final, eles tem mais raça que os brasileiros eu acho.

Falando de parte física, você já faz musculação?
Eu ja faço, comecei ano passado. Mas ainda não é muito forte, a Ju (Juliana Kury, atleta olímpica e responsável pela preparação física no juvenil do Corinthians) fala para não pegar muito peso.

Você gosta que seja assim? No Corinthians é bem gradual o aumento, também nas dobras e no volume de treino. O que você acha que tem para melhorar?
Sim, eu vejo que tem muita coisa que ainda posso evoluir. A gente dobra uma ou duas vezes por semana ainda, agora nessa fase a gente está dobrando uma. Eu acredito muito no trabalho do PA (Paulo Augusto, técnico da equipe juvenil do Corinthians), e está dando certo. Além disso, o que eu acho que posso melhorar são mais os fundamentos. Se você ver o vídeo do Finkel, no 1500 eu ia pegando no nado, e na virada abriam, a mesma coisa no Mundial. Preciso melhorar isso, virada, submerso.

Nessas de viajar você conhece vários países. Para quantos você já foi? Sua mãe viaja com você?
Acho que  eu já fui para 14 ou 15 países. A minha mãe foi para Dubai, e para o Sulamericano, que estava eu e meu irmão [Bruce Hanson, um ano mais novo que Brandonn e que nada as mesmas provas que ele]. 

Voce consegue ficar motivado para tanta competição?
Eu encaro todas competições como se fosse a última da minha vida. Se for regional ou Mundial eu sempre faço força.

No treino tbm?
Sim..

Mas tem vezes que isso nao é bom né… você pensa muito no treino?
É, o PA fala às vezes para eu ir um pouco mais devagar, mas é difícil. Principalmente quinta, que o treino não é tão forte, mas acho que eu já estou acostumado a fazer esforço. Eu penso sim, o psicólogo até fala para eu pensar um pouco menos em natação, para eu sair no fim de semana, tentar esquecer um pouco.

Você consegue?
Sim, quando eu estou com os meus amigos sim.

Lá em Dubai, você nadou muito bem o 400 livre, e no 1500 e no 400 medley você não melhorou o tempo. O que voce acha que foi?
O 400 medley eu tava me sentindo muito bem no aquecimento, achei que já fosse dar meu melhor tempo. Não sei o que aconteceu.. não acho que foi nervosismo também. Acho que como era minha melhor prova e eu tinha ido muito bem no 800 eu esperei demais talvez. E o 1500 eu não sei o que aconteceu, acho que não tava bem no dia.

Voce gosta de treinar?
Adoro treinar. Eu prefiro treinar do que competir.

Por que?
Nao sei…

Coisa de fundista?
Acho que sim, é coisa de fundista gostar de treinar né. Eu gosto de competir também, mas eu gosto muito dessa coisa de treino.

Você nadou muito bem o 1500 livre no Maria Lenk, melhorou coisa de 30 segundos. Como é para você nadar absoluto? É uma situacao bem diferente de categoria, que voce é o cara a ser batido.
Eu me sinto até melhor eu acho. Vai sem aquela pressão de ganhar a prova. O Maria Lenk foi uma prova muito boa. Eu já esperava um pouco fazer o índice do Mundial Júnior, porque no Multinations fiz 15’54, e o índice era 15’50. No 1500 quatro segundos não é muita coisa. Mas eu não esperava fazer aquele tempo, fiquei até assustado quando eu vi.

Qual foi a melhor competição da sua vida?
Foi o Maria Lenk mesmo. Eu abaixei em todas as minhas provas, melhorei muito meus quatro tempos, foi muito bom.

Campeão Paulista petiz 1 (Foto: Site FAP)

O colégio Amorim tem uma tradição de apoiar esporte, como é na escola? Você gosta de estudar?
Sim, eles apoiam muito. Eles só pedem atestado quando falta, e falam para eu correr atrás das matérias.Gosto de estudar. Estou no terceiro ano já, pensando em fazer psicologia. Mas ainda estou meio indeciso, não tenho certeza. Eu gosto muito de conversar com os outros, e a maioria das pessoas vem pedir conselhos pra mim, eu gosto. E uu comecei a passar com o Luis, que é o psicólogo do Corinthians, me amarro muito nas coisas que ele fala.

Você gosta da rotina de nadador? Seu treino hoje começou as 7h, não deve dar pra sair de sexta-feira..
Eu gosto sim.. na verdade as vezes eu me irrito é mais com o pessoal da escola. Às vezes eles acham que natação é vir aqui e ficar brincando, e sempre pedem pra eu faltar pra fazer trabalho. Para mim é bem tranquilo isso de acordar cedo, eu faço o que eu amo então…

Acompanha natação, gosta de ver as competições?
Sim, acompanhei bastante Barcelona. Essa época eu estava treinando separado por causa de Dubai, eu saia correndo do treino para ver, até pedia para o PA para treinar um pouco mais tarde para ver tudo.

Você falou que o Sulamericano é uma realidade, você pensa em 2016?
Ah, eu penso.. mas eu sei que preciso trabalhar muito pra chegar lá. Eu quero primeiro construir o caminho para chegar. Esse meio que é o mais importante, não só 2016. Penso nos objetivos a curto prazo.

E no Finkel você pegou pela primeira vez pódio no absluto, competindo em casa. 
Pegar pódio foi muito bom, mas ser em casa foi o melhor. Na piscina que eu treino todos os dias… vai ficar marcado.

Onde você guarda suas medalhas? Gosta de ficar olhando pra elas?
Minha mãe que guarda. Tem uma gaveta, das medalhas mais antigas, e as mais importantes, de Sulamericano, Multinations, a do Finkel, que ficam numa estante de troféu que eu tenho em casa. Eu gosto da medalha só na hora lá, gosto de pensar para frente. Na hora que desceu do pódio, todo mundo é igual.

Como é sua relação com seu irmão, que nada as mesmas provas que você e é um ano mais novo?
Nós somos amigos, a gente até treina na mesma raia. Eu sou meio chato com eles às vezes…

Por que?
Ele atrapalha muito na raia (risos). Não, mas eu estou sempre dando conselho, ajudando ele, falo para ele passar mais forte ou mais fraco.

Já fez o caderno de metas para o ano que vem?
Não, eu faço sempre no começo do ano.

Sozinho, e não mostra para ninguém?
Sim. No máximo meu irmão e minha mãe que veem.

E as metas são de tempo ou você pensa por exemplo em ganhar uma prova no absoluto. 
É, a principio são de tempo. Vamos ver né…

Sun Yang ou Phelps?
Sun Yang.

Por que?
Eu admiro muito os fundistas, que treinam muito mais e não são tão reconhecidos. Todo mundo sabe quem é o Cielo, ele é muito mais conhecido que o Sun Yang. Eu acho que deveriam dar um pouco mais de atenção para os fundistas.

Primeira medalha de absoluto, no Finkel disputado no Corinthians (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

Pensa em treinar fora?
Não sei… eu acho que por enquanto, está dando certo aqui, eu vou continuar aqui. Se está dando certo não precisa mudar. E a natação no Corinthians está evoluindo muito, eles apoiam muito aqui dentro.

1500 ou 400 medley?
Eu gosto muito das duas.. eu não sei. Acho que 400 medley. Mas gosto muito das duas. Acho que é igual. Eu adoro treinar volume grande. Mas também gosto muito dos treinos de medley. Não sei, acho que é indiferente.

O 400 medley tem muita tradição no Brasil, com o Ricardo Prado e hoje o Thiago Pereira. Temos fundistas de destaque no passado, mas recentemente, é chato falar, mas não é uma prova tão forte. O pessoal fala muito disso. Você acha que tem algum motivo, ou não tem nada a ver?
Acho que é porque brasileiro prefere nadar 50 livre, porque acham que treina muito menos do que para o 1500. Falta um pouco de empenho às vezes, parece que nadar 50 livre é mais fácil.

Um sonho
Uma medalha olímpica. Acho que esse é o sonho de todos os atletas.

O que você faz depois de uma competição muito legal?
Acho que eu gosto de comer as coisas que eu tanto esperei. Mc donalds, chocolate…

Melhor prova da sua vida.
O 1500 no Maria Lenk.

Um ídolo.
No Brasil o Thiago Pereira. E fora o Ryan Lochte e o Sun Yang.

O melhor treino da sua vida ou o mais difícil.
Ah.. não tem um treino mais difícil. Acho que a melhor série da minha vida foi semana passada, que a gente fez um 15×100 de ritmo na longa. A gente faz bastante essa série, quando tem potência o fundo faz 15×100. Eu gosto muito dessa série.

Uma frase.
Tem uma que eu gosto que é da nossa camiseta do juvenil: “Que cada gota de suor vire um litro de vitória”.

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