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Entrevista: Leo Tomasello Araújo

28 de setembro de 2015

Entrevistas, Paralímpico1 comentário em Entrevista: Leo Tomasello Araújo

Leonardo Tomasello Araújo é o head coach da seleção paralímpica de natação do Brasil desde o início do ano passado. Depois de passar pela Med Swimming, pelo Pinheiros, onde foi assistente do técnico Albertinho, e do Corinthians, Leo começou em 2014 o trabalho da seleção permanente da natação Paralímpica. Nessa entrevista, ele fala sobre a campanha histórica no Mundial e no Parapan, onde o Brasil foi campeão da natação com 38 ouros e 104 medalhas conquistadas, a expectativa para as Palimpíadas e a diferença de treinar atletas com deficiência: “Se você pegar meu planejamento de 2013 e desse ano, é muito parecido. E se você olhar um treino, é igual a de uma equipe do convencional”.

Esse ano tivemos vários resultados expressivos no Paralímpico, tanto no Mundial como a campanha história no ParaPAN, vencendo com folga. Como você avalia a temporada até agora?
Foi muito bom. O ano serviu como forma de avaliação do grupo, porque tivemos as primeiras grandes competições desde que a nova comissão assumiu, e mudou muita coisa, desde o critério de convocação, a entrada da equipe multidisciplinar, o programa de treinamento que estabelecemos. Deu para avaliar muita coisa.

O foco agora já está nas Paralimpíadas?
Agora tem a última etapa do Nacional, em São Paulo. Mas vai ser mais base para o ano que vem. No Centro de Referência nós antecipamos o calendário e a maioria entrou de férias na última semana, e vai voltar a treinar já pensando no ano que vem, com base até janeiro mais ou menos.

Como funciona a classificação para as Paralimpíadas? O Mundial já abriu algumas vagas, que ficam com o país e não com o atleta, certo?
Sim, a vaga é do país. Vada atleta que ficar em 1o ou 2o abre uma vaga pro país. Então o Daniel [Dias], que ganhou 6 medalhas individuais, abriu uma vaga, assim como o Carlos, que foi 2o no 50 livre, abriu uma também. Conseguimos sete no total. E agora, através do ranking mundial, saem as demais vagas, considerando quem estiver entre os 16 melhores. Ainda não discutimos o critério de escolha de quem vai preencher as vagas, mas deve ser igual ao do Mundial. Foi bem positivo para lá: dos 23 atletas que foram, todos pegaram final. Essa é a meta.

Quais foram as principais mudanças implementadas desde a sua entrada na Seleção?
Na verdade, antes da nova comissão entrar, não existia o Centro de Referência. Os atletas treinavam em seus clubes, e juntavam na seleção nas competições ou treinamentos. Agora temos 12 atletas da seleção treinando juntos, que é metade da equipe, e mais os atletas que treinam nos clubes e seguem a mesma ideia do planejamento. Foi implementado uma área multidisciplinar, nutricionista não tinha, psicólogo temos um novo, biomecânica também não tinha.

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O Centro de treinamento está pronto?
Ele está em fase final de obras. Estivemos lá na quinta-feira passada e só falta o revestimento do fundo da piscina. Talvez até janeiro a gente já esteja treinando lá.

Nunca se investiu tanto no esporte de alto rendimento como agora, às vésperas das Olimpíadas e Paralimpíadas. Sobre isso: o que muda na preparação tendo mais recursos, e você acredita que isso vai continuar depois do Rio?

É importante para manter o formato de preparação, a estrutura, a seleção de jovens, e principalmente manter os profissionais que vieram e ajudaram a dar um salto de qualidade. O aumento de recursos no Paralímpico está amparado pela Lei de inclusão, que repassa 1% do valor das loterias para o Comitê Paralímpico. Essa lei foi aprovada em junho e agora independe do projeto de governo, passa a ser uma renda fixa a partir de janeiro. Isso vai ser ótimo porque não sabemos como vai ser depois de 2016 em termos de incentivo, bolsas e projetos.

Como funciona a seleção de jovens?
Ela é composta por atletas que tem até 21 anos. É uma seleção permanente e tudo que fazemos na principal, passamos para a de jovens. Eles participam de treinamento, competição no exterior, ações do comitê, da mesma forma que a principal.

Como foi para você a decisão de aceitar o convite para tocar a seleção e sair do Corinthians?
A gente sempre tem dúvida. Mas o projeto que me apresentaram era muito bom, eu já conhecia várias pessoas do Comitê e confiava neles. Isso fez com que eu trocasse o Corinthians e o esporte olímpico pelo paralímpico. Eu não me arrependo de nada, e tudo que foi prometido na época continua sendo realizado. Nunca vi nada assim no Brasil, e falando com os outros profissionais, vejo que todos estão satisfeitos.

Você já tinha trabalhado antes com o Paralímpico, como começou esse trabalho?
Eu já trabalhava com o André Brasil no Pinheiros e em 2010 ele me convidou para trabalhar direto com ele. Depois do Mundial na Holanda, fui convidado a fazer parte da comissão do Comitê Paralímpico, por isso já conhecia várias pessoas lá. Fiquei até 2011, mas depois não consegui conciliar e fiquei só no Corinthians, de 2011 a 2013.

Como foi seu início como técnico de natação?
Na verdade eu nunca imaginei que seguiria como técnico de natação. Nadei quando era mais novo, comecei com 14 anos, mas só competia em campeonatos de não federado, provas escolares. No primeiro ano da faculdade, trabalhava em uma academia. Tive uma oportunidade de estágio no Pinheiros no segundo ano e fiquei lá até me formar, depois trabalhei com o Albertinho em um polo até 2011. Aprendi muito na prática e estudei bastante. Me desenvolvi muito vendo técnicos como o Albertinho, Vanzela, Ari. Depois, nunca me vi fazendo outra coisa que não fosse natação.

Qual a principal diferença de treinar pessoas com e sem deficiência?

A maior diferença é a questão técnica. Na natação convencional a gente tem costume de ter um padrão de técnica e replicar para todos. Então você detecta erros comuns e tenta replicar a técnica de borboleta, por exemplo, para todos. No paralímpico é difícil porque cada um tem uma particularidade. Temos 12 atletas no centro, e cada um tem uma deficiência diferente. Mesmo sendo o mesmo estilo, você tem que estudar mais a biomecânica, a estratégia de treino.

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Uma das “funções” do técnico é fazer o atleta superar seus limites todos os dias. Tem alguma diferença relacionada a isso, considerando que são atletas com deficiência, ou isso é um mito?
Você sempre tem que tirar o máximo. É claro que para algumas deficiências e síndromes, principalmente neurológicas, você tem uma forma diferente de trabalhar. E sempre tem acompanhamento de médica e fisioterapeuta. Mas quando falamos de um deficiente visual ou amputado, não muda muito. Meu treino é muito parecido com o que eu fazia no Corinthians. Acredito que hoje seja até melhor pelo trabalhado das outras pessoas, mas a ideia é muito parecida. Se você pegar meu planejamento de 2013 e desse ano, é muito parecido. E se você olhar um treino, é igual a de uma equipe do convencional. Não me pego fazendo coisas diferentes, nem lembro que é diferente agora que entrou numa rotina.

E os próprios atletas não querem ser vistos como coitadinhos ou como atletas diferentes, mas como atletas, que é o que são. 
O Daniel deu uma entrevista bem legal agora nesse sentido. Ele fala que é atleta igual qualquer outro, não tem coitadinho. E ele treina mesmo, faz metragem boa, dobra, faz parte física, tudo normal. E é muito bom para nós quando ele fala algo assim, ele não é só um grande nome da natação paralímpica, é talvez o principal atleta paralímpico do mundo.

Você acha que o trabalho que estão fazendo e as Paralimpíadas vão ajudar a aumentar o número de atletas paralímpicos?
Sempre aparecem atletas novos. Acho que a Paralimpíada no Brasil vai aumentar muito a procura, muita gente que nem sabe que pode praticar esporte vai descobrir. Foi importante a Globo ter comprado os direitos e dito que vai transmitir, a força da Globo é muito grande. O número de matérias deve aumentar, as histórias dos atletas devem ser contadas em vários lugares. O que é difícil não é despertar o interesse, mas o técnico ter receio de dar treino. Então o Comitê está bem focado e fazendo um trabalho para aproveitar isso.

Como treinador, você fica muito nervoso antes da competição, como os atletas?
Nervoso você sempre fica. Ainda mais agora com essas duas competições importantes. Você quer que o resultado venha, então para mim, principalmente na hora, bate um nervoso. São muitas provas, e às vezes você tem 2, 3 atletas nadando na mesma etapa. E é um carrossel de emoções, as vezes um não vai tão bem e outro bate recorde, imagina 7 dias seguidos assim.

Qual é a sensação para o treinador quando um atleta que treinou bem não vai bem na competição?
Eu brinco que depois da prova você fica mais preocupado com quem não nadou bem do que feliz com quem nadou bem,  pensando no que pode ter acontecido. Alguns atletas não tiveram desempenho tão bom no Mundial em termos de marcas e conseguiram arrumar no ParaPan. Isso é muito bom. Duro seria ter que esperar a Paralimpíada para arrumar. Isso não aconteceu. Por isso o Parapan foi muito bom. O Brasil é muito forte nas Américas, então as medalhas viriam mesmo, éramos favoritos, mas foi bom que vieram as medalhas, o título, e o pessoal nadando bem, dando o melhor tempo da vida. Até quem nadou bem no Mundial conseguiu melhorar.

Você mantém contato com seus ex-atletas?
Sim, isso sempre tem. Do meu último grupo do Corinthians, todos já foram em São Caetano ver a seleção. Quando eu posso também vou na competição para assistir, fui no Finkel por exemplo. Com alguns você leva uma amizade maior que vai para a vida pessoa, fica amigo mesmo. Da última equipe no Corinthians teve muitos que foi assim: o Guilherme, Rodrigo Berti, Camile, que agora é assistente no Corinthians, Caio Castelan, Isaura, Priscila, Mari, Artur Pedroso, Gabi Bonfim, que agora trabalha comigo na seleção.


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Um comentário em "Entrevista: Leo Tomasello Araújo"

  1. Caio disse:

    Show! Ótima entrevista com ótimo profissional e pessoa.

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