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Entrevista: Maria Eduarda Sumida

16 de janeiro de 2017

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Focada. Se tem uma palavra que define bem Maria Eduarda Sumida, é essa. Nascida em Marília, Duda sempre treinou na cidade com o pai, Eduardo Sumida, e defende o Pinheiros desde o petiz 1. Hoje com 16 anos e começando seu último ano como juvenil, Duda é versátil e já acumula quebras de recordes de duas das melhores nadadoras da história do Brasil: Poliana Okimoto e Joanna Maranhão. Ela fala dos objetivos com firmeza e tranquilidade: para esse ano, o Mundial Junior, para 2020, as Olimpíadas de Tóquio.

Conversei com a Duda no último sábado, ao fim de sua primeira semana de treinos do ano, que totalizou 9 treinos e cerca de 40km rodados. A conversa aconteceu em São Paulo, depois da nadadora treinar um dia no Pinheiros com o júnior, sob o comando de Albertinho, que já conhecia do Maria Lenk. Depois da entrevista, Duda voltou para Marília com os pais e a irmã, que também nada e acabou de subir do mirim para o petiz.

Beatriz Nantes: Como foi a primeira semana de treino?
Maria Eduarda Sumida: Foi bom, essa semana comecei treinando bem forte. Estou bem animada, muito focada.

Você sempre treinou com o seu pai?
Sim. Ele dá aula de natação para bebês e crianças, aprendi com ele desde os 5 meses de idade. Nunca treinei com outra pessoa.

E sempre deu certo? 
Sempre deu certo. A gente se entende muito bem como atleta e técnico. Em casa, tentamos não falar de treino, falamos de outras coisas, vemos outros esportes, e acompanhamos as notícias da natação.

Você tem vontade de treinar em São Paulo?
Eu já tive mais vontade de treinar aqui, estou ficando mais tranquila sobre isso. Faço o mesmo treino do clube já, só que em Marília, então não é tão diferente assim. Lá tenho mais tempo de descansar do que teria em São Paulo. Se viesse para cá teria que parar de estudar, e meus pais não querem isso.

Seus pais foram atletas?
Meu pai foi jogador de futebol e minha mãe jogava volei. Ele chegou a ser profissional, jogava mais futsal, no final que começou a jogar futebol. Minha mãe não chegou a ser federada porque os pais dela não apoiavam muito.

Com você parece diferente…
Sim, é bem diferente. Os dois me apoiam muito.

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Você fez outros esportes?
Quando era mais nova eu cheguei a fazer ballet e vôlei, mas não sou muito boa em esporte coletivo. Sou muito competitiva. E sempre gostei de nadar, sempre me dei bem na água. Sou sempre a pessoa mais determinada, sou muito focada. Eu gosto muito da água, quando entro parece que tudo que está fora não tem sentido mais, só nadar. Eu tenho objetivos muito altos, então nunca faço por obrigação, por ser a filha do técnico. Faço porque eu gosto.

Que objetivos são esses?
Esse ano eu quero conseguir entrar na seleção do Mundial Junior. É meu último ano para entrar, quero melhorar bastante meus tempos. Não nadei o Open, mas até agora meu índice técnico do brasileiro estaria na lista dos 8 para o Mundial [A CBDA anunciou que levará apenas 8 atletas, entre homens e mulheres, para a competição]. E para depois eu quero muito ir para as Olimpíadas de 2020.

Quando surgiu esse desejo de ir para Olimpíada?
Desde pequena, quando comecei a competir e ver mais natação, sempre quis muito ir para a Olimpíada. Comecei a achar mais possível no final do ano passado. Conversei com meu pai e falei que é isso que eu quero. Ele disse que se eu quero vamos começar a visar isso.

Você escreve seus objetivos em algum lugar?
Comecei a escrever, mas não sei se continuo. Eu gosto de marcar no celular, como plano de fundo, para ver sempre. Antes de começar o ano meu pai sempre senta e fala para escrever o que eu quero fazer no ano. Ele faz isso com todos os atletas dele e escreve os dele também. Antes de competição também, ele escreve o que espera, coloca até as parciais.

Dos objetivos que você escreveu para 2016, conseguiu alcançar todos?
Dos que eu fiz no começo do ano sim. Mas depois que passou o Finkel e fui bem, eu tinha objetivos maiores para o Brasileiro. Não alcancei exatamente tudo que eu queria. A gente entendeu que foi pelo cansaço do ano, não foi só comigo. Mas tirando isso, todos os outros foram dentro ou acima do esperado.

Você ficou em quarto no Finkel, bem perto do pódio. Foi seu primeiro absoluto?
Não, o primeiro foi o Maria Lenk. Eu fui bem, melhorei meu tempo no 400 medley, mas peguei um pouco da pressão de primeiro absoluto, de nadar com pessoas olímpicas. Depois, no Finkel, acho que já tinha visto como é tudo, e nadei melhor. Fiquei em quarto no 200 medley e peguei final B no 400 medley.

Onde você treina?
Até o petiz 2 treinava na academia do meu pai, mas a piscina tem 17 metros. Então meu pai arrendou a piscina do AABB de Marília, aqueceu, colocou bloco, e agora eu treino lá.

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Você nada sozinha?
Não, tem mais dois meninos da minha idade comigo, um deles já nadava com meu pai há muito tempo, e o David nadava em Paraguaçu e ano passado mudou para Marília e agora treina todos os dias com a gente.

Você deve tentar ganhar deles no treino…
Eu sempre tento, sou bem competitiva nos treinos. É sempre bom treinar com menino…

Assistiu as Olimpíadas? Do que você mais gostou?
Não pude ir, mas acompanhei tudo. Gostei da Ledecky, Katinka e do Phelps. Fiquei um pouco triste por descobrir que ele ia parar, ele é o ídolo de muita gente. Sempre gostei muito do Phelps.

Tem alguma lembrança das outras Olimpíadas que você tenha?
Lembro de 2008, mas eu era bem novinha, tinha 7 anos. Já gostava muito do Phelps. Em 2012 lembro da Missy Franklin e Alisson Schimitt.

A Missy é uma grande nadadora e não está tendo uma fase muito boa atualmente. Você pensa nisso, em fases ruins? Tem medo ou nem pensa no assunto?
É uma coisa que pode acontecer com todo mundo. Acho que a gente sempre precisa tentar se manter onde está, se superar cada vez mais. Também não sabemos de tudo, pode ter acontecido alguma coisa com ela que a gente nunca vai saber. Sempre tento treinar direitinho, me dedicar. Enquanto tiver que dar certo, vai dar.

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Como é sua rotina?
Esse ano eu vou começar a dobrar mais do que ano passado. Minhas dobras são de segunda, quarta e sexta, antes da aula, e treino todos os dias de segunda a sábado. Além disso vou ter musculação três vezes na semana, e nos dias que não tem, faço plio, funcional e fisioterapia. Fazia inglês também, mas acabou, e yoga.

Gosta de dobrar?
Gosto, sempre treino bem. Nunca fico cansada, sempre consigo acordar bem e costumo nadar bem na dobra.

As pessoas da sua classe sabem que você é nadadora?
Sim. Acaba saindo bastante no jornal, e a escola me ajuda muito na parte de faltas, me deixam reagendar. Eles fazem bastante publicidade sobre eu ser atleta. As pessoas da minha sala sabem e às vezes até perguntam quando eu volto de competição. Sempre perguntam se eu ganhei. Eu tento explicar que não é só ganhar, tem outras coisas.

Faz algum trabalho de psicólogo?
Não faço. Nunca vi necessidade para mim, tenho uma cabeça boa. Mas minha fisio é microfisioterapeuta, esse trabalho mexe também com emoção, então ela consegue ver que uma dor em algum lugar pode ser porque estou com raiva, por exemplo. Ela sempre me ajuda quando os pontos estão mais para o lado da emoção.

Quando era petiz 2 você bateu um recorde histórico da Poliana Okimoto no 400 livre. Como foi? Você nadou sabendo do tempo?
Sabia, eu queria muito bater aquele recorde. Meu objetivo era bater no Paulista, mas acabei batendo no Brasileiro Infantil. Como eu era petiz 2, nadei a final sozinha, porque a regra era que os petizes podiam nadar a final só se ficassem entre os 3 primeiros na eliminatória, mas sem tirar vaga de nenhum infantil. Então teve a série do infantil e a minha separada. Nadei sozinha e bati o recorde. Fiquei muito feliz.

E ano passado você bateu o recorde da Joanna Maranhão no 200 medley que já tinha 14 anos.
Eu queria muito bater e já tinha um tempo menor, que tinha feito no Chico. Mas fazer o tempo que eu fiz [2’18”11], isso eu não esperava. Gostei muito, fiquei muito impressionada.

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Tem um dos dois recordes que você tem mais carinho?
O 200 medley. Agora sou mais velha, entendo mais, no petiz é diferente. Fiquei muito feliz de bater, tenho muito carinho por esse 200 medley [com a marca, Duda fechou o ano de 2016 com o quarto melhor tempo do 200 medley em piscina longa no ranking absoluto feminino].

Além do 400 livre e 200 medley, você nada bem outras provas também, o 200 costas, o 800 livre. Quais você gosta mais?
Eu gosto do 200 livre o 200 medley. Quando era petiz nadava mais o 800 livre, que hoje nado mais em regional. Depois do petiz foquei mais no meio fundo e velocidade.

Esse ano é sua transição para o absoluto, como você está em relação a isso?
Essa é minha chance de Mundial Junior e quero muito ir. Como quero Olimpíada, tenho que começar a olhar para o absoluto, olhar as pessoas que estão na minha frente. A gente pensa em nadar algumas competições fora também, para ver como as meninas estão nadando, mas não sei se já agora.

Tem vontade de treinar e estudar fora?
Tenho, mas ainda não sei quando. Como a gente quer começar a preparação para ir para a Olimpíada esse ano ou no próximo, se eu for vai ser depois da seletiva olímpica. Pretendo ficar com meu pai esse ciclo, a menos que mude algo.

Esse ano é também seu último ano de Chico Piscina, que você nadou os três anos já.
Fui para o Chico os 3 anos, esse é o último. Se eu for para o Mundial Junior, vai ter o Finkel depois e o Chico em seguida, não sei se vou diminuir o ritmo. Mas eu gosto muito da competição, tem um clima ótimo, a gente se entrosa mais com todo mundo, com as adversárias também.

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Além de nadar, do que você gosta de fazer?
Gosto de ler, fazer yoga, ver filmes e séries. Gosto de esportes em geral. Quando estou parada sempre tento jogar com a minha irmã. Estou sempre fazendo esporte.

Algum livro te marcou em especial?
O do Phelps e do Bob Bowman. Li o do Phelps cinco vezes já.

Do que você gosta nele?
A pessoa que ele é. Ele é muito focado e sempre sabe o que pode alcançar. Ele passou por muita coisa difícil, e conseguiu ser o mesmo atleta, alcançar tudo que ele alcançou.

Você tem alguma superstição?
Sou bem supersticiosa sim.. tento sempre nadar com água dentro do óculos, e no bloco tenho que ficar chacoalhando.

Fica muito nervosa antes de nadar?
Não. Antes ficava, mas agora sou uma das mais tranquilas. Tento passar esse meu não nervosismo para as pessoas também, para ninguém ficar para baixo.

Quem são suas principais adversárias em categoria?
Sempre tive a Bruna Leme e a Ana Carolina, as duas estão sempre comigo no medley e crawl. A Bruna nada comigo desde o mirim. Sempre me dei bem, tento não fazer inimizade, tento gostar de todo mundo. Tem vezes que você vai bem e o outro não, ou o contrário.

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O que gosta mais: treinar ou competir?
Competir.Eu gosto muito de treinar, mas competir nao tem igual… você está no meio das pessoas que nunca vê, tem emoção, não fica tanto tempo rodando. Gosto muito de competir.

Odeia perder ou ama ganhar: o que é mais forte?
Acho que odeio perder mais do que amo ganhar. Sou muito competitiva mesmo. Fico brava quando perco, para os outros ou pra mim mesma. Às vezes saio da prova e falam: “mas você ganhou”, só que sei que podia ter feito tempo melhor, então não gosto. Isso acontece mais em Campeonato Paulista. Meu pai já fala para mim: abre o rosto. Você sabe que não fez o que poderia, mas lembra que eu tenho que tentar mostrar que estou menos chateada. A gente conversa bastante, ele sempre sabe quando estou brava ou não. Nossa relação é muito forte.

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