O inesquecível Desafio Aquaman de Capitólio

2 de abril de 2019

Maratonas Aquáticas12 comentários em O inesquecível Desafio Aquaman de Capitólio

Todas as fotos são de Fabio Mota (@fabiomotaphoto).
Texto por Beatriz Nantes (@bia.nantes)

Em um rancho em Capitólio, eu e um amigo conversávamos sobre o Desafio Aquaman, prova que havíamos acabado de nadar. Jogados no sofá com aquela marca inconfundível de óculos no rosto, falamos sobre a água pesada, o calor, a volta que na verdade deu mais de 7km, a agonia de não chegar nunca, o cansaço, a dor.

Do nosso lado, um amigo não nadador que nos acompanhou na viagem perguntou: resumindo, vocês odiaram?

Nós dois respondemos juntos: não.. foi demais!

Como explicar esse sentimento, meio masoquista e incoerente, de amar algo assim?

Talvez começar falando sobre o lugar: de longe o mais lindo que já nadei na vida. Os passeios em Capitólio um dia antes foram um encanto – tudo é realmente lindo, os cânions e cachoeiras não devem nada para destinos internacionais reconhecidos. Enquanto passeava no barco, eu só pensava: que sorte eu tenho de poder nadar aqui amanhã, de poder viver esse lugar de um jeito tão diferente e tão único.

Com menos de 10 mil habitantes, a cidade acolheu os 900 nadadores e suas famílias em um final de semana de sol. Talvez esse número também ajude a responder a pergunta ali em cima. Fiquei emocionada quando cheguei, atrasada, no Congresso Técnico. Tanta gente junta assim pra nadar! Tantas pessoas de todas as idades vindo de longe, pegando horas de carro e ônibus, saindo mais cedo do trabalho, ouvindo explicações sobre boia, vácuo, barco de hidratação, retirando kit. Um hotel daquele tamanho mobilizado para um evento de natação… que lindo.

No domingo, acordei 5h da manhã para a largada da prova de 15km, a primeira do dia, marcada para 6h30. Quando comecei a cogitar voltar para as maratonas aquáticas como nadadora master, uma das coisas que me pegava era isso: acordar cedo no fim de semana. Seja pra fazer os treinos longos de complemento ou pra competir, não entrava na minha cabeça como eu abriria mão do meu sagrado sono de sábado e domingo para me enfiar na água. Hoje, dois anos depois de entrar nesse caminho sem volta, não consigo entender como perdi tantos fins de semana dormindo antes.

Nadar águas abertas (assim como outros esportes de resistência) é diferente de natação na piscina e da maioria dos esportes, em que é possível, do lado de fora, assistir a competição inteira se desenrolando. Aqui não. Nos lançamos na água e para nossos acompanhantes só é possível torcer de longe, imaginar o que está acontecendo, rezar para que tudo dê certo e esperar. Enquanto isso, sem espectadores, nós começamos a nadar. E é ai que a mágica acontece.

Tem quem goste de cantar e pensar na vida, quem fique concentrado na técnica, quem converse consigo mesmo ou aproveite pra lembrar de momentos da vida. Tem quem consiga não pensar em nada, entrar no flow e simplesmente estar ali, em uma espécie de meditação. Tem quem fique com raiva quando a dor começa a pegar mais forte, questionando “o que é que eu to fazendo aqui??”. Tem quem prometa nunca mais fazer nada disso de novo, quem chore, tem quem fique impassível e calmo o tempo todo.

Também dá pra acontecer tudo isso na mesma prova com a mesma pessoa – comigo costuma ser assim. Altos e baixos e conhecer coisas sobre mim mesma que eu nem imaginava e que dificilmente consigo recriar depois, porque só consigo compreender naqueles instantes em que só existo eu, a água, meus pensamentos, minha fé.

Outra coisa meio inexplicável é a importância das pessoas que a gente encontra no meio da travessia. Na prova de 15km, tínhamos que levantar após a primeira volta, andar alguns metros, e voltar para a água. Quando sai, uma mulher, que nadou muito tempo comigo, me abraçou e falou “hoje tá duro né amiga?”. Andamos e voltamos para a água juntas; ali eu senti que não estava sozinha.

Faltando uns 6km, encontrei dessa vez um homem, Alan. Nadamos juntos até o fim. Não sei nada sobre ele mas, naquele momento, sem falar nada nós sabíamos tudo o que o outro precisava. Não sei como teria sido aquele final de prova sem esse desconhecido falando “vai, agora falta pouco, só mais uns 45 minutos”. Esses encontros no meio de provas são difíceis de explicar, mas é incrível como um pequeno “Não para” tem uma força de outro mundo.

Também foi emocionante enxergar o Samir esperando na chegada e estendendo a mão. Eu lembro dele me vendo chegar de longe e falando vem, depois me segurando até eu conseguir andar, como mostra essa foto ai embaixo. E foi assim que ele recebeu todos os atletas: com a a cumplicidade de quem já passou por isso tantas vezes e sabe como é maluco e intenso esse momento de chegar. Além disso, dava para ver na cara dele a felicidade de ver algo planejado por tanto tempo e com tanto carinho finalmente acontecendo com sucesso.

Minha prova foi a de 15km (que na verdade foi de 16.5km – na hora eu odiei esse percurso a mais, mas agora… só torna tudo mais especial). Mas sei que os sentimentos não são tão diferentes de quem nadou a de 7km, 3km, 1.5km ou 200 metros. Cada um com sua história pessoal e única de superação: muitos fazendo uma travessia pela primeira vez, outros estreando em ultramaratonas, outros evoluindo, brigando por pódio, conquistando sua própria grandeza.

900 pessoas não podem ser assim tão loucas. Pensando bem, a resposta já esta na própria pergunta:”Como explicar esse sentimento, meio masoquista e incoerente, de amar algo assim?”

É isso: amor.

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12 comentários em "O inesquecível Desafio Aquaman de Capitólio"

  1. Luciana disse:

    Que delicia ler esse relato!

  2. Zélia disse:

    Parabéns a esses nadadores determinados, corajosos. Meio maluquinhos tb. Que Deus os abençoem e protejam sempre. Que essa força permaneça em seus corações e que sejam sempre vencedores, mesmo que não alcancem o pódio, vencedores de seus desafios. Grande abraço a todos.

  3. Muito bom Beatriz.

    Uma coisa não abordada e que para mim especificamente é meio crucial é o compromisso entre “quero ganhar”e “quero curtir”. É um pouco diferente nadar de uma forma ou de outra, certo?

    No final a sensação é parecida, de realização e sentimentos bons de qualquer forma, seja você ter ido para ganhar ou para chegar. Mas ali, na água, é diferente, certo?

    Parabéns pelo texto

  4. Leo Chaves disse:

    Essa também foi a minha primeira competição, até agora estou vivendo tudo aquilo, já chorei algumas vezes, mesmo já tendo passado o desafio. É aquela coisa surreal, vc só precisa participar uma vez, daí vai querer participar sempre

  5. Edilene Albino disse:

    Beatriz, parabéns pelo texto que explica exatamente meu sentimento de uma mera estreante. Estou em êxtase até o momento e queria que todos a minha volta sentissem a mesma sensação. Aí, “seguro a emoção “ rs… pq foi o meu momento. Sei que algumas pessoas imaginam: que louca!… foram só 200 metros… mas por isso mesmo, há dois anos não nadava nem 2. Enfim, parabéns pelo texto e principalmente aos heróis de todos os percursos, porque para mim vcs são pura superação. FUI PICADA PELO BICHINHO DA TRAVESSIA, que venha a próxima. Bjs

  6. Hermann disse:

    Beatriz, essa foi a primeira vez que participei de uma prova na vida. Comecei a nadar há 1 ano, sou autodidata e resolvi competir na long simplesmente porque achei que podia completar a prova no tempo máximo estipulado. Mesmo sendo menos experiente que você, me reconheci no seu texto, senti cada momento exatamente como você narrou. Esse esporte é mágico, me contagiou e será uma das bases da minha vida de agora em diante. Saber que nadando ao meu lado tem pessoas com tanta sensibilidade como a sua me motiva ainda mais. Parabéns, pela prova e pelo texto.

  7. Jorge disse:

    Gostei muito do seu texto.
    Hoje entendo melhor o Joseph Campbell, que dizia que atingia o satori ( iluminação, epifania) quando nadava.
    Vlw!

  8. Thais disse:

    Amei o texto, foi exatamente isso tudo que você falou,
    obrigada por conseguir expressar tão bem esse momento !!

  9. Juliana Machado disse:

    Caiu um cisco aqui Bia! Eu que te abracei no pier, talvez se não tivesse te encontrado, não teria ido pra 2° volta!!! Belo texto, emocionante e apaixonante como nossa amada maratona aquática!!!!

  10. Rods disse:

    Perfeito relato

    Atleta de águas abertas desde 2004 nunca li algo tão simples que descreve momentos únicos como nadar ultramaratonas.

  11. Mariana disse:

    Me emocionei aqui! Preciso voltar para as águas abertas urgente! Obrigada por compartilhar este texto tão lindo!

  12. Ricardo 580 disse:

    A melhor prova que já fiz!!! Esperando para o ano que vem novamente!!! Valeu Samir!!!

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