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As revelações de Michael Phelps

10 de novembro de 2015

Notícias3 comentários em As revelações de Michael Phelps

Se você gosta de natação, pare o que estiver fazendo para ler a reportagem da Sports Illustrated com Michael Phelps neste link. Detalhes em profundidade do seu período em rehab, de sua volta à natação, reflexões do Phelps de 30 anos sobre o Phelps de 20 e poucos, sua nova forma de encarar a vida: do Phelps mito ao Phelps humano, está tudo lá, em matéria assinada por Tim Layden.

As declarações são fortes e os detalhes começam principalmente no momento pós Pequim-2008, quando Phelps atingiu o inatingível: ganhou oito ouros olímpicos em uma mesma edição dos Jogos, um dos maiores feitos (senão o maior) de um atleta olímpico em todos os tempos. Somado a suas oito medalhas conquistadas em Atenas-2004, Phelps tinha 16 medalhas olímpicas, 14 de ouro, com apenas 23 anos.

Depois de Pequim, mentalmente, eu estava acabado. Não queria fazer aquilo de novo, mas sabia que não podia parar. Então me forcei a fazer uma coisa que realmente não queria, que era continuar nadando. Naqueles 4 anos, eu perdia na média dois treinos por semana. Por que? Não queria ir. Queria dormir. Faltar na sexta e ter um fim de semana prolongado”.

Bob Bowman fala como foi difícil treiná-lo nesse período. A história mais chocante foi de um treino poucos meses antes das Olimpíadas de Londres, que resultou em uma briga entre os dois e Phelps fora da piscina por 10 dias:

“Ele tinha feito algumas semanas de bons treinos, e pensei que talvez desse tudo certo. Voltamos para Baltimore uma segunda, e estávamos fazendo uma série típica de lactato, e Michael e Chase Kalisz chegaram quase ao mesmo tempo. Eu gritei o mesmo tempo para os dois. Michael gritou: “Você vai me falar meu tempo ou o que?”. Eu disse a ele um tempo separado e ele começou a nadar devagar, que é o que ele faz para me irritar. Eu gritei com ele: “Meu cronômetro tem sido bom o bastante nos últimos 15 anos”. Começamos. Terceira Guerra Mundial. Quebrei meu relógio na parede. Fomos para o estacionamento, eu mostrei o dedo do meio para ele, ele mostrou pra mim. Ele não voltou por 10 dias. Finalmente ele voltou no dia 11, porque Matt Lauer estava na cidade para entrevistá-lo. Essa foi nossa preparação para Londres”.

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Bob levou Michael para Colorado Springs por 6 semanas depois desse episódio, para tentar mantê-lo treinando. O treinador se culpa por tê-lo obrigado a nadar o 400 medley. “Queria que ele nadasse o medley para treinar o suficiente para as outras provas. Meu erro. Achei que ele podia nadar um 400 medley de merda e terminar em segundo, ele nadou um 400 medley de merda e terminou em quarto. Eu fui um idiota”.  Ainda sobre Londres, Bob chamou de milagre a prova de 200 borboleta, em que Phelps ficou em segundo, perdendo o ouro por 5 centésimos, considerando o quando o nadador treinou para a competição.

Logo depois de Londres, Phelps se aposentou. A vida longe das piscinas não durou muito, e a matéria conta da decisão de voltar às piscinas, tomada em uma viagem a Cabo San Lucas, no México, em 2013. Ele ligou para a mãe (que chorou), para as irmãs e para Bob, que em um primeiro momento disse não ao nadador, dizendo ainda estar com um gosto amargo  de treiná-lo entre Pequim e Londres. Meses depois, os dois foram jantar em Baltimore e Bob cedeu.

Phelps voltou a treinar, mas não mudou seu estilo de vida, que incluía apostas e álcool. Os amigos comentam que não chegava a ser algo fora do controle, mas que havia algo estranho, e sempre havia pessoas dispostas a sair com Phelps. Sua irmã comenta que ele mal respondia as mensagens, e que era difícil falar qualquer coisa para ele.

No dia 30 de setembro de 2014, Phelps foi preso após ser pego dirigindo sob influência de álcool. Sobre esse dia, sua mãe contou qual foi a reação ao receber a notícia por telefone do seu agente Peter Carlisle: “Coloquei minha cabeça na escrivaninha e pensei: Deus, aqui vamos nós de novo. O quão terrível o mundo vai ser com meu filho?”.

Bob Bowman disse que vivia com medo de receber uma ligação falando que algo tinha acontecido. “Honestamente, do jeito que ele estava indo, achava que ele ia se matar. Não se suicidar, mas algo como dirigir embriagado”.

Brian Shea, um dos melhores amigos do nadador, contou sobre o momento após a prisão, em que alguns dos amigos e família se reuniram na casa de Phelps: “Foi tão ruim como você pode imaginar que tenha sido. Dava para ver que ele estava sentindo o peso das atitudes. Ele sabe que as crianças olham para ele. Ele sabia que tinha decepcionado as pessoas, e não sabia o que ia acontecer”. A reportagem detalha ainda como foi se formando um consenso sobre a necessidade de Phelps ir para uma clínica de reabilitação naquele momento. Sobre isso, ele disse:

“Eu estava em um momento muito escuro. Não queria mais estar vivo. Abraços, beijos, fui para o quarto. Provavelmente nunca tinha tido tanto medo em toda minha vida”, contou sobre o momento em que voou para a clínica The Meadows, no Arizona.

No início, ele conta que não tinha vontade de conversar com ninguém. Em uma das primeiras noites, alguns pacientes estavam assistindo um jogo de futebol e em um dos intervalos, apareceu a noticia que Phelps havia sido suspenso por 6 meses e banido do Mundial de Kazan. “Eu sabia que ia ser suspenso, mas não sabia do Mundial, não sabia nem que essa era uma opção. Todo mundo na sala olhou para mim. Eu disse: é, sou eu. Levantei, fui pegar uma água, sentei de novo. ‘Sim, esse sou eu'”. Com o passar do tempo, Phelps começou a diminuir a resistência, encarando a reabilitação como uma competição.

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“Vou fazer isso. Estou aqui por 45 dias, vamos ver o que dá para fazer. Acabei descobrindo muitas coisas sobre mim que provavelmente sabia, mas não queria encarar. Uma delas é que por muito tempo, eu me via como o atleta que era, mas não como um ser humano. Olho para trás e vejo que vivi em uma bolha por muito tempo. Eu estava em sessões com completos estranhos que sabiam exatamente quem eu era, mas eles não me respeitavam pelo que eu tinha feito, mas por quem eu era como ser humano. Eu comecei a me sentir cada vez mais feliz. No meu grupo, formamos uma família. Todos queríamos ver os outros bem. Foi novo pra mim. Foi difícil, mas foi bom”.

A transformação era nítida para seus familiares e amigos, e uma das principais foi em relação a seu pai, com quem Phelps sempre teve uma relação distante. Na reportagem, ele admite que embora Bob Bowman e Peter Carlisle sempre tenham atuado como figuras paternas, sempre foi difícil não ter um pai. Fred Phelps, o pai, conta episódios entre os dois, como uma competição em que prometeu que estaria presente, em 2001, mas não pode ir, e quando chamou o filho para ser padrinho de seu terceiro casamento, em 2013, e ele recusou. Na quarta semana de tratamento na clínica, os pacientes podiam chamar quem quisessem para irem até lá. Phelps chamou sua namorada, a mãe, e o pai (eles não estavam se falando na época). Fred disse que quando o viu chegando, Phelps o abraçou e disse que não sabia se ele iria. “Você é meu filho, porque eu não viria?”.

Depois da reabilitação, Phelps disse que se sentiu simplesmente feliz. Ele continua fazendo terapia e os amigos dizem que está mais espiritualizado. Em março, ele pediu a namorada Nicole Johnson em casamento. Os dois tem uma historia de idas e vindas: se conheceram quando ela era uma estagiária na ESPN em 2007 e cobria o nadador. Eles começaram a namorar e terminaram em 2008, voltaram em 2010, terminaram em 2011. Phelps tentou voltar com ela em 2013 mas ela não quis, até mudar de ideia em 2014. “Nós dois tivemos diferentes relacionamentos, mas nunca encontramos ninguém que nos entendesse do jeito que nos entendemos”.

Hilary Phelps, sua irmã mais velha, conta que sente que o irmão está mais em paz. “Antes ele estava sempre um pouco tenso, irritado. Ele está deixando as coisas pra lá agora. Acho que é isso o que acontece quando você chega a um lugar tão doloroso”.

Bob Bowman confessa que não esperava ver Phelps treinando da forma como está de novo. Ele conta sobre séries de 150 borboleta feitas pouco antes do Campeonato Americano, competição em que Phelps fez seus melhores tempos desde 2009 no 100 e 200 borboleta, e de onde saiu com três marcas no topo do ranking mundial de 2015.

Bob mudou o treino para acomodar a idade avançada e o ombro direito, diminuindo o volume de 85 mil para 50-60 mil metros por semana. “Meu objetivo agora é ter qualidade e velocidade”. A matéria relata momentos de piada de Phelps, como um treino em que sua pulsação caiu mais devagar que o atleta mais novo na equipe, e ele gritou “O velho não consegue baixar os batimentos!”. Mas Bob fala sobre como ele está mais forte. A expectativa do treinador é que ele chegue muito perto de seus tempos feitos com trajes nas Olimpíadas do Rio.

“Eu voltei a ser a criança que uma vez disse que tudo é possível. Vocês verão um Phelps diferente do que viram em todas as outras Olimpíadas”.

Mal podemos esperar.

Leia a reportagem completa

 

 

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3 comentários em "As revelações de Michael Phelps"

  1. felipe castaman disse:

    Muito bom ler materias assim. massa

  2. Antônio Eustaquio disse:

    The monster is back! Maybe better than ever.

  3. Amelia disse:

    A reportagem é ótima!!!! Parabéns!!!

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