katinka hosszu

Katinka põe a boca no trombone

22 de junho de 2017

Notícias3 comentários em Katinka põe a boca no trombone

Katinka Hosszu participa de Olimpíadas desde 2004, mas começou a ficar famosa após as etapas da Copa do Mundo de 2012, quando ganhou o circuito disputando inúmeras provas e ganhando o apelido de Iron Lady. Até então, não possuía nenhuma medalha olímpica. Teve um ciclo olímpico praticamente perfeito, coroado com o tão sonhado ouro olímpico no Rio, ano passado (no caso, 3 ouros olímpicos).

Após 2012, Katinka foi coroada rainha da Copa do Mundo todos os anos, fazendo coisas cada vez mais inacreditáveis, diversos recordes mundiais e muito dinheiro no bolso. Esse ano, a FINA decidiu mudar algumas regras do circuito, muito provavelmente em função dos ganhos exorbitantes da húngara e foi a gota d’água para o desabafo (ou ainda um apêlo) da nadadora para toda a comunidade aquática em seu Facebook.

Traduzido por Carolina Moncorvo.

“Você pode estar lendo essas palavras no meio da noite ou logo antes do amanhecer. Eu não tenho certeza quando você encontra tempo, mas o que eu sei com certeza é que de todos os atletas de elite do mundo, os nadadores são os que acordam mais cedo e vão dormir mais tarde. Isso não é muito por escolha. Muitos de nós tem que viver duas vidas. Enquanto lutamos pela excelência na piscina, temos também que gerenciar nossas vidas fora dela. Enquanto a Iron Lady está se preparando para Mundial de Budapeste, Katinka se prepara pra sua vida após a natação. Embora o Mundo nos veja como nadadores, um dos profissionais mais determinados e que trabalham mais duro, nossos líderes parecem pensar que nosso esporte é amador, portanto somos amadores e é exatamente como nos tratam.

Se natação ainda não é um esporte profissional, então é um reflexo do trabalho que a FINA vem fazendo nas últimas décadas, não um reflexo do esporte que é um dos fundamentos para o desenvolvimento atlético das crianças. Há uma razão para que várias crianças não sigam para a natação competitiva; é muito desafiador. Se você quer ser um nadador em 2017, você pode ter uma certeza: se você não está no top 5 do mundo, você vai investir mais do que receber. Isso parece atrativo? Não. Podemos fazer com que fique mais interessante? Estou certa que podemos, desde que a FINA nos ajude, ao invés de impedir os melhores atletas de fazerem algo.

Primeiro, eles deviam nos procurar e nos ouvir, todos os nadadores. Eles deviam nos ouvir e não decidir por grandes mudanças de regra sem sequer nossa opinião sobre o assunto. Se eles tivessem ouvido nossa opinião, poderíamos ter falado que a Copa do Mundo tem um grande potencial, mas as mudanças de regras planejadas são destrutivas e hipócritas.

Todos acham que a mudança de regras da Copa do Mundo são contra Katinka Hosszu. Isso pode ser parcialmente verdade, porque eles realmente me ferraram. Imagine, eu sou como um daqueles estudantes que tiram nota A em todas as aulas, além de ganhar pontos extras em atividades extra curriculares. Então, no ano seguinte, me falam que não posso mais fazer atividades extra curriculares porque meu sucesso incomoda o resto dos estudantes. Mas a verdade é que apenas o professor está incomodado.

Eu poderia me ver como uma vítima, mas, por outro lado, eu ganho vantagens da FINA que eu nunca pedi. Eu não quero avançar automaticamente para as finais da Copa do Mundo baseado em meus resultados anteriores em competições internacionais. Eu quero competir por vagas na final com jovens talentos, como Iwasakis e Egerszegis e se elas forem melhor que eu com 14 anos de idade, deixe-as mostrar seus talentos. Com a mudanças de regras da Copa do Mundo elas começam em desvantagem – elas tem que esperar até que atletas do topo fiquem velhos e aposentem antes de conseguirem a vantagem de avançar automaticamente para as finais. Isso não é justo.

De acordo com as novas regras da competição, não haverá todas as provas em todas as etapas. Agora, por exemplo, um nadador top alemão pode não competir em seu próprio país, porque suas principais provas serão disputadas em Moscow ou Eindhoven, mas não em Berlim. Por que a FINA faz regras que são prejudiciais aos atletas, aos organizadores da competição, à própria Copa do Mundo e à natação como um todo? Essas regras estão arriscando o futuro do esporte, que eu não desejo apoiar com meu silêncio.

Como um esporte pode nomear regras como “inovadoras” quando na verdade são destrutivas, limitando a participação dos atletas de elite? A NBA limitaria uma de suas maiores estrelas, LeBron James, em sua oitava participação na grande final ano que vem? A ATP tentaria lembrar o Nadal e o Federer que seus auges já passaram? Como uma das caras da natação atualmente, eu deveria estar focada em preservar e estender minha carreira não nadando muitas provas e não desgastando minha imagem. Ao invés disso, estou aqui lutando por poder nadar o quanto eu quiser para continuar popularizando meu esporte.

Por favor, não pensem que os líderes da FINA não sabem de tudo isso. Eles são desesperados para manter a importância do Campeonato Mundial viva e prosperando – um evento que os ganhos e retornos não são compartilhados com os atletas -, destruindo a Copa do Mundo, um evento que poderia ser no futuro uma oportunidade muito mais lucrativa financeiramente para muitos nadadores. A FINA claramente enxerga que poderia perder totalmente seu poder no esporte se mesmo uma parcela pequena dos atletas tivessem suas imagens mais fortes que a dela. Minha história não é sobre Katinka Hosszu, mas sobre nadadores profissionais que já perceberam que possuem poder suficiente para influenciar o futuro do esporte.

Eu fortemente acredito que a natação pode ser um esporte profissional de verdade, mas para isso precisamos acabar com a mentalidade de décadas, que é baseada na ideia: todos são iguais, mas dentre os iguais devem haver mais iguais. Os líderes da FINA já decidiram: eles não querem tratar os atletas de forma igual aos parceiros. Ao invés disso, eles criaram regras destrutivas, que estão limitando especificamente nossas oportunidades. Ao invés de representarem o interesse do esporte e dos atletas, eles focam exclusivamente em agradar seus próprios interesses enquanto operam como se ainda fosse 1989, e não 2017.

6.8 bilhões. De acordo com a FINA, esse número é a quantidade de vezes que as pessoas mudaram de canal na TV para assistirem o Mundial de Kazan em 2015. Essa mesma entidade, que se gaba por esse número incrível de telespectadores, ousam nos dizer que não há dinheiro na natação, fazendo com que seja um esporte amador. Se isso é mesmo verdade, por que não podemos ver quanto que os direitos de transmissão geram de receita? Se todos os nadadores são proibidos de usar seus fones de ouvido de seus patrocinadores pessoais, já que o contrato do patrocinador da FINA proíbe, então por que os nadadores não podem ver exatamente como a FINA está sendo beneficiada por essa parceria? Por que os nadadores não podem se beneficiar dos eventos mais populares internacionalmente? Isso sem mencionar os logos nos uniformes.

Não é exagero dizer que a FINA está um caos. Não há transparência nas finanças, as contantes mudanças de regras e líderes sem visão. A princípio pode soar um pouco assustador, mas essa é nossa hora, de nós nadadores fazermos algo sobre o futuro de nosso esporte. Nós não seríamos pioneiros; há tantos exemplos inspiradores de outros esportes antes da gente.

Baseado nas regulamentações na NBA, a liga tem que dar mais da metade da receita anual relacionada ao basquete aos atletas; exatamente 51% vai para o salário dos atletas, sem mais, nem menos. Portanto, tanto o atleta quanto a liga possuem as mesmas causas. Esse sistema é transparente e justo. Sabe porque a liga é feita dessa forma? Não porque o líder da NBA foi generoso e ofereceu uma porcentagem da receita como um presente. É porque os jogadores reconheceram o poder de estarem unidos e a NBA teve que se dar conta que sem os jogadores, a liga não valeria nada.

Em 1973, Nikola Pilic, o melhor jogador de tênis da Yugoslávia, foi banido pela federação porque ao invés de jogar pelo time nacional de graça, ele participou de uma competição canadense com premiação em dinheiro. Quando os organizadores de Wimbledon disseram a Pilic que devido a isso não poderia competir, ele ficou furioso.

O Tênis estava em evolução naquele momento: homens de negócio, agentes e transmissoras estavam todos esperando por sua parte do grande dinheiro que os jogadores faziam por suas performances. Os atletas sabiam que eles deveriam estar prontos para essa mudança, então um ano antes eles criaram a ATP (Associação de Profissionais do Tênis). Pilic disse ao presidente da associação dos jogadores sobre essa proibição, que então convenceu quase todos os os top 50 jogadores a assinarem uma petição que dizia: Se ele não jogar, nós também não jogaremos.

A federação internacional, a mídia e o público riram dos atletas por sua fraca tentativa de se unirem e todos tinham certeza que na hora que o maior torneio estivesse prestes a começar, os atletas mudarem de ideia. No dia decisivo, de todos as grandes estrelas, apenas um jogador inglês e quatro europeus dispuseram-se a competir (o jogador inglês estava lá por razões patrióticas e os quatro europeus por causa da pressão comunista de seus países). Os outros 81 jogadores permaneceram unidos. E qual foi o resultado? O evento esportivo mais estranho da história, onde os 300 mil fãs puderam assistir a jogadores amadores de terceira classe competirem. Ficou claro que mesmo o maior e mais prestigioso evento não vale nada sem os melhores atletas.

A federação internacional foi forçada a perceber que o poder estava nas mãos dos atletas: eles imediatamente voltaram atrás com a proibição, deram a liberdade aos atletas de escolherem onde e quando eles podiam jogar e permitiram aos atletas de darem opinião sobre as decisões mudanças mais importantes para o futuro do esporte.

A partir desse ponto não houve mais paradas: nos 10 anos seguintes, os prêmios em dinheiro aumentaram dez vezes e o tênis tornou-se um dos esportes mais rentáveis de todos os tempos e não apenas para os organizadores e jogadores, mas para todos envolvidos.

Nós temos que aprender com o boicote de Wimbledon, porque sem eles não teríamos os melhores como Agassi, Federer e Djokovic. Sua mensagem era muito clara: temos que nos unir por nós, não podemos deixa-los decidirem sem a gente, quando e onde competimos e por quanto dinheiro. Se as regras – que eles criaram sem nossa opinião – é prejudicial, ilógica e sem sentido, temos que nos manter fortes com o que acreditamos porque essa é nossa responsabilidade!

Tenho 28 anos de idade. Ganhei um total de 21 medalhas de ouro em Olimpíadas, Mundiais e Campeonatos Europeus, e tenho certeza que já estou no final da minha carreira. Eu poderia não fazer nada, competir só mais algumas competições e viver confortavelmente pro resto da vida. Acredite, não escrevo isso por mim, mas pelos nadadores mais jovens e pelas próximas gerações.

Não é incrível quando crianças de 8 anos correm até nós maravilhados pedindo por autógrafos? Não é incrível quando nadadores adultos de sucesso nos olham como seus modelos. Você não se orgulha quando ouve um avô dizer a seu neto que nós deveríamos ser seus heróis. Para eles e para milhões de pessoas, nós somos a natação. É por isso que é nossa responsabilidade como mudaremos o futuro desse esporte.

A oportunidade sempre esteve diante de nós. Mas depende da gente aproveita-la. Como em qualquer performance, nós todos temos que começar juntos, mas ao invés de competindo um com o outro, dessa vez temos que lutar juntos como se fossemos um.”

Aqui no Brasil, somos prova de que é possível conseguirmos voz e transparência, unindo todos os atletas.

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3 comentários em "Katinka põe a boca no trombone"

  1. tereza souto disse:

    Ola Carolina,
    Voce disse no final da sua material “Aqui no Brasil, somos prova de que é possível conseguirmos voz e transparência, unindo todos os atletas.” .

    Poderia fazer uma material como a publicada pelo Lance na sexta passada em que diz que a FINA ja deu entrada no processo de suspensao da CBDA pelo fato deles nao reconhecerem as eleicoes (ou seja porque ela foi um golpe contra a atual gestao)?

    Poderia tambem fazer uma outra dizendo que caso isso aconteca mesmo provavelmente perderemos e pagaremos multa para os atuais patrocinadores?

    Por fim, poderia fazer tambem uma material acusando essa nova gestao da CBDA (e todos os novos funcionarios que estao vindo de SP) de usar dinheiro PUBLICO e que deveria ser destinado aos atletas, para bancar a estadia deles em HOTEIS de luxo no Rio? Ah, seria legal tambem mencionar que crucificaram o Coaracy por ter sido presidente por mais de 30 anos sendo que o novo presidente estava a frente da FAP ha 22 (e teria sido por mais tempo senao tivesse dado esse golpe na cbda).

    Nao me parece que essa uniao dos atletas do brasil foi para um bem maior… isso foi na verdade um tiro no pe. Consequencias aparecerao…

    • Carolina Moncorvo disse:

      Olá Tereza, claro que posso falar de tudo isso… quando eu tiver provas. Falar de temas sem prova, como a que alegou sobre hotel, seria uma irresponsabilidade jornalística da minha parte.

      Sobre o não reconhecimento da FINA sobre a eleição, você concorda com a FINA de que foi um golpe? Poderia me explicar o motivo que acredita nisso?

      Não estou aqui para defender a atual chapa e, de fato, ela mesma terá a oportunidade de provar (ou não) se foi uma boa escolha dos atletas e federações. E torcemos para que Miguel e sua equipe cumpram com todo o plano proposto. Do contrário, os atletas tem o poder de se unir de novo em prol de algo melhor, até que possamos chegar no “mundo ideal”.

      Se seu “mundo ideal” era a chapa antiga da CBDA, respeito. Mas honestamente não entendo.

      • Tereza Souto disse:

        Oi Carolina,
        Sim, eu concordo com voce em todos os seus pontos. Defendendo meu ponto de vista, acredito sim que tenha sido um golpe ja que mudar as regras das eleicoes foi uma decisao arbitraria do interventor e com interferencia da justiça, desrespeitando o estatuto da cbda sem convocar a Assembleia extraordinaria pra fazer tais alteracoes. Tudo isso ao meu ver pra favorecer a chapa de SP que logicamente ganharia com isso por ter a maioria dos votos das federacoes. Enfim.

        Tambem nao sei se o mundo ideal era a chapa antiga da CBDA, mas o que temos ate agora sao acusacoes contra a diretoria antiga sem provas (ainda nao houve julgamento nem veredito, somente investigacoes e sensacionalismo da midia), e uma chapa nova que tomou o poder de forma inconstitucional e que esta demitindo funcionarios com anos de experiencia na confederacao (quando o Miguel disse que manteria TODOS os funcionarios la), e beneficiando esse novo grupo que esta vindo de Sao Paulo e gastando dinheiro que deveria ser investido em atletas ficando em hoteis…

        Vamos aguardar os proximos capitulos,. Eu realmente espero que de tudo certo no final, e que os atletas nao sejam mais prejudicados!

        Abraços.

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