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A dor e a delícia da seletiva olímpica

5 de julho de 2016

Rio 20162 comentários em A dor e a delícia da seletiva olímpica

1803 nadadores estavam inscritos nos Trials dos EUA, seletiva única para os americanos conseguirem classificação para os Jogos do Rio. Oito dias de competição depois, 47 deles (2.6% do total) posaram para a foto oficial da seleção, um grupo que mistura veteranos e estreantes, experientes e novatos, favoritos ao ouro no Rio e segundos reservas do revezamento. O grupo é heterogêneo, mas tem uma e fundamental coisa em comum: todos estarão nas Olimpíadas.

Para além das estatísticas do quão forte é o time, da comparação com 2012 e perspectivas para o Rio, vale a pena gastar um pouco mais de tempo nisso. É claro que o objetivo final e mais importante dos nadadores é nadar bem nas Olimpíadas, ninguém questiona isso. Mas existe uma Olimpíada antes da Olimpíada: a seletiva. Seja no duríssimo Trials dos EUA, nas duas competições classificatórias do Brasil, no confuso modelo chinês ou em qualquer país do mundo, chegar nos Jogos Olímpicos não é fácil. Não é um trabalho de uma competição nem de 4 anos, é um trabalho de uma vida.

Olhamos muito essa semana para as histórias de quem chegou lá. Dos nadadores e comissões técnicas e famílias que tiveram esse trabalho de uma vida recompensado com uma vaga. “Sonho de criança”, “em choque”, “não teria conseguido sem meu incrível time” são algumas das expressões que apareceram de forma recorrente em entrevistas e posts após as provas. Mas há dezenas de nadadores que também trabalharam tão duro quanto, famílias e equipes que se sacrificaram e treinaram e saem de Omaha de volta para casa, sem um passaporte para o Rio de Janeiro.

Amamos acompanhar a carreira de Michael Phelps e Katie Ledecky. Mas para cada um deles, lendas para quem a classificação olímpica é quase um detalhe no caminho de mais recordes, existem centenas de Katie’s, Tom’s, Micah’s e Belinda’s, para quem a classificação olímpica é o verdadeiro sonho. E essas histórias valem a pena serem contadas.

É o caso de Seth Stubblefield, por exemplo. Aos 22 anos, ele amargou o terceiro lugar mais difícil de digerir: por apenas 4 centésimos, ficou fora das Olimpíadas na prova de 100 borboleta. Nadando na raia 4 na final, o nadador do CAL virou os 50 metros na frente mas foi superado por Michael Phelps, atual tricampeão olímpico da prova, e Tom Shields, seu companheiro de treino na Califórnia. Com 51″24, Seth fez o quinto melhor tempo do mundo em 2016, mas não chegou entre os dois primeiros. Cruel.

Sua noiva, Lauren Harrington, postou uma homenagem a Seth no facebook, realçando a reação dele após a final, se mantendo positivo e mantendo a cabeça ao comentar sua prova. Os dois se casarão em outubro, e terão como um dos padrinhos Ryan Murphy, que morou com Seth na Califórnia e foi um dos grandes nomes do Trials, se classificando para as Olimpíadas em duas provas. O site do casamento de Seth e Lauren é quase um tributo a natação: os dois são nadadores e se conheceram em competições; Seth pediu a noiva em casamento no clube onde ela aprendeu a nadar.

 

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A foto abaixo é de Tom Shields, o segundo colocado, o que ficou com a vaga por 4 centésimos. No twitter, ele disse que precisou segurar seu lado fã quando subiu ao pódio com Phelps e teve a medalha entregue por Ian Crocker. Na foto, ele abraça sua mãe após a final- as duas faces da mesma história. O classificado tem uma história, o não classificado também tem.

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Seth é novo e nunca esteve em uma Olimpíada, mas sua dor não é muito diferente da dor de uma atleta como Caitlin Leverenz. Em 2008, ela ficou em terceiro no 200 peito nos Trials, sem vaga para as Olimpíadas. Quatro anos depois, conseguiu a vaga. Em Londres, Leverenz ficou em terceiro no 200 medley, sua primeira medalha olímpica em sua primeira (e talvez única) Olimpíada. Ela desabou de chorar ainda dentro da piscina:

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Dessa vez, Leverenz chorou de novo ainda dentro d’água, dessa vez depois de ficar a apenas 5 centésimos da vaga na mesma prova que quatro anos antes deu a ela uma medalha olímpica. A NBC mostrou depois imagens suas arrasada, abraçando a técnica e a família. No instagram, ela disse que está com o coração partido e desapontada, mas ao mesmo tempo orgulhosa e de cabeça erguida.

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Tim Phillips ficou em quinto lugar no 100 borboleta, ficando a 24 centésimos da vaga. Ele esteve no último Mundial, em Kazan, depois de herdar a vaga de Michael Phelps. Pego dirigindo bêbado, Phelps foi cortado da seleção, abrindo espaço para a convocação de Tim. Lá, ele chegou à semifinal na prova individual e nadou a eliminatória do revezamento. Após sua prova nos Trials, ele também falou sobre estar de cabeça erguida mesmo sem as coisas acontecerem como queria. Disse que não está aposentado e falou sobre sua namorada, Katie Meili, que conseguiu vaga no 100 peito.

Quatro dias antes, ele havia postado um vídeo em que os dois se encontram logo após a classificação de Katie, que irá para sua primeira Olimpíada. Um casal, o mesmo objetivo, e duas situações bem diferentes após a seletiva.. 

Madison Kennedy tinha sua última e principal chance de classificação no último dia, na prova de 50 livre. A nadadora de 28 anos chegou aos Trials com o melhor tempo do ano entre as americanas na prova. Terminou em terceiro, atrás de duas nadadoras de 19 anos. Há 4 anos, havia ficado em quinto na mesma prova. Ela fez um post maduro e sincero no instagram, falando que “Cada pessoa no Team USA leva um pedaço das pessoas de quem eles ganharam para chegar lá – estamos todo com vocês”. Perguntada se ia parar de nadar, disse que nada mudava. “Enquanto meus braços e pernas não cairem, eu continuo nadando”.

Quem sofre não é apenas quem fica em terceiro, quarto ou a poucos centésimos da vaga. O sonho olímpico muitas vezes está também em quem sequer chegou à final. É o caso de Eugene Godsoe, por exemplo. Ele foi quinto colocado na seletiva de 2012 e, dessa vez, parou ainda nas semifinais do 100 costas, além de terminar em 23º no 100 borboleta. Aos 28 anos, não chegou a nenhuma final na seletiva e anunciou sua aposentadoria da natação no Facebook, falando entre outras coisas que sempre sonhou em nadar uma Olimpíada mas parece que isso permanecerá assim, um sonho. Um depoimento sóbrio, maduro e lindo.

Vale a pena ler:

 

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“Hoje eu não entrei no time olímpico americano. Competir nas Olimpíadas sempre foi meu sonho, mas parece que isso permanecerá assim, um sonho.

Eu podia ter me aposentado em 2012 quando não me classifiquei. Minha decisão de continuar por mais 4 anos me levou a coisas incríveis e memórias que vou lembrar para sempre. Medalhas de campeonatos Mundiais, recordes mundiais e americanos, viajar o mundo. Fazer o que eu amo no estágio mais alto. Bom… quase o mais alto. [Godsoe foi prata no 50 borboleta no Mundial de Barcelona e ganhou três medalhas no Mundial de curta de 2014]

Talvez eu fique com o coração um pouco partido para o resto da vida, sabendo que nunca cheguei nas Olimpíadas, mas tudo bem. A dor vai sempre me lembrar que foi um sonho que valeu ser perseguido. Algo que nunca vou me arrepender de lutar.

Espero sempre pensar e sonhar como aquele garotinho de Southeast Swim Club, imaginando o quão bom ele seria. Agora, fora da piscina.

Obrigada por me apoiarem e acreditarem em mim. Eu acredito em mim. Sem arrependimentos. Go USA”.

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2 comentários em "A dor e a delícia da seletiva olímpica"

  1. Rafael Oliveira disse:

    Deixar de fora nadadores como: Grevers, Clary, McBroom, Hardy, Leverenz e Lawrence, que conseguiriam fácil a vaga olímpica em qualquer outro país, coloca o modelo americano de esporte acima do resto do mundo e tomara que a natação brasileira se inspire nele.

  2. Renato disse:

    Linda materia….emociona principalmente que tambem vive este sonho de representar sua nação no esporte paraolímpico. Grande abraço

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