Especial: Volta ao mundo com Poliana Okimoto (Capítulo 2)

24 de março de 2014

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Por Beatriz Nantes e Carolina Moncorvo

Veja aqui o Capítulo 1

E foi aí que o segundo capítulo da carreira de Poliana Okimoto começou. Em 2006. Quando começou a disputar o Circuito Brasileiro para se adaptar ao temido mar. No começo foi sofrido, o medo de tubarão ainda prevalecia. Quando nadava em rio, o medo era acrescido para capivaras e qualquer outro bicho que viesse à sua mente.

Mas nenhum animal impediu o inevitável. Poliana se classificou para seu primeiro Mundial no final de 2006. O feito já era dado como inimaginável para a nadadora. Chegando em Nápoles, onde o Brasil “era tido como a Bósnia é vista no futebol”, Poliana surpreendeu as adversárias e a si própria, levando a prata nos 5km. Primeira medalha feminina em Mundiais de esportes aquáticos. Grandes feitos chamam grandes responsabilidades. Não que Poliana não esteja acostumada, mas a responsabilidade que ganhou para depois disputar a prova dos 10km veio com um brinde: um tímpano perfurado. Calma, explicamos: após levar a medalha nos 5km, a brasileira ficou visada pelas adversárias. Uma delas, não muito “fair-player”, seguiu a brasileira na largada para onde ela ia. Nas primeiras braçadas, Poliana levou uma cotovelada.

Com muita dor, continuou na prova. Nadou 10km enjoada, tonta, mas não parou. Chegou a ficar lá atrás no começo, mas foi se recuperando a cada volta. Levou mais uma vez a prata. Ao sair da água, Cintra reparou que a nadadora não estava bem, ela mal conseguia ficar de pé. “O Ricardo me secou e reparou que estava saindo muito pus do meu ouvido, a ponto de pingar!”. Tímpano perfurado.

Voltou para casa com duas medalhas de seu primeiro Mundial. Mas o “acidente” custou 3 meses de férias forçadas, em sua melhor forma. Mesmo assim, o ouvido não melhorou e Poliana foi obrigada a operar, ficando mais um mês afastada. Isso já em 2007, ano de Pan-americano.

Com apenas seis meses de treino pós-cirurgia, Poliana classificou-se para o Pan e lá no Rio conquistou mais uma prata. Duas medalhas de Mundial e mais uma no Pan. Quem imaginaria? Aquela nadadora prodígio, que teve sua ascensão interrompida e estava prestes a desistir do esporte, no lugar que sempre lhe pertenceu: entre as melhores do mundo. Mas isso não era nem o começo. Mesmo porque, o medo de tubarão ainda estava (muito) aflorado.

Mas Cintra teve outra ideia que poderia ajudar sua pupila: treinar com a equipe do Triathlon e Maratonas Aquáticas de Santos. No mar. Eles tinham essa facilidade, já que moravam na cidade caiçara. “Nos primeiros treinos, meu coração batia que nem em série de A3, antes mesmo de eu entrar na água”. Com o tempo, o medo foi diminuindo. Ainda não é nulo, é verdade, mas chegou-se ao ponto de não atrapalha-la mais. “Durante a prova não lembro nada. Mas se for pra treinar, principalmente sozinha, eu ainda tenho medo.”

E os treinamentos seguiram até Pequim. Primeira Olimpíada. O sonho de qualquer atleta. A classificação já foi uma vitória em si, com critérios complicados que exigem a nadadora ficar entre as 10 primeiras na seletiva, ou rua. Tanto Poliana como Ana Marcela conseguiram o feito, e ambas carimbaram o passaporte.

“Foi uma Olimpíada inesquecível, foi lindo. Mas acho que faltou um pouco de experiência para mim na prova”. Hoje é fácil ver, pois essa experiência já bateu em sua porta. Mas no dia, a nadadora fez o melhor que pôde, o que não foi o suficiente para uma medalha. Terminou em sétimo. Ok, hora de pensar em mais um ciclo olímpico.

Esse ciclo não poderia começar melhor. Em 2009, conquistou a medalha de bronze no Mundial de Roma nos 5km. E ainda terminou o ano como melhor nadadora do ano, conquistando o Circuito da Copa do Mundo. Assim seguiu o ciclo, constante e coerente. O apoio para as Maratonas Aquáticas aumentou, assim como a visibilidade no esporte. Tudo a favor, tudo correndo dentro do planejado. Em 2011, mais uma medalha no Pan, novamente uma prata, em Guadalajara.

Hora de aprimorar ainda mais os treinos. O casal mudou-se para o Rio. Longe de casa, longe da família, seguiram os treinamentos na excelente estrutura do Maria Lenk. Apesar dos sacrifícios, o foco era Londres, o foco era ouro. Nada menos que isso.

Em paralelo, Poliana comprovava a ótima fase, melhorando seus tempos também na piscina. Competia os Absolutos e continuava se destacando, ao mesmo tempo em que viajava ao redor do mundo, liderando diversas provas internacionais. Mais uma vez, tudo indo bem.

paises poliana

Na seletiva para Londres, realizada em Shangai em 2011, a mesma dificuldade de 2008: chegar entre as 10, ou fora. Terminar em sexto foi um alívio. Fora do pódio, mas com classificação garantida. Se em Pequim faltava experiência, em Londres ela já tinha de sobra. E, além disso, estava extremamente preparada. Vinha treinando e competindo como nunca. Chegava sua hora.

Maratonas Aquáticas são bem diferentes de piscina. Na piscina, o adversário é basicamente você mesmo. Claro que existem pessoas do seu lado, mas os fatores externos não interferem tanto. Se você nadar mais rápido, vai chegar na frente. Natação é matemática, maratonas não. No mar, você tem pessoas no seu pé, do seu lado, na sua frente. Você tem maré, você tem puxão de pé (mesmo que proibido), você tem cotovelada. Na natação, não existe risco de tímpano perfurado.

Mas nenhum desses fatores atrapalhou Poliana dessa vez. Seu adversário foi muito mais cruel que todos eles. A água fria. A temperatura do mar está fora do controle humano, é algo inevitável. Poliana estava pronta para o frio, treinou em mar frio, engordou 2 quilos para aumentar sua resistência térmica. Mas seus 12% de gordura ainda não eram suficientes para controlar os 16ºC do Hyde Park. A água estava fria para todo mundo, mas ainda mais fria para a brasileira.

Ela resolveu sair da prova. Para a mídia, um prato cheio. Mais cheio do que se tivesse ganhado o ouro olímpico, talvez. Amarelona? Sério mesmo? Fraca? A mesma nadadora que disputou 10km com o tímpano perfurado, está chamando de fraca? Se há uma coisa nessa vida que não se pode ter dúvida é da garra de Poliana. Todos nós queríamos o ouro da brasileira, mas não mais do que ela própria.

Mas é por isso que só acaba quando termina, não é mesmo? Apesar da história ainda estar longe de acabar, no ano seguinte a redenção veio inversamente proporcional.  Do pior momento, para o melhor momento da carreira. Mundial de Barcelona: prata nos 5km, ouro nos 10km, bronze no revezamento dos 5km e troféu de melhor equipe do campeonato. Isso depois de pensar em desistir mais uma vez. Quer lição melhor que essa? Superação deveria ser seu sobrenome. E olha que no caminho Londres>Barcelona, ainda teve um treininho de 200×100 para fazer mais história. A cada 1’25’’, só pra constar. Só para fazer aquele ouro ter um valor ainda maior.

Os próximos capítulos ainda não estão escritos. Talvez por Deus, para que os que acreditam. Mas é o que dizem: “Não sei quanto ao destino, mas a jornada está sendo fantástica”.

FIM.

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