Entrevista: Allan do Carmo

30 de março de 2015

Entrevista com Bia Nantes1 comentário em Entrevista: Allan do Carmo

Campeão da Copa do Mundo de 2014, medalhista do Mundial de Barcelona na prova por equipes e olímpico aos 19 anos, Allan do Carmo vive um dos melhores momento da carreira. Com a estrutura do Projeto Medalha e depois de amadurecer, o baiano (que sempre treinou no estado) busca vaga para as Olimpíadas do Rio. Allan concedeu essa entrevista exclusiva à Swim Brasil, enquanto fazia massagem após o treino de sábado, e falou sobre a carreira, os momentos difíceis e os mais marcantes.

Como é sua rotina de treinos?
Eu treino 6 dias por semana, são 11 sessões. Também faço, fora da água, fisioterapia desportiva e trabalho de extensor, abdominal, para manutenção.

Tem alguma outra atividade ou hoje sua vida está 100% focada na natação?
Hoje estou focado na natação, é tudo em função disso. Faço psicólogo, nutricionista, massagem. É parte do Projeto Medalha, tenho essa estrutura, além do treinador, que é o Arapiraca, e o médico, Doutor Blanco.

Desde quando você tem essa estrutura e como isso influenciou no seu bom ano de 2014?
Comecei em 2013. O bom de ter essa estrutura é a segurança maior. Você chegar de viagem e ter as coisas funcionando. Outra coisa boa é o contato maior entre eles, até pelos relatórios que eles tem que passar para o Projeto. Cada um vê o que o outro está fazendo, isso ajuda no resultado final.

Ano passado você ganhou a Copa do Mundo, qual o principal objetivo para 2015?
Primeiro é classificar para Kazan, a seletiva vai ser dia 2 de maio no México, e o principal é a classificação olímpica em Kazan.

A prova de 10km é a única olímpica da maratona, então imagino que seja seu foco. É sua preferida também?
É a que mais gosto hoje. A de 25 eu nadei bem nos últimos dois Mundiais, fiquei em 6o em Shangai e 5o em Barcelona, mas eu gosto mais do 10km.

No 10km você também foi bem em Barcelona….
Sim, fui 7o em Barcelona. Agora é manter isso para manter minha participação. Desde 2013, depois do Mundial, venho nadando muito bem essas provas, mais regular, sempre subindo no pódio. Eu subi 5 vezes no pódio seguido agora, algo que nunca tinha conseguido.

Como foi o treinamento em altitude?
Foi em Colorado, ficamos do dia 11 de fevereiro até 3 de março. Foi muito bom para nós, a estrutura do Centro de Treinamento era bem legal. Alimentação muito boa e balanceada, todos equipamentos funcionando, todos os horários funcionavam. Essa foi minha 10a altitude. Sempre me dei bem com esse tipo de treino, fiz pela primeira vez em 2008 quando classifiquei para minha primeira Olimpíada, e desde então acreditamos nessa filosofia e fazemos pelo menos uma por ano.

Como bom fundista acredito que você goste de treinar… é verdade? Você sempre foi fundista?
Gosto de treinar e sim, sempre nadei fundo. Sempre gostei de maratona e nunca nadei muito piscina. Meu primeiro Maria Lenk foi dois anos atrás.. tenho 25 anos e nadei dois Maria Lenks só! Brasileiro de categoria só uma vez, quando era bem mais novo, em Belém. Nadei muito Norte e Nordeste, mas competição nacional foram poucas. Eu sempre me dediquei mais às águas abertas. Entrei novo na seleção, com 15 anos na juvenil e 16 na absoluta, em 2006, junto com a Poliana e Ana Marcela, e desde então estamos juntos. De lá não saí mais, estive nos Mundiais de Maratonas Aquáticas (2006, em Napoli, que foi a primeira edição, e 2010),Mundial de Desportos Aquáticos (2007, 2008, 2011 e 2013), PAN (2007, 2011), Olimpíadas (2008) e 2012 treinei para a seletiva olímpica mas acabei ficando fora.

O que mudou na Maratona desde que você começou na seleção, e em você?
Mudou bastante coisa. Em 2006 já existiam as etapas da Copa do Mundo e a gente não fazia. Em 2007 escolhemos duas, em 2008 mais no final. A partir de 2009 passamos a fazer o Circuito, e desde 2013 começou essa estrutura do Projeto Medalha. A maratona aquática cresceu bastante. Da minha parte eu tive uma evolução e amadurecimento grande. Aprender a perder, ver o que é bom e ruim, ter prioridades, como alimentação e parte física, sair do treino e já se alimentar por exemplo. E também amadurecimento, ainda mais convivendo com Poliana e Ana Marcela que são duas atletas dedicadíssimas. De treinar eu sempre gostei, nunca tive problema de indisciplina, de querer ir para festa. Mudou mais o amadurecimento.

Campeão da Copa do Mundo 2014, ao lado da campeã feminina Ana Marcela

Campeão da Copa do Mundo 2014, ao lado da campeã feminina Ana Marcela

Como é sua relação com o Arapiraca, que é seu companheiro de treino e também seu adversário?
Temos um respeito grande, a gente treina todo dia junto. A gente sabe quando um está melhor, um puxa o outro para o outro. Sempre crescemos juntos. E competição é competição…. já venci, ele já venceu, e a amizade continua igual.

Como é seu treino, muito volume?
Na média dá uns 80km por semana. Ele dá bastante volume sim, mas diminuiu um pouco hoje. Temos períodos, como o atual, que são mais de qualidade, potência. Hoje nosso treino é muito variado. Tem volume, que é necessário, mas também tem trabalho de potência, de força, explosão para o final de prova. Tem dias que nadamos 15, 16km, outros que nadamos só 10km somando as duas sessões. É muito mais trabalhado do que antigamente, acho que temos um amadurecimento que ele também teve.

Por curiosidade… você só nada crawl ou tem algo de estilo?
Sempre nadamos estilo, para poder variar grupo muscular.. mas eu não nado bem nenhum. Quando ele coloca na série eu falo que não gosto muito!

Seu treino é em mar ou piscina?
Treino em piscina. Temos alguns trabalhos no mar, mas principalmente no início da temporada, porque hoje tem um grande volume de competição.

Você tem medalha de PAN, de Mundial e ganhou a Copa do Mundo. O que falta conquistar?
Hoje eu tenho dois desejos. Um é conquistar uma medalha individual em um Campeonato Mundial. Eu ganhei por equipes em Barcelona. O outro é tentar conquistar uma medalha olímpica. A gente tem uma oportunidade agora no Brasil. É um desejo meu, que acho que é de qualquer atleta. Ainda mais no seu país. 

Sobre competir em casa, você passou por isso em 2007 no PAN, quando foi bronze com 17 anos. O que lembra dessa competição?
Eu lembro bastante do PAN, foi uma emoção muito grande. Eu não era favorito para medalha, mas meu treinador, Rogério Arapiraca, e meus pais, acreditavam muito em mim, mais até do que eu. A maratona foi a prova de abertura e foi gratuita  na Praia de Copacabana. A primeira medalha do Brasil no PAN foi da Poliana e a segunda foi a minha. Quando a gente chegou, a praia estava lotada, aquilo foi uma emoção muito grande. Passar pela galera na chegada, me carregaram, jogando pra cima, gritando meu nome. Nunca imaginei aquilo. Foi um momento que não esqueço nunca, toda minha família lá, meus pais, meus tios, é um momento que eu não esqueço. Se pudesse voltar para trás, voltaria lá para viver de novo. 

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Tem algum outro desses momentos que te marcaram até hoje?
Esse foi muito marcante, e teve também Barcelona. Foram três provas marcantes. O 10km eu nunca tinha chegado entre os 10 primeiros, cheguei em 7o. Foi muito decisivo, passei a acreditar mais em mim. Depois teve os 5 km por equipe. Eles queriam me poupar para os 25km mas acabei nadando e foi muito competitivo, ganhamos uma medalha. Acabei caindo muito mais confiante no 25km. E outra prova que pra mim marcou muito foi na China ano passado. Eu estava para ganhar o titulo do Circuito e faltam 2 etapas. Estava disputando com o Thomas Lurz, da Alemanha, que é o melhor da história da maratona. Eu fui muito tenso para lá, querendo nadar logo, sem saber como ia ser. Acabei vencendo e foi uma prova que quando cheguei, nem eu acreditei que tinha nadado tudo aquilo. Ficou marcado para mim.

Mais algum momento que você destacaria?
Acho que tem que mencionar a parte negativa também. Foi em 2010 quando tivemos o falecimento do Fran Crippen. Naquele dia a gente tinha que completar a prova para fazer jus a premiação em dinheiro. Eu cheguei muito mal, fui para o hospital, e foi muito duro porque eu quase embarquei junto com ele. Estava muito mal mesmo. E foi um dia triste. Eu fiquei sabendo no hospital, sabíamos que ele tinha desaparecido e chegou a notícia da dirigente brasileira que já tinham encontrado ele morto, ela avisou para mim e para duas americanas que estavam juntos. Elas choraram muito. É uma coisa que te marca.

Chegou a passar pela sua cabeça parar de nadar ou alguma mudança depois disso?
Não pensei em parar, mas logo depois entrei de férias. É uma coisa que te marca. A sensação de fraqueza… nos treinos, sempre que está muito pesado e sinto isso eu já aviso. Se tenho algum problema de desidratação também.

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Um comentário em "Entrevista: Allan do Carmo"

  1. Pedro disse:

    Bacana esse conteudo !

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