Entrevista: Daiene Dias

13 de outubro de 2014

Entrevista com Bia Nantes1 comentário em Entrevista: Daiene Dias

Aos 25 anos, Daiene Dias irá ao seu primeiro Mundial absoluto no final do ano. Medalhista no Pan-Americano de 2007, Daiene ficou sabendo da convocação para o Mundial pelo site da CBDA, depois de empatar em segundo lugar na prova de 100 borboleta, no Finkel. A boa temporada, depois de passar a treinar com Rodrigo Nascimento Miranda, “reacendeu uma chama que estava apagadinha”, nas palavras da nadadora. Daiene falou sobre os altos e baixos na natação, o curto tempo em que trocou a modalidade pelo triathlon e o sonho de estar nas Olimpíadas.

Beatriz Nantes: Há duas semanas você fez 59’”39 no 100 borbo em uma competição no Espírito Santo, na longa. Foi seu melhor tempo desde a época dos trajes. Você esperava isso?
Daiene Dias: Foi meu melhor tempo sim, me surpreendi pela fase do treinamento. Gostei muito do resultado e deu para acreditar mais que dá para brigar de igual para igual com as meninas.

 O foco agora é para o Mundial, na curta ou para o Open, que vai ser seletiva para Mundial e PAN?
O principal objetivo é o Mundial, que vai ser o meu primeiro no absoluto. Quero brigar para entrar na final. Também quero nadar bem o Open, tentar segurar o polimento. Vou chegar um pouco mais forte no Mundial, e depois tenho até o Open para descansar.

Melhora de tempo na longa e classificação para o Mundial. Está sendo um grande ano para você.
Está mesmo. Para mim, sinto que reacendeu uma luz que estava bem apagadinha. Eu estava focando mais para o 200 borboleta, não para o 100. Treinamos para conseguir o 2’08 que era o índice, porque nos Jogos Regionais, em São Paulo, eu tinha feito 2’11 e estava bem pesada. Acreditava que dava para chegar no 2’08. O índice do 100 a gente achava que era muito forte, eu nadei para entrar no clima da competição. Fiz 58”0 na eliminatória, que já foi 1 segundo melhor que o meu antigo melhor tempo. Eu vi que dava, e na final acabou saindo [Daiene fez 57”64, empatando com Daynara de Paula].

Convocação para o Mundial de Curta, primeira seleção depois desde 2011

Convocação para o Mundial de Curta, primeira seleção depois desde 2011

A Etiene saiu do 100 borboleta? O que você vai nadar lá?
A princípio o 100 borboleta, não sei se vou nadar o 50 e o 200.

Como você soube que tinha sido convocada?
Foi pelo site da CBDA mesmo. Eu entrava no site todos os dias, para ver se saia algo. Fiquei sabendo pelo boletim.  

Você disse que focou no 200, e no final foi uma prova que você passou muito forte e cansou no final. O que aconteceu? 
Eu foquei pro 200, e quando o 100 saiu muito bem,  achei que dava mesmo. Eu fiz passagem certa até o 150, mas a frequência foi totalmente errada. Eu podia ter passado para aquele tempo, mas com frequência diferente. Fui com muita sede ao pote, a prova saiu errada. Mas é porque eu não estava ali para ganhar a prova, estava para conseguir o índice e me garantir no Mundial. Isso me fez perder a cabeça.

Por que você diz que esse ano reascendeu uma luz que estava apagada?
Muita gente falava pra mim que já tinha dado, que eu já tinha chegado no limite. Mas eu sempre acreditei que não tinha chegado ainda. Que podia brigar. Para mim, é muito especial estar representando a seleção de novo.

O que te fazia acreditar?
Eu acho que a minha vontade mesmo. Eu tinha muita vontade de voltar a sorrir, de gostar do que eu estava fazendo. Tinha perdido um pouco essa alegria de treinar, e nesse ano isso voltou. Fez muita diferença estar me divertindo e buscando meus objetivos da forma mais natural. E o que me motivou mesmo foi eu querer muito nadar bem.

Com quem você está treinando?
Estou treinando com o Rodrigo Miranda, mais conhecido como Bob, no Espírito Santo. É uma equipe do estado, com atletas jovens mais o Alan Vitória, que também representa o Botafogo. No começo do ano, eu fiquei 5 meses no Rio de Janeiro, treinando no Botafogo. Foi a primeira vez que saí do Espírito Santo, não me adaptei muito bem. Sou muito apegada à minha família, isso fez muita diferença. Mas foi uma experiência boa, de morar sozinha. Aprendi muita coisa mas resolvi voltar, e deu muito certo.  Desde 2010 eu estava treinando sozinha, e isso sempre foi muito complicado e foi me tirando o gosto de treinar. É bom treinar com a equipe, todo mundo se motiva.

Como é sua rotina, faz algo além da natação? 
Esse ano eu estou fazendo algumas matérias à distância na faculdade. Estou focando bastante na natação esse ano.

Você teve uma passagem pelo triathlon também, né? Como foi isso?
No final de 2009 pra 2010, quando voltei de férias, eu recebi a notícia de que meu clube não queria mais esporte competitivo. Não ia ter mais como treinar lá. Fiquei meio perdida. Foi na mesma época que o presidente da CBTri [Confederação Brasileira de Triathlon] me fez um convite. Ele viu meu perfil e achava que eu ia me dar bem na modalidade. Como eu estava meio perdida, acabei aceitando. Mas eu continuei competindo algumas provas de natação também.

Daiene teve rápida passagem pelo triathlon

Daiene teve rápida passagem pelo triathlon

E o que te trouxe de volta só para a natação?
Foi um período bem curto que eu fiquei no triathlon. Eu achei que não estava mais gostando de natação, mas vi que não conseguia viver sem ela.

Você gosta de treinar?
Gosto bastante. Gosto de sentir aquela dor, de me superar a cada treino.

Você se destacava muito nas categorias de base, chegou na seleção absoluta com 16 anos. Como foi sua transição para o absoluto?
Em 2005 eu nadei super bem, consegui a vaga para o Sulamericano absoluto de 2006, foi minha primeira seleção absoluta. Até ai eu nadei bem, lá ainda ganhei duas medalhas. Mas depois foi um ano com muitas competições: Copa Latina, Mundial Junior, Brasileiro de categoria, absoluto. Eu não conseguia dar continuidade nos treinos. Acabei desanimando em 2006. E depois em 2007 foi um dos meus melhores anos. Foi o primeiro ano de Maria Lenk, depois de mudar o nome do Troféu Brasil, e eu não estava nem cotada para ficar entre as duas no 100 borboleta. Acabei batendo o recorde sul-americano e conseguindo a vaga. Foi  uma surpresa. Depois, ganhei a medalha de bronze no PAN.

Antes de você ser bronze no 200 borboleta, você ficou em quarto no 100, depois de ter batido o recorde sul-americano na eliminatória. Como foi superar isso para conseguir a medalha?
Foi meio difícil… o 100 era a prova que eu sabia que tinha chances de ganhar medalha. Olhando o balizamento do 200, eu não tinha chance nenhuma, só de entrar na final. Então eu depositei tudo no 100, que é também a prova que eu mais gosto. Nadei forte na eliminatória, semifinal, fui melhorando. Quando cheguei na final, eu senti aquela pressão, o estádio lotado. Sempre fui de um clube em que viajava eu e mais dois, nunca tive torcida. Entrei e vi todo mundo torcendo para mim, senti aquela final. Depois vi a minha chance de ganhar medalha ir para o espaço. Chorei muito, achava que tinha acabado a competição, queria ir embora. Muita gente veio me dar apoio. No outro dia parece que nada tinha acontecido. Tinha o 200 borboleta e o revezamento. Conseguir ir tranquila para o 200 como achava que não tinha tanta chance. Acabou saindo e foi uma surpresa.

Comemoração após a medalha no PAN

Comemoração após a medalha no PAN

Ano que vem tem PAN de novo. Além de 2007, você também esteve no PAN de 2011, que foi sua última seleção. Qual a importância desse competição para você?
O Pan-Americano representa muito para mim. Em 2007 foi quando eu comecei a levar a natação mais “a sério”. Quero muito conseguir de novo, seria o meu terceiro PAN. E quero voltar a representar bem o Brasil. Ano que vem é muito importante para brigar por 2016, que está logo ali. É ano de Mundial de longa também. Ainda não sei quando vou encerrar minha carreira, mas quero representar o Brasil nas Olimpíadas. É o sonho de qualquer atleta, eu nunca fui e quero muito.

Quais os melhores momentos que você teve na natação? 
O que vem na minha cabeça é 2007, a seletiva do Pan e o Pan. E agora o 100 borboleta no Finkel, que fez reacender minha vontade de estar no topo. Foi bem marcante para mim esse Finkel. Meu técnico me ajudou a voltar com força e eu costumo dizer que ele é meu ponto de equilíbrio. Para ele, não tem tempo ruim. Ele pensa muito no hoje, diferente de mim. Por isso é meu equilíbrio e acho que por isso que está dando certo. Agradeço muito a ele.  

Bob é o técnico de Daiene desde maio

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