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Entrevista: Diogo Villarinho

26 de outubro de 2015

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Diogo Villarinho

Se você está esperando uma entrevista voltada para a superação do câncer de Diogo Villarinho, está no lugar errado. O assunto é sim muito importante, mas além da sua tranquilidade em aborda-lo, há muito mais a ser dito sobre o fundista. E foi o que aconteceu nessa entrevista realizada na semana passada, um dia depois do nadador voltar da etapa de Hong Kong da Copa do Mundo. Lá, ele terminou em 4o lugar, depois de apenas duas semanas de treino. Ele havia parado para se tratar de um câncer na tireóide, diagnosticado no início do ano. Na conversa, ele falou sobre o início de carreira de nadador, nadando pelo Zitti, em Goiás, a ida para o Minas Tênis Clube, suas primeiras convocações para a seleção, o desejo de estar no Rio-2016 e foco na piscina, agora que não há mais chance de conseguir vaga nas maratonas aquáticas: “A cabeça está boa e eu quero ir para as Olimpíadas de qualquer jeito”.

Como avalia essa última etapa da Copa do Mundo?
Acho que foi muito boa. Não esperava ficar entre os 10 primeiros, muito menos em 4o. Fui para a China mais pra completar a prova e entrar no ranking final. Mas depois da primeira prova, comecei a acreditar um pouco mais, mesmo voltando só de duas semanas de treino, consegui ir para cima. Fui super bem na segunda prova, gostei.

Qual o foco a partir de agora?
O foco vai ser no 1500 mesmo. Não vou mais nadar prova de maratona até o fim do ano, pretendo chegar o mais próximo do índice olímpico no Open, mas o planejamento foi feito mais para o Maria Lenk.

Você nadou essa prova no Finkel e a gente lembra que você saiu bem forte, na frente, e acabou cansando um pouco. Sua estratégia é sempre sair forte ou você estava testando uma estratégia nova?
Ali no Finkel eu estava bem cansado depois do Mundial, então nadei mais para marcar ponto para o Minas, que era bem  importante na competição. Eu costumo segurar o mesmo ritmo até o final, quando fiz 15’30, que é meu melhor tempo, foi assim. Mas ali em São Paulo eu estava mais tentando fazer um milagre mesmo. Não estava me sentindo bem, acho que foi até bom sair forte, se tivesse saído mais devagar ia cansar igual e sair um tempo pior.

Por que você começou a nadar?
Na verdade eu comecei a nadar na barriga da minha mãe. Ela e meu pai eram professores de educação física que mexiam com natação, ela entrou em trabalho de parto enquanto estava dando uma aula. Comecei cedo, lembro que quando era mais novo às vezes eu saia de uma aula e já entrava em outra, fazia quatro no mesmo dia. Sempre fui fundista, gostava de nadar prova longa desde o petiz, 400, 800, depois o 1500. Com 11 anos eu comecei a fazer Maratonas aquáticas, até hoje é minha preferência. Mas como não consegui a vaga olímpica, vou focar no 1500.

Como foi essa prova quando você tinha 11 anos?
Meu técnico na época era meu pai. Tinha um pessoal que fazia triathlon e ás vezes eu ajudava. Comecei a nadar no lago, e com 11 anos fui para Brasília e nade uma maratona.

Procuramos seus resultados em Brasileiros nas categorias de base e vimos que você sempre ficava entre os 8, mas não achamos nenhum pódio até o Júnior, quando você foi campeão brasileiro. Como era sua relação com a natação quando você tinha essa idade?
Quando era infantil eu cheguei a ficar em quarto em um Brasileiro, depois disso ficava sempre em 6o, 7o, ai fui campeão quando virei Junior e já estava o Minas. Nadar sempre foi meu esporte e eu sempre levei a sério, não era só hobby. A rotina é muito estressante mas desde pequeno eu era apaixonado.

Como foi essa ida para o Minas?
Eu tinha classificado para o Sulamericano Juvenil de Maratonas Aquáticas na prova de 5km. O Zitti, meu técnico, começou a procurar um clube grande para mim, para que eu pudesse participar de competições maiores e ter mais atletas treinando junto. Recebi uma mensagem do [Fernando] Vanzella, do Minas, e não pensei duas vezes, tinha até família em Belo Horizonte. No outro dia já tinha passagem. Cheguei no clube e lembro que olhei tudo e falei: “Vou ficar, pode treinar agora?”. Cheguei lá de sunga e já fui treinar.

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Boletim da primeira convocação para seleção brasileira

Sua primeira classificação para uma seleção, então, foi pelo Zitti. Lá você tinha uma equipe que treinava junto com você? Seu pai sempre te deu treino?
Era eu, meu pai, e o Zitti. Eu treinava com os dois. Na época eu nadava mais ou menos 5 mil metros, dobrava uma ou duas vezes por semana só. Com três meses de treino no Minas eu já melhorei muito na minha prova, passei a ter o melhor tempo do Brasil. Eu treinava com o Reinaldo, que era o campeão brasileiro da minha prova, e comecei a acreditar um pouco mais. Acho que o que mais ganhei com a vinda para o Minas naquela época foi confiança, acreditar que eu podia fazer melhor, a base do Zitti eu já tinha.

E como foi essa travessia onde você conseguiu a classificação?
Foi um Brasileiro de águas abertas geral, fiquei em 4o mas classifiquei pela idade. Lembro que na prova de 10km eu fiquei de fora e fiquei super triste. No 5k consegui classificar, e ai já fui para o Minas com a classificação.

Como foi essa competição?
Foi no Peru e eu não fiquei nervoso, fiquei bem animado na verdade. Tudo é ótimo na primeira… Na verdade nadei melhor do que esperava, fiquei em segundo. Depois dali um mês depois peguei seleção para a Copa do Mundo absoluto, eles levaram a equipe B e eu fui. No outro ano fui para o Mundial Junior.

Nesse Mundial Junior você conseguiu a melhor posição do Brasil, ficou em 5o. Já esperava ir bem?
Eu esperava muito ir para esse Mundial. Já estava nadando bem, era favorito para conseguir a vaga na minha idade. Fiz uma preparação bem bacana e fomos para o Canadá. Mas lá eu não sabia o que esperar, então só tentei ficar na frente o tempo todo. Acabou que alguns escaparam, fomos juntos, e fiquei disputando com o americano que foi campeão Mundial esse ano [Jordan Wilimovsky]. Fiquei junto com ele, mas no final ele e mais um me passaram e eu fiquei em 5o. Então eu perdi a medalha, fiquei triste, tinha treinado pra caramba. O legal é que muitos que estavam lá disputaram a vaga olímpica esse ano. Mas esse Mundial foi um divisor de água para mim. Comecei a ter mais apoio e a focar mais na maratona depois dele.

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Resultado do 1o Mundial de Maratonas Aquáticas, prova de 7,5km. Wilimovsky foi campeão Mundial em Kazan esse ano, prova de 10km

Um ano depois, você se classificou para o Mundial de Barcelona, só dois anos depois de ter chegado à sua primeira seleção de categoria. Isso já estava na sua cabeça, ou foi uma surpresa?
Não esperava muito. Na seletiva eu era o 4o ou 5o brasileiro. Lembro que na última volta eu estava em 4o e o Dudu falou: “vamos que dá”. Consegui encaixar posição, faltando duas voltas vi o Arapiraca, que era o 2o, e tentei grudar no Allan o máximo que podia. Acabei chegando no pé dele e classifiquei. Barcelona foi um Mundial especial para o Brasil, o país conseguiu várias medalhas, saiu como campeão. Mas para mim foi um Mundial de aprendizado, apanhei bastante, não tinha muita noção. Mundial é totalmente diferente. Eu estava bem preparado mas a prova foi mal nadada. Depois disso, comecei a ser convocado para Copa do Mundo e mostrei para o Dudu como era importante ir para ir aprendendo as malícias na prova. Evolui muito.

E esse ano em Kazan? Você chegou a virar em 8o na metade da prova, e terminou em 21o lugar. 
Infelizmente não fiquei entre os 10 e não classifiquei para as Olimpíadas. Foi uma prova muito inteligente como um todo, além de exigir muito da capacidade, foi muito mental e estratégica. Lembro que eu estava muito bem, entre os 10 primeiros, mas infelizmente no final dei uma travada, o que não é comum. Tentei o máximo ficar ali, mas infelizmente não deu e vi a vaga escapar nos últimos 600 metros. Apesar de tudo eu nadei bem, forte.

Claro que não é a mesma coisa, mas no outro dia vocês ficaram em segundo no revezamento, e ainda teve toda aquela confusão de saber a colocação…
Demorou um pouco para anunciar a posição.. mas os técnicos já estavam falando que estávamos em segundo. No final ficamos mesmo, foi bem legal conseguir essa medalha.

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Prata na prova por equipes no Mundial (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

 

No começo do ano você tinha sido diagnosticado com câncer, mas você esperou o Mundial para operar. Como foi?
Fui na médica e ela fez um diagnóstico e pediu para eu fazer um ultrassom. Eu estava muito ocupado com as seletivas, era muita correria. Depois que eu classifiquei para nadar o Mundial, marquei o exame, e descobri o tumor em fevereiro. Fiz exames de rotina e eu queria muito ir para o Mundial, que era a seletiva olímpica. Eu levei bem na boa, treinei o máximo que podia. Não tenho como falar até que ponto afetou. Você sente algumas dores, mas eu estava com a cabeça boa, em nenhum momento fiquei desesperado, com medo, estava muito focado no que eu queria. Nada é por acaso. Apesar de ser uma coisa que atrapalha, tentei fazer com que me ajudasse.

 

 

4º Lugar na Copa do Mundo de Chun’an !Não tenho palavras para expressar a sensação de voltar a nadar, a COMPETIR e ainda me sentir bem!! O MELHOR quarto lugar da minha vida !! Depois de um mês recuperando de uma cirurgia para retirada de um câncer na tireoide, com apenas 3 semana de treinamento uma conquista dessa realmente se torna especial! Hoje é o dia mais feliz da minha vida! Obrigado @sandravillarinho @andrevillarinho @andradegabriel_ @victoriafdemarco @allandocarmo @anamarcela92 @Duducoachseminsta @belarossi e a todos que acreditaram em mim e me deram força nesse momento tão difícil e ao mesmo tempo tão especial!! #correios #issoéentrega #opus #fiatminas #bolsapodio #impossibleisnothing #recuperado

A photo posted by Diogo Andrade Villarinho (@diogovil) on

 

O pessoal da seleção sabia?
Sim, o Dudu sabia, o Allan, todos da seleção. Estavam ali todos juntos, tentando superar junto. Contei para as pessoas que eu era mais próximo. Foi tranquilo, tive muito apoio para fazer meu trabalho.

 

Muda muita coisa agora que o foco sai das maratonas e vai para o 1500?
Não vai mudar muita coisa. O treinamento é o mesmo que fazíamos. A cabeça está boa e eu quero ir para as Olimpíadas de qualquer jeito, independente de ser piscina, estou preparado. Motivação não vai faltar.

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