Entrevista: Etiene Medeiros

20 de outubro de 2014

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Etiene Medeiros

Etiene Medeiros não esconde o objetivo para o Mundial de Doha: subir ao pódio. A meta é ousada: a natação feminina do Brasil ainda não tem uma medalha nesse tipo de competição. Ano passado, Etiene bateu na trave no Mundial de Barcelona, terminando em 4o lugar no 50 costas – posição ingrata, mas que não impediu que Etiene comemorasse o resultado. “Quando cheguei e vi a colocação, pensei: não é possível, 4º… Mas logo pensei: ‘o que eu to falando?  Sou a 4ª do mundo no 50 costas!'”. Natural de Recife, Etiene se mudou para São Paulo e defende o SESI desde 2013. Destaque do último Finkel, a nadadora viaja hoje para o Japão para uma semana de treinamentos e a disputa de uma etapa da Copa do Mundo. Antes de viajar, ela falou com a Swim Brasil sobre sua carreira, a mudança para São Paulo, o desejo de fazer 59” no 100 costas e a importância de agarrar as oportunidades e se divertir nadando.

Beatriz Nantes: Sua participação no Finkel foi uma das melhores atuações de uma nadadora brasileira em uma competição em muito tempo. Você esperava isso e como esse resultado te motiva para o Mundial?
Etiene Medeiros
: Foi realmente uma competição inacreditável, coloquei alguns objetivos e acabei me surpreendendo no decorrer do Finkel. O foco é mesmo Doha, estou bem e me motivei demais depois do Finkel. Estou buscando minha medalha. Sem pressão, eu particularmente não funciono assim. Adrenalina, sentimento de guerra é bom, mas pressão eu não lido bem, preciso nadar me divertindo. Estou me descobrindo mais assim.

Você tem índice para o 50 livre, 100 borboleta, 50 e 100 costas. Já sabe o que vai nadar lá?
Primeiramente a gente vai nadar só o 50 costas, 100 costas e os 50 livre. O 100 borboleta eu abri mão, até por conta da logística de provas [as finais do 50 costas, 100 borbo e 50 livre acontecem na mesma etapa]

Você falou em medalha, em que prova acha que viria?
Acho que estou bem cotada no 50 costas, mas também quero nadar o 100 como se fosse o 50. Acho que tenho potencial de chegar na final do 100 e quem sabe ir atrás de uma medalha. Nas outras provas eu me divirto, mas também estou encarando como provas principais. Não foi fácil chegar em um patamar de querer 3 provas de estilos diferentes, tenho feito trabalho psicológico e me ajuda muito. Às vezes eu brinco que quando vou nadar o costas, tenho um óculos para ele, o nose pad só para ele, no borboleta, é outra prova, outro óculos…

O 24”15 no 50 livre também foi muito expressivo. Pensa nessa prova para 2016?
Eu e o Vanza vemos que temos esse leque de 3 provas olímpicas. Tenho pensado nessas outras provas e sei que posso ter chance de brigar por uma vaga olímpica, mas foco principalmente no costas mesmo. O bom de ter 3 provas é que pode ser que não nade bem uma prova e nade outra. Isso é bom para crescer como atleta. São provas que eu nadava quando era menor, mas não acreditava que podia estar nadando juntas hoje. Amadureci e vejo que é possível.

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Etiene bateu 4 recordes sulamericanos no Finkel

Tanto no 50 livre como no 100 borboleta, você ganhou das especialistas nas provas…
Uma coisa que eu tenho ouvido muito é para não perder as oportunidades. Meu técnico falou, e no PAN Pacific o Thiago [Pereira] e o Bruno [Fratus] falaram também. Não usar o “se” na frente das coisas. “Se tivesse feito aquela série” ou “se tivesse treinado”. As oportunidades vem e tem que agarrar e não deixar ir embora. Foi isso que aconteceu no Finkel. Nadei uma prova e meu técnico mostrou que eu podia fazer uma competição extraordinária. Fui agarrando as oportunidades, o que eu queria alcançar estava sendo maior do que o cansaço. 

Sentimos falta de ver você no 100 livre. Você pensa nessa prova na longa, até para tentar entrar no revezamento?
No Finkel eu tive que sair mais cedo da competição por alguns compromissos, mas se o 4×100 livre tivesse sido antes eu poderia abrir o revezamento e tentar a vaga, pensando naquela energia boa que eu estava. Como não aconteceu, não vamos ficar pensando nisso. Mas acho que posso sim amadurecer e entrar no revezamento.

Voltando um pouco, como você avalia sua participação no PAN Pac? 
Foi meu primeiro Pan Pac, que é uma competição muito diferente de Mundial, de Copa do Mundo. Criei expectativa para o 100 costas, e acabou que sob pressão eu não funciono. Depois da eliminatória, revi algumas coisas e na final consertei, acabei fazendo 1’00”82. Foi difícil porque eu esperava o 59. Mas no decorrer na competição me surpreendi com as outras provas. Foi legal eu ter virado a página, fui para as outras como se fosse do 0, sem jogar muita expectativa. Acabei fazendo meus melhores tempos no 100 borboleta e no 50 livre. Sai de lá muito feliz, parecia que tinha feito 59… Vou criando armas, vi que é possível nadar o borboleta e o crawl. Carreguei a energia que sai de lá e fui pro Finkel, tentei continuar com o pensamento de cair na água sempre querendo fazer o melhor. Outra coisa legal do Pan Pac foi que teve alguns exercícios com a seleção, dos meninos com as meninas, que uniu mais a equipe. Vimos bastante gente do feminino querendo dar resultado e estar entre as melhores. Isso é muito bom.

Quando você diz que não lida bem com pressão, é algo que você mesma coloca ou a pressão dos outros?
A pressão que eu coloco em mim. Estou treinando e pensando no 59, nado o regional para 1’02 e to pensando no 59, indo dormir pensando no 59. É normal gerar essa pressão, ainda mais quando você vê comentários de pessoas perguntando: quando você vai fazer 59? Eu trabalho muito isso com a psicóloga. Sei que tem que ter adrenalina, mas não me pressionar. Minha obrigação é fazer força, e isso eu faço. Adoro competir, sou mil vezes competir a semana inteira do que treinar base.  

Eu ia te perguntar justamente o que falta para sair o 59…
Falta eu me soltar mais. Deixar o vento me levar. Desde pequena sempre nadei bem, e eu noto que a prova sai melhor quando eu estou mais certa de que treinei. Lembro quando treinava de madrugada, chegava no balizamento e pensava: “nossa, não fui naquela festa, treinei de madrugada, agora é o momento”. Hoje eu penso muito assim. Fui naquela viagem do outro lado do mundo, treinei bem, trabalho muito, agora é a hora. Isso é muito da criação do meu pai, de não amarelar, chegar lá e fazer. E para fazer isso eu tenho que estar feliz e concentrada, mas solta, sem pensar em acertar aquela virada. O pessoal fala que eu sou muito paz e amor, escuto música tranquila na competição. A hora de estressar é durante o treino. Na competição tem que estar solta e fazer. 

Você ficou em 4º no Mundial de Barcelona ano passado. Foi seu melhor tempo, o melhor resultado da natação feminina em Mundiais. Mas foi um 4º lugar, que nunca é fácil. Me chamou muita atenção que mesmo assim você comemorou muito logo depois da prova. Qual era o sentimento ali? 
Eu cheguei e meu óculos quebrou ali na final. Rolou o maior stress, mas eu surpreendentemente fiquei tranquila. Tanto tempo que eu queria estar em uma final de Mundial, se precisasse eu ia sem óculos! A Speedo acabou chegando com um óculos novo. Fui para a final pensando na medalha, no 50 tudo pode acontecer. Quando cheguei e vi a colocação, pensei: “não é possível, 4º… “Mas logo pensei: “o que eu to falando?  Sou a 4ª do mundo no 50 costas!”. Vi geral gritando na arquibancada, e aí saiu o sorriso, comemorei. Você tem que estar preparada para colocar objetivo e não acontecer. Foi minha primeira final de Mundial, nunca vou esquecer, e fiquei apaixonada por Barcelona, a cidade é incrível. Queria a medalha, mas isso ainda está guardado. Essa foi a sensação.

Etiene comemora o 4o lugar no Mundial de Barcelona (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

Etiene comemora o 4o lugar no Mundial de Barcelona (Foto: Satiro Sodré/SSPress)

Você falou da criação do seu pai, como é a relação deles com você na natação?
Meus pais sempre se esforçaram muito para que a gente fizesse esporte. Meu irmão também foi nadador, nadava borboleta e foi medalhista brasileiro. Eu fiz outros esportes quando era pequena. Fiz basquete, balé, de chegar a me apresentar em teatro. Meu pai 
também tinha jipe, a gente era super aventureiro. Quando eu tive que escolher um esporte, porque estava começando a ficar sério e não tinha muito horário, escolhi o que me dava mais resultado. Não ganhava no basquete, no balé era destrambelhada e na natação eu ganhava. Fomos para o Sport e depois fui para o Nikita. Mas nunca tive pressão dos meus pais. Eles apoiam muito. Uma coisa que eles falavam é que se o técnico fala que tem que treinar de madrugada, tem que ir. Eu chorava quando acordava 4h da manhã para treinar, mas eles sempre me mostraram que se seguisse um lado ia ter resultado, no outro não. Outra coisa é que eu sempre tive facilidade de ganhar, então não gostava muito de treinar, era famosa por isso. E eles falavam para mim: Eninha, quando você ficar mais velha, vai ficar mais difícil. É incrível, tudo que pai fala, acontece…. Mas todos entendem a vida que eu tenho, torcem, entendem eu não estar em coisas familiares, algo que eu particularmente adoro, sou muito apegada. Sempre peço opinião dos dois, faz diferença ter os pais super perto. Quando tiver filho vou criar do mesmo jeito. 

Por que você saiu de Recife em 2011? Imagino que já deve ter tido propostas antes.
Sim, cheguei a ter proposta antes. Eu nem ficava sabendo, meu pai me falou depois. Eles não deixavam eu sair de casa até por eu ter um técnico bom, que foi o Nikita, médico bom, nutricionista. Não tinha porque sair de Recife. Depois fui amadurecendo a ideia de sair de casa. Queria sair não só pela natação, mas para ter experiência de crescer e lidar com outras coisas. Sai para buscar novos rumos para lidar melhor com a natação. Tem momentos que você tem que sair. O Nikita me ajudou, falou alguns técnicos com quem eu poderia treinar. E eu escrevi uma história na natação que hoje eu tenho abertura com qualquer técnico.  

Você está no SESI desde o início do projeto de alto rendimento, em 2013. Como é treinar lá e como é sua relação com o Vanzella?
O SESI começou só com o feminino, chamando 4 meninas de ponta: Ana Marcela, Jessica Bruin, Daynara e eu. Hoje é o melhor clube do Brasil no feminino,  isso não vem do nada. Teve um projeto, planejamento. A meta é 2016, e acho que vai se prolongar para 2020. O SESI apoia totalmente a gente. Segunda-feira viajamos para o Japão, vamos treinar no Centro de Treinamento Olímpico japonês, depois vamos para a Copa do Mundo. O SESI investe na gente e abraça como se fosse filha, tem tudo lá. A equipe é pequena mas conversamos muito, sobre tudo, não só natação. Todas são diferentes, mas unidas e com objetivo igual, que é estar em 2016. Não tem essa de faltar um dia, não existe isso. Quando você está em um grupo que todo mundo pensa no mesmo objetivo, isso contagia.

Tenho relacionamento muito profissional com o Vanza, mas também é uma coisa meio de pai e mãe. Com meu ex técnico a relação era bem profissional, às vezes cansa. Com o Vanza consigo falar de outros assuntos, pedir opiniões e ele é aberto para falar de treinos. A gente se entende bastante e se respeita.

Lançamento do projeto de alto rendimento do SESI

Lançamento do projeto de alto rendimento do SESI

Como é morar em São Paulo?
Eu moro na rua da frente do SESI. Lutei para isso, para ter facilidade para chegar no treino e não me estressar, porque trânsito estressa. Vivo no SESI, faço tudo lá. Particularmente eu vejo o lado bom de São Paulo. O lado ruim é o trânsito, que eu não pego, e não ter praia, que não tem o que fazer. Acho que o objetivo é maior do que qualquer outra coisa. Se eu tivesse em Curitiba com menos 1 grau, teria que me acostumar. Quando você coloca um objetivo na sua cabeça, é mais fácil lidar com todos obstáculos. Mas meu pai vem me visitar, tenho uma mãezinha paulista, que é a Zezé, me relaciono com um rapaz de São Paulo, tenho amigos também. Acaba sendo mais fácil. Mas que eu sinto falta de uma praia, eu sinto… 

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