Entrevista: Gabriel Ogawa

3 de novembro de 2014

Entrevista com Bia Nantes1 comentário em Entrevista: Gabriel Ogawa

Gabriel Ogawa fará sua estreia na seleção brasileira absoluta no Mundial de Doha, onde nadará o 4×200 livre. A história da convocação é boa: ele terminou em quarto na prova de 200 livre no Finkel, e teve a vaga nas mãos por algumas horas. Até que, na final B, foi superado por Fernando Ernesto por 3 centésimos, e ficou fora. Meses depois, a desistência de Nicolas Oliveira, que integraria o revezamento, fez com que Ogawa fosse convocado. Presente em seleções desde as categorias de base, o nadador já passou pelo Espéria e Paulistano antes de chegar ao Pinheiros, em 2010, levado pelo técnico Marcelo Tomazini. Hoje treinado por Amém e com estatura menor que os principais adversários, Ogawa não se incomoda com o tamanho, se inspira nos japoneses e é citado como exemplo entre os colegas pela raça e determinação nos treinos. Confira entrevista exclusiva com a Swim Brasil.

Beatriz Nantes: Como foi essa montanha russa da convocação? Você tinha chegado a comemorar no Finkel ou esperou acontecer a final B?
Gabriel Ogawa: No Finkel eu fiz 1’45”99, que foi meu melhor da vida, então comemorei bastante. Logo que acabou a prova fui falar com o Amém, meu técnico, e ele falou que eu estava no Mundial. Eu sabia que o Ernesto não estava muito bem, mas que mesmo assim ele podia fazer abaixo desse tempo. Então eu comemorei, aproveitei o momento, mas depois fui esperar a final B. Ele nadou e ganhou de mim por 3 centésimos. Eu podia ter perdido por 1 segundo, mas 3 centésimos é tenso… Mas foi rápido, eu estava em uma boa preparação e foquei para não ficar pensando nisso. Fiz uma performance boa nas outras provas. Voltei a treinar normal e na semana retrasada o Amém me mandou mensagem falando que o Nicolas Nilo podia desistir, mas ainda era um boato. Disse para eu ir  preparando documentos porque se precisasse, ia ter que mandar rápido para a CBDA. Passou um dia e saiu o boletim oficial. No meio da tarde, o Amém me ligou, perguntou se eu estava dormindo, e falou que eu tinha sido convocado para Doha. Fiquei tão agitado que não consegui descansar direito, comecei a preparar os documentos para mandar. E o planejamento para o Open meio que encaixa com Doha, não tem nenhuma alteração no meu treino.

Quem foi a primeira pessoa com quem você falou?
Eu liguei para o meu pai primeiro, pedi para ele avisar minha mãe, que estava com a minha avó no interior. Avisei que podia sair logo o boletim oficial. Ele ficou muito feliz, parece que ele ficou dando refresh a cada 5 minutos no site e me mandou que tinha saído. Já coloquei na internet para todo mundo saber, meus amigos que tinham torcido, todos. E foi aquela festa, muita gente ligando, mandando mensagem.

Nas competições e na internet também dá para ver que você é muito querido e todo mundo torce muito para você. De onde vem isso?
Acho que o jeito que as pessoas me tratam é o jeito que eu trato as pessoas, quem é meu amigo sabe que eu sou aquele cara que sempre está ali. Não só quem treina comigo, mas dos outros clubes. Nado com eles desde o petiz, e agora somos sênior: o Alcover, os caras da minha idade do Pinheiros e de outros clubes também: Cobra, do Corinthians, o pessoal do Minas. Sempre que a gente se encontra em competição acaba fazendo piada, é aquela amizade que não depende da distância. A natação está aí pra isso: dentro da água é adversário, fora é amigo. 

Acho que torcem muito também porque você tem fama de raçudo no treino, é verdade isso?
Não tem o porque eu chegar no treino e falar que estou cansado e dar migué. Você está no treino com um objetivo, de melhorar alguma coisa e sair melhor do que chegou. Lá no clube tem problema de ventilação e quando esquenta muito fica abafado. Tenho problema de asma devido ao esforço físico, mas só paro de nadar se estou quase desmaiando. Já tive que sair duas vezes direto para o hospital. Eu não gosto de dar migué, não gosto de ver gente dando migué, para mim não faz sentido. Posso não fazer a melhor série, mas vou dar o meu melhor.

Você gosta de sentir dor no treino?
Não é que eu gosto de sentir dor, mas quando treinava com o Sérgio, ele falava que gostava de dar treino para mim porque eu não estava nem aí para dor. Não é que eu goste, eu não sou de ferro, também travo, mas quando acontece, me vem uma vontade de fazer mais. A dor fica menor, a determinação chama mais alto. Sempre fico feliz quando acaba o treino e vem aquela sensação de que fiz tudo o que pude.

No Maria Lenk foi a primeira vez que você pegou final de 200 livre. Seu treino é para essa prova ou para o medley, que você pegou medalha?
Foi a primeira final e a minha primeira vez que nadei o 200 livre nessa competição. No Maria Lenk, o Henrique Rodrigues estava voltando de cirurgia e não ia nadar. Então tinha o Simon e o Thiago Pereira no 200 medley, e a terceira vaga não era de ninguém. Começamos a planejar o treino para o 200 medley. Só que o treino do Amém é misto, faço muita série de crawl também e acabou ficando forte. Eu gosto muito de assistir o 200 livre, tinha vontade de nadar, mas sempre achei difícil. Tinha filosofia de voltar forte, só que no 200 livre uma hora isso não dá resultado mais. Até que nadei bem um regional e acreditei. É uma prova difícil, no Maria Lenk estava até com medo de errar parcial e frequência. No Finkel já estava melhor. E querendo ou não, minhas chances reais de seleção absoluta hoje são os revezamentos, no medley talvez mais para frente fique mais viável, mas hoje é o 200 livre que está me dando boa chance.  

Falando nisso, vai ser seu primeiro Mundial absoluto. Como está sua expectativa?
Eu estou muito animado. No Paulista até falei para o João, para o Guido: a gente vai viajar junto, vou encher o saco de vocês lá! Eu estou muito animado, meio nervoso, mas ao mesmo tempo muito motivado para ir… olho no calendário e vejo que faltam tantos dias para o meu primeiro Mundial. Penso que vou ver de perto quem eu via na TV, e agora ao vivo. Estou focado, sempre que sinto dificuldade penso no Mundial, me dá motivação a mais.

tomazini

Ogawa com Tomazini e Leo Coutinho, quando treinava no Paulistano

Quem você gosta de acompanhar de outros países?
Um dos que eu gosto é o Kosuke Hagino, acompanho ele desde o Mundial Junior de Lima, que eu fui. Acompanho todo o pessoal do Japão, que acho que tem um físico parecido com o meu, e fazem coisas inimagináveis. Também acompanho o pessoal dos EUA, de outros países. 

Já que você tocou nesse assunto: como você lida com essa questão da sua estatura?
Nunca liguei para o meu tamanho. Lembro que peguei uma seleção para o Sulamericano Juvenil e nessa viagem o Leo de Deus estava lá. Meus pais são muito de conversar com outros pais, e o pai do Leo falou pra mim: “não desista de seus sonhos por causa do seu tamanho. Olha o tamanho do meu filho. Você não tem que ter medo dos caras só porque eles são maiores, tem que ter técnica para nadar.” Sendo menor eu tenho vantagem de ser mais leve também. Fui levando isso para frente. Nunca me intimidei de ficar do lado dos caras, se você ver eu do lado do Simon, dá uma bela diferença… mas eu acredito, acredito no que treinei. 

Esse não é seu primeiro Mundial, você esteve em Lima no Mundial Junior. Como foi?
O Mundial Júnior foi uma coisa única. Foi a primeira experiência de Mundial para categoria de base, então eu lembro perfeitamente de tudo lá, do que eu senti, do que aconteceu. Quem tinha índice individual fez uma boa preparação antes, viajamos para o Canadá, fizemos altitude no México. Talvez eu e o Sérgio tenhamos errado, porque cheguei lá meio exausto por causa dessas viagens, então não melhorei nenhum tempo. Mas foi um aprendizado. Você vê que é outra natação e aprendi muito. Parecia que os caras já eram sênior. De repente você vê o cara da sua idade fazendo tempo de final olímpica.

Mundial Junior, em Lima, 2011 (Foto: Satiro Sodré)

Mundial Junior, em Lima, 2011 (Foto: Satiro Sodré)

Como está seu joelho?
Senti a lesão em um ritmo de peito há algumas semanas. A fisioterapeuta disse que é tendinite, amanhã vou no Hospital para me consultar com um médico de joelho para saber exatamente. É um negócio meio chato, nunca tinha sofrido uma lesão realmente. Sei que tem que ter paciência, é o que eu falava para meus amigos quando eles tinham. Estou sofrendo, mas agora é só esperar e torcer para melhorar e eu voltar a nadar peito. Para o crawl, costas e borbo não afeta em nada.

Você faz faculdade?
Até ano passado estava fazendo faculdade de design de games. Mas perdi algumas provas, peguei DP, e dei uma largada. Para esse ano resolvemos segurar e focar na natação. Mas no próximo ano eu pretendo voltar, me sinto meio preguiçoso, parece que estou ficando burro….

Como é sua rotina de treinos?
Na base a gente treina 11 sessões, com o passar dos blocos as dobras vão diminuindo, até o polimento. E musculação começa 4 vezes por semana, na base, e depois vai para 2 ou 1 durante o polimento.

Sua medalha no Maria Lenk esse ano foi muito comemorada por você e por todos do Pinheiros. Qual o significado dela?
Eu já tinha uma medalha em absoluto, no Open de curta. Mas acho que Maria Lenk e Finkel tem importância maior que o Open. Foi minha primeira na longa também. Na hora que eu subi no pódio e vi que estava do lado de 
dois gigantes, vi que era possível. Passou tudo o que eu fiz no semestre. Foi um momento de muita felicidade. Depois que acabou, eu vi a filmagem várias vezes, principalmente o final da prova, que dava para ver todo mundo vibrando na arquibancada. Vi essa chegada várias vezes…

Captura de Tela 2014-11-03 às 21.43.11

Foto: Satiro Sodré

E você estava disputando o bronze justamente com o Lucas Salatta, que é um nadador olímpico…
Na hora que eu virei atrás no peito, pensei que dava. Eu já tinha perdido uma oportunidade no Finkel do outro ano, que eu perdi do Evandro que estava do outro lado da piscina, e eu não estava vendo ele. Lembrei disso e pensei que não podia perder. Fui na vontade. 

Tem algum outro momento na natação que foi inesquecível? 
Uma coisa que vai ficar pra mim é o recorde Sul-americano do 4×200 no Finkel. A gente conversou bastante durante os treinamentos, pensando se a gente podia conseguir, e aconteceu. Ficamos muito felizes, claro. No final, sai do Finkel com um recorde sul-americano e uma convocação.

Treino, Botafogo

Revezamento recordista sul-americano

Recorde, convocação para o Mundial e a medalha no Maria Lenk. 2014 é seu melhor ano na natação?
Até agora tem sido meu melhor ano. No Finkel parecia que eu tinha voltado a ser juvenil, de baixar 2 segundos na prova. Não que o trabalho do Sérgio não tenha sido bom, eu gostava muito do treino dele, mas por algum motivo, com o Amém eu dei um pulo. Não sei explicar. Gosto dos dois técnicos e treinos, e os dois fazem parte do meu resultado. Mas no Finkel foi muito legal baixar bastante os tempos.

Eu queria agradecer por todo mundo que torce para mim, que mandou mensagem e falou comigo. Todo o pessoal que me treinou desde sempre, o Sérgio, os auxiliares, Schirru, todo mundo que sabe que fez parte do meu resultado. Sem eles, e minha família, eu não estaria nesse momento. Agradecer é importante. 

Posts relacionados

Um comentário em "Entrevista: Gabriel Ogawa"

  1. […] Gabriel Ogawa foi finalista do revezamento 4×200 livre no Mundial de Doha.  Atleta do Pinheiros, foi a primeira vez que defendeu o Brasil em Mundiais absolutos. […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

« »