Entrevista: Gabrielle Roncatto

12 de janeiro de 2015

Entrevista com Bia Nantes2 comentários em Entrevista: Gabrielle Roncatto

Gabrielle Roncatto é um dos principais nomes da nova geração feminina do Brasil hoje. Única atleta no feminino com índice para o Mundial Júnior de Singapura até o momento, Roncatto aprendeu a nadar em Santos e se mudou para São Paulo com o pai e irmão quando era infantil 1, para treinar no Pinheiros. Desde então, coleciona títulos de categoria – foi a única nadadora na história a ganhar a mesma prova no Chico Piscina quatro vezes – e seleções infanto-juvenil. Ano passado, ganhou sua primeira medalha em campeonatos absolutos. Nessa entrevista, ela fala sobre a meta de estar no PAN de Toronto, seu vasto programa de provas, como lidou com ficar fora das Olimpíadas da Juventude e o sonho de estar nas Olimpíadas.

Beatriz Nantes – Como está a sua expectativa para treinar com o Amém esse ano, depois de uma temporada com o Tomazini?
Gabrielle Roncatto – Por enquanto ainda estamos todos treinando juntos, depois vai dividir. Foi o clube que pediu essa mudança, para eu treinar com a Joanna, Manuella e Larissa. Estou animada, quero treinar bastante e aproveitar que tenho essas meninas do meu lado para treinar bem. Uma parte de mim fica triste de sair do Tomaza, me dei muito bem com ele, mas estou animada para esse ano. 

Qual o principal objetivo da temporada?
Pegar a seleção para o Pan-americano. Para o começo de ano acho que é isso. E chegar cada vez mais perto das Olimpíadas.

Você tem o sétimo tempo do Brasil no 100 e 200 livre. Pensa no Mundial de Kazan para as provas de revezamento como uma realidade?
Sim, eu quero tentar o revezamento 4×100  e 4×200 livre para Kazan. E para o PAN quero tentar as provas de medley, porque são duas pessoas por prova.

E tem o Mundial de Singapura também, que você já tem índice. Mas o foco principal é conseguir o PAN então?
Eu ainda não conversei com o Amém sobre isso, mas meu foco agora é para o Maria Lenk, que vai ser a última seletiva. Mas acredito que vamos fazer algo diferenciado pra Singapura.

Pergunta do leitor – Gustavo Cardoso: A Gabi é muito versátil com os 100 e 200 livres excelentes, tetracampeã nos 100 peito do Chico Piscina e medalhista brasileira no absoluto nas provas de medley. Quais suas provas preferidas e quais pretende manter em seu programa esse ano e principalmente para o futuro?
É engraçado que quando eu era pequena, no mirim, nadava borbo e costas. No petiz tinha uma competição no Santa que chamava Copa Versátil. Era interna, e todo mundo nadava tudo. Eu lembro que nadei 100 peito junto com o Felipe Ribeiro [recordista juvenil 2 do 100 livre] e a gente nadou super bem. O Rogério, meu técnico, falou para tentar investir no estilo. Nesse mesmo ano eu tinha chance de pegar a seleção para Multinations, nadando o Brasileiro infantil como petiz 2. Em uma competição antes eu fiz 3’01 no 200 peito, e ele me colocou para nadar essa prova lá, Achei que ele estava louco. Lá acabei nadando para 2’46, e consegui pegar a seleção. Depois disso não parei mais de nadar peito, e com o Silas evolui bastante no crawl também, consegui fazer 56”e 2’04 no juvenil.

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Primeiro título Brasileiro veio em 2010, competindo em observação com atletas um ano mais velho no 200 peito

E qual delas você gosta mais?
Eu gosto de todas. Agora mais do medley e crawl… o peito é meio de lua para mim, tem dias que está mais encaixado, outros não.

Dos tempos que você fez no Open, qual deixou mais feliz?
Fiquei meio brava com o 200 livre, queria muito terminar o ano nadando para 2’01. Dei 2’02”9 de manhã, a tarde achei que ia dar porque tinha segurado. Na final acabei passando ainda mais fraco, ficou tudo para os últimos 50 e fiz o 2’02 de novo. Mas tudo bem… a que mais gostei foi o 200 medley, 2’17”0. Podia ter sido 2’16, mas tá bom. 

Como você se motiva?
Eu tenho os tempos que quero fazer na minha cabeça, e treino pensando nisso. Antes eu colocava na parede, escrevia umas frases, mas agora eu deixo mais na cabeça mesmo.

E  conta para alguém o tempo que quer fazer ou é segredo seu?
Eu guardo para mim. No Finkel eu brinquei com o Tomaza, ele escreveu o quanto achava que eu ia fazer no 200 medley e eu também. Ele escreveu 2’14 e eu 2’12. No final deu 2’12!

Em 2014 você conseguiu sua primeira medalha de absoluto no Maria Lenk e acabou ganhando as duas provas de medley no Finkel . No começo do ano, você já imaginava que brigaria no absoluto ou estava mais focada na categoria?
Foi muito melhor do que esperava, no começo eu estava mais focada na categoria mesmo. Cai de paraquedas no Tomazini. O combinado era que ia treinar na equipe principal até o juvenil voltar, mas eles gostaram de me ver treinando, decidiram me deixar lá. Acabou dando muito certo. Lembro de dar meus melhores tempos, que eu tinha feito no Paulista, em uma série de 6×200 do bloco. Comecei a ficar muito motivada, e o Tomazini me ajudou bastante também. Não pensava muito, simplesmente ia treinando e acontecendo.

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Você saiu do Maria Lenk com a primeira medalha de absoluto e a quarta vaga para as Olimpíadas da Juventude, mas acabou perdendo a vaga na última seletiva. Como foi?
Foi difícil. Eu assisti a Bruna nadando, e fiquei feliz por ela, somos amigas, mas ao mesmo tempo é complicado. Eu lembro que depois que ela nadou, pegou a terceira vaga, e a quarta foi para a Viviane [Jungblut]. Eu calculei que precisava fazer 56”49 no 100 livre para empatar com ela, e pelo critério de desempate eu iria. Estava muito na expectativa, e acabei fazendo 56”52. No final o índice técnico deu abaixo mesmo, e foi bem difícil. Eu chorei bastante aqueles dias. Mas no final isso me ajudou, acho que quando você cai, quer voltar mais forte. Eu pensava muito nisso nos treinos, e o Tomaza me ajudou bastante.

Durante a competição você conseguiu acompanhar os resultados?
Na época eu preferia não ver, até me afastei do celular um pouco. Era difícil porque eu queria estar ali, sabia que tinha condições. Vi os resultados porque não tem como não ver, dei os parabéns pra todos eles, mas preferi não ficar vendo fotos, instagram. Foi uma época que eu treinava, malhava e dormia, só. 

E logo depois no Finkel você ganhou duas provas, 200 e 400 medley. 
Eu queria muito nadar bem lá. Pensava muito nisso nos treinos, não queria que acontecesse a mesma coisa de novo.

Você gosta mais de treinar ou de competir?
Treinar. Gosto dos dois, e gosto bastante de competir, mas acho que treinar ainda gosto mais.

Não pensa em nadar também o 400 livre?
No brasileiro eu nadei para pontuar para a equipe. Acabou que consegui ganhar com índice para o Mundial, 4’19. Foi legal, mas não é um tempo tão expressivo. Acho que dá para melhorar, mas não sei se vou treinar para essa prova.

Desde quando faz musculação? Você gosta?
No Santa tinha um trabalho preventivo, mas não chegava a ser preparo. No Infantil aqui no Pinheiros também não tinha nada de mais, era mais salto e medicine bal.. No juvenil 1 começou a musculação, mas inicialmente só para aprender o exercício. No juvenil 2 comecei a fazer uma musculação diferente, não era nem a do juvenil nem a do sênior, os preparadores Igor e Ricardo adaptavam para mim, tiravam algumas coisas. Ano passado malhava quatro vezes por semana, duas vezes musculação e duas vezes pliometria.  Gosto bastante, não gosto de roubar.

Você veio bem nova para o Pinheiros. Como foi essa decisão?
Eu era bem teimosa para umas coisas quando era pequena. No brasileiro de infantil, que eu fui quando ainda era petiz, eu vi o Pinheiros e fiquei com muita vontade de fazer parte. Perguntei para um amigo quem era o técnico do infantil do clube e fui lá perguntar para ele se podia ir para o Pinheiros. Ele deu risada e no final marcamos uma reunião com a minha mãe. A gente morava em Santos, tinha casa lá, e já era final do ano. Viemos para o Pinheiros conversar e fiquei com muita vontade. Enchi o saco do meu pai, e ele falava que não dava. No final ele conseguiu, arrumamos um jeito e durante o infantil 1 vinhamos durante a semana, eu, meu irmão e meu pai, ficando na casa da minha avó. Ele deixava a gente no colégio, ia trabalhar em São Bernardo, e buscava depois do treino. Foi um ano assim, depois veio todo mundo, menos minha irmã mais velha.

Gosta de São Paulo?
Eu gosto. Em Santos a qualidade de vida é bem melhor, aqui é mais corrido, você tem que acordar mais cedo, mas não me arrependo de nada. O que mais senti foi no colegio, sempre estudei no Santa e senti falta das amizades. Mas eu amo o Pinheiros de paixão, adoro defender o clube, sei que valeu a pena. 

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Pergunta do leitor – Iole Pontes: Gabrielle, vc saiu da escola pra treinar na equipe principal do Pinheiros. Você não sente falta de frequentar a escola? É fácil estudar sozinha? Como você estabelece suas metas de estudo?
No começo eu teoricamente ia treinar com o juvenil. Um dia, o Tomazini estava me dando carona e falou para eu esperar antes de fazer a matrícula, para ver se rolava nadar na equipe principal. Duas semanas depois o Marcão falou que se desse para fazer o Colégio Avanço, que é a distância, eu conseguiria treinar na principal. Outras pessoas estudaram lá, vi e achei bem interessante. Estudo em casa, vou lá para fazer prova e entrego trabalho.

Sente falta?
Eu sinto falta da escola. Estudei um ano aqui do lado de casa, e era muito gostoso. Sinto falta de uma vida de adolescente, mas ao mesmo tempo, eu sei o tamanho do meu sonho. Não dá para fazer os dois. Eu escolhi isso e estou focando o máximo para dar certo. 

O seu sonho, ou parte dele, tem a ver com o Rio-2016?
Eu quero estar nas Olimpíadas em 2016. Mas tem que acontecer naturalmente, não me prendo nisso. Se acontecer agora, vou ficar muito feliz. Representar o Brasil nas Olimpíadas é meu sonho.

Tem algum ídolo na natação?
Tem algumas pessoas que me espelho, como a Katinka Hosszu.

Imaginava que já nesse ano você subiria em um pódio com ela? Gostou dela ter vindo?
Jamais imaginei. Eu acho muito legal eles virem. Penso que é justo por um lado, porque ajuda quem está competindo, mas por outro, acho que os clubes não deviam contratar atletas pensando em bater tais recordes para ganhar a competição. Mas para mim foi uma experiência única. 

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Prata no 200 medley no Maria Lenk 2014, ao lado de Katinka Hosszu

Pergunta do leitor – Flávio Barbosa: Você tem algum ritual de concentração antes de treinar ou nadar”
Fico bem quieta, escutando música. E também me bato antes de nadar. 

Fica muito nervosa antes das competições?
Nunca fui de ficar muito nervosa. Sempre pensei em tudo que treinei, achava melhor levar por esse lado. Não me cobro muito, tento ficar tranquila. Esse ano foi difícil porque comecei a treinar realmente no absoluto. O clube me colocou na equipe principal e precisavam ganhar algo com isso. O Tomaza me ajudou bastante nesse lado psicológico, a gente conversava bastante.  

Dos lugares que conheceu pela natação, qual foi mais legal?
Gostei muito da Ilha de Chipre.

Para terminar, o que você mais ama e mais odeia na natação?
Essa é difícil… eu amo a parte de treinar, estar lá com a equipe. Estando em um lugar onde você se sente bem e com todos te ajudando fica muito mais fácil. Gosto disso, dessa união do técnico e equipe. Odiar, acho que não tem nada…

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2 comentários em "Entrevista: Gabrielle Roncatto"

  1. Alex Viana. disse:

    Sem dúvida a Gabi tem tudo para estar no Rio em 2016. Se esforça, se dedica e sabe o que quer. Muito sucesso! E parabéns pela entrevista, ficou muito boa!

  2. O que dizer da Gabi? Além de uma grande campeã e excelente nadadora, ela é daquelas meninas com quem você pode conversar por horas. É uma das mais simpáticas atletas a quem conheci e vou muito acompanhar. E mais do que isso: será a melhor nadadora que o Brasil já teve. Gabi, te adoro! E parabéns pela entrevista, Bia!

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