Entrevista: Gustavo Godoy

2 de fevereiro de 2015

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Gustavo Godoy

Gustavo Godoy comemorou os 24 anos nesta segunda-feira (2/fevereiro), fazendo uma das coisas que mais gosta: treinando. O nadador, nascido em Porto Alegre, estreou na seleção brasileira no ano passado, no Mundial de piscina curta, onde nadou o 200 livre, 4×100 livre e 4×200 livre. Há cerca de 5 meses montando o próprio treino e a preparação física, ele falou sobre seus objetivos e sua carreira nessa entrevista à Swim Brasil.

Onde você está treinando?
Tô treinando todo dia na piscina do meu ex treinador, Wilson Mattos. Ele é como se fosse meu pai na natação, me deu treino por 6 anos. Mas faz 5 meses que eu estou montando meus próprios treinos, minha preparação e nutrição. Fiz toda minha preparação para o Mundial assim. Ainda não consegui nenhum clube, talvez eu me filie a algum clube pequeno aqui.

Está gostando? Qual a maior dificuldade de treinar sozinho?
É bem gostoso. Eu consigo fazer exatamente o que sei que é bom pra mim, e está dando muito certo. Estou treinando como nunca treinei em nenhum clube, e a perspectiva é melhorar bastante no Maria Lenk no 100  e 200 livre. Eu treino em uma raia sozinho, mas tenho ajuda para pegar os tempos: o Wilson e mais 3 professores da Raia Sul: Thiago Bicca, Leonardo Silva e Diego Burgos. Na preparação física, tenho a ajuda do Alex Azambuja e Jonas Alves. Acho que a principal dificuldade é tempo: tenho que chegar em casa e anotar tudo, programar, é desgastante. Mas em termos de satisfação e de chegar na piscina motivado, não perco nada. É uma coisa bem diferente.

Qual sua rotina de treinos hoje?
Eu dobro segunda, quarta e sexta, e treino normal de segunda a sábado. Fora da água faço só funcional, duas vezes por semana. Não mexo mais em musculação porque acho que não preciso ganhar mais volume muscular. Seria até bom dar uma murchada. Ganhar força é mais importante. 

No que você se baseou para montar os treinos?
Tirei das minhas experiências na natação. Já treinei com bastante gente, e acho que o meu diferencial hoje é que tenho a cabeça bem aberta para aceitar coisas diferentes. Todo treinador tem sua parte boa, eu acabei pegando o melhor de cada um para fazer meu próprio estilo de treino.

Você teve férias?
Não. Tirei só 4 dias, que viajei para a praia com a Bruninha (Bruna Rocha).

Você falou que seu objetivo esse ano é pegar a seleção novamente. Como você se motiva no dia a dia? Pensa em um objetivo de tempo, de colocação, de forma de nadar?
Sempre penso na execução do movimento. A braçada perfeita, entrada na água, empurrão da parede, girar rápido na virada, manter o corpo em cima da água. Eu sei que se conseguir fazer isso, o tempo vai sair bom. Não penso em índice ou colocação, tento focar na execução.

Consegue manter essa concentração no treino?
Eu me concentro muito. Não gosto nem de conversar durante os treinos, nos intervalos, para não sair do foco. Posso até parecer meio grosso às vezes, mas prefiro fazer assim e depois quando acaba o treino eu explico. Cada palavra que você fala são 5 segundos de descanso que perde.

Quando começou a nadar?
Eu comecei a nadar em piscina pequena em uma escola chamada Natacenter. Era bem criança, 7 anos, e nadava duas vezes por semana. Com 9 anos passei para a piscina grande, de 25 metros, e com 10 comecei a competir em provas pequenas. De treinar todo dia foi com 15 anos, e de dobrar e encarar mais sério com 18. Nadei no Náutico Gaúcho e depois fiquei 4 anos no Caixeiros Viajantes, até ir para o Curitibano em 2011. Em 2012 voltei para Porto Alegre para treinar com o coach Noel, em 2013 fui para o Minas e em 2014 para o Corinthians.

Fez outro esporte quando era mais novo? 
Fiz futsal até os 13 anos. Quando eu decidi pela natação, nadava três vezes por semana e fazia futsal duas vezes. Sabia que tinha que escolher um, e fiquei na natação. 

Hoje você nada 100 e 200 livre, mas nem sempre foi assim né? 
Eu nadava bem variado, nadei até 1500. A única coisa que nunca nadei foi 200 costas. Mas nadei 50 e 100 borboleta, 200 e 400 medley. Dai comecei a me desenvolver e ver que minha perna não servia para rodar, então não tinha como nadar peito. Não tinha flexibilidade para ser nadador de borboleta, e o costas sempre foi ruim. Fiquei no crawl, e está dando certo.

Sempre quis ser nadador profissional, ou essa vontade veio com o tempo?
Eu acho que um pouco de cada. Fui melhorando e vendo que dava para ser um pouco melhor. Eu via o Xuxa, Gustavo Borges e o Thorpe – que na minha opinião foi o melhor nadador de crawl que já existiu – e queria nadar rápido como eles. Dei raça para ser o melhor. Isso sempre esteve em minha mente.

Teve algum momento em que você percebeu que tinha virado profissional, alguma competição, prova ou treino em que isso ficou claro na sua cabeça?
Eu percebi que a coisa ficou mais séria quando fiz minha primeira viagem internacional, que foi o GP de Santa Clara. Quando vi como funcionava nos EUA, que está anos luz na frente, aquilo me surpreendeu. 15 séries por prova, tudo rápido, se não estiver atrás do bloco perde a prova. Ali foi um divisor de águas para eu perceber que tinha virado uma coisa profissional.

2014 foi  o primeiro ano em que você chegou a uma seleção absoluta, a que você credita essa evolução?
No fim de 2012 o Scott Volkers me ensinou que eu não devia rodar o quadril. Credito minha evolução a isso. Antes eu rodava normal, não tinha noção do que era core.  Na época foi um baque… como assim não rodar o quadril? A gente brigava, e ele falava que se eu quisesse nadar mais rápido tinha que arrumar isso. Minhas pranchas de core eram muito ruins. Meu corpo sempre foi forte, mas aquele músculo profundo que precisa para nadar eu não tinha. Para mim foi o grande diferencial, eu levo  comigo até hoje.

Como foi a experiência de estar no Mundial de curta, que foi histórico para o Brasil? 
Até hoje, na natação, foi a melhor experiência que eu já tive. Já tinha ido pra Copa do mundo e GP, mas está longe de ser o Mundial, com todo mundo na melhor forma. É legal ver como os caras agem, como aquecem, o que fazem antes da prova, acaba aprendendo muito. Eu treinei para nadar bem melhor do que nadei a prova individual, mas chegou na hora, talvez tenha pesado um pouco da estreia mesmo. Já passou e não vai acontecer de novo de jeito nenhum. Foi bom ter essa experiência.

10372125_720785388017332_1166853402484446642_n

Tem algum momento ou algum fato marcante desse Mundial que você citaria?
A ajuda do Albertinho, que simpatizou comigo e quis ajudar desde o primeiro minuto. Outros caras muito legais que  conversei foi o Césão. Eu tinha uma impressão diferente dele, de ser mais fechado, e ele me ajudou bastante. Além dele, o Nicholas Santos e o João de Lucca. Pude ter mais contato e trocar experiência, mesmo que pouco, realmente me ajudou. E o Henrique Martins, que é meu amigo e foi quem eu mais conversei, ficamos no mesmo quarto, demos força um para o outro. Era a estreia dele também.

Gosta mais de competir ou de treinar?
Gosto dos dois. Todo mundo gosta de competir na minha opinião, todo mundo se prepara porque gosta. Mas como eu gosto muito de competir bem,  tenho a consciência que preciso treinar bem. Por isso gosto dos dois, um leva o outro a acontecer bem.

Sempre foi assim ou já teve fases em que não gostava de treinar?
Eu sempre gostei, embora nem sempre estivesse fazendo o treino certo pra mim. Muitas vezes tive que engolir quieto a série, sem ter como argumentar, porque se argumentasse ficava mal para o chefe. Tinha muita lesão, porque se você fala que está com dor, é sinônimo de corpo mole. Só que eu nunca fiz corpo mole, se eu falo que estou com dor é porque estou. Acho que foi uma das coisas que pode ter  travado a minha evolução, essa falta de comunicação do atleta com treinador. Não foram todos, claro. Tenho muito a agradecer ao Scott Volkers, ao Sérgio Marques e ao Wilson, que foi o cara mais compreensivo e que realmente me entendia. Queria agradecer também aos meus fisioterapeutas Jean Romagnolli e Carol Gassen e aos meus massoterapeutas, o Joca Macedo e a Ana Ferme.

Treinando sozinho isso deve ficar mais fácil.
Eu escutando o meu corpo, sendo atleta e treinador, a comunicação é muito mais rápida. Eu sinto se preciso de cinco segundos a mais ou a menos de descanso. Tenho um código com o Thiago que eu só levanto a mão e ele já sabe.

Já fez trabalho de psicologia esportiva? Gosta?
O que eu experimentei foi com o Luis Orione, o mestre, e foi bom. Ele me acrescentou bastante coisa. Tem muita gente que faz a psicologia errado, e poucos que fazem certo. Eu experimentei com um dos melhores caras. 

O que você mais ama e mais odeia na natação?
Acho que o que mais amo é estar em contato com a água, sempre me fez muito bem. A natação em si é mágica, ela proporciona uma coisa mágica quando você faz aquela série bem rodada, acaba e vem o oxigênio para o cérebro. Você sente que está vivo. O que eu mais odeio, acho que são as pessoas falsas que estão te dando um tampinha nas costas, mas na verdade não estão torcendo por você.

Gustavo Godoy é patrocinado pela Hammerhead, Instituto Tolerância e Diga.

Posts relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

« »