Entrevista: Jessica Bruin Cavalheiro

18 de novembro de 2014

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Jessica Bruin Cavalheiro

Jessica Bruin Cavalheiro viaja no final do mês para seu terceiro Mundial. No primeiro, da categoria júnior, e no segundo, o Mundial de longa de Barcelona, Jiba, como é conhecida, voltou diferente: sabendo que precisaria trabalhar mais porque era, usando suas próprias palavras, “ruim”. Uma das melhores nadadoras do país de 200 livre, Jiba é natural de Minas Gerais e atleta do SESI desde o ano passado, gosta de competir, não abre mão do técnico Vanzella e sempre sonhou em disputar uma Olimpíada. Nessa entrevista (feita após Jessica fazer uma prova do curso de Direito do Mackenzie) ela fala sobre o recorde sul-americano do 4×200 livre, sua relação com as adversárias e atletas mais novas e os momentos mais marcantes da carreira. 

Falta menos de um mês para acabar as duas principais competições da temporada. Isso te deixa ansiosa, nervosa, com vontade que demore a chegar, que chegue logo..?
Acho que isso tudo é ciclo, que só acaba depois da Olimpíada. Lógico que gera um pouco de ansiedade e expectativa de baixar o tempo, mas eu sou muito tranquila. Já faço isso há tanto tempo que virou rotina. Daqui até a Olimpíada vai passar muito rápido, então a gente foca para uma competição, já pensando qual o próximo passo. Não dá tempo de ficar pensando demais, a gente executa mais do que pensa.

Você disse que já faz isso há muito tempo. Quanto? Por que começou a nadar?
Minha família se mudou para uma casa com piscina em Belo Horizonte e meus pais  tinham medo de eu morrer afogada. Por isso contrataram uma professora. Só que eu comecei a pedir muito para ela, e minha mãe me colocou em uma academia. Com 4 anos nadei minha primeira competição. Sempre treinava com os mais velhos, e com 6 anos eu comecei a treinar todos os dias da semana, uns 1000 metros por dia. Quando era mais nova eu ficava mais nervosa, não dormia, mas depois consegui controlar melhor. Hoje em dia já tenho noites de sono maravilhosas antes de competir. 

Gosta mais de competir ou de treinar?
Competir, mas gosto de treinar também. Um depende do outro. Quando você treina bem e faz uma série desafiadora, sempre se sente mais capaz de ganhar. Mas sou muito competitiva, se pudesse eu competia toda semana.

Sua melhor prova é o 200 livre, é a que você mais gosta também?
É a que eu domino mais, me sinto totalmente segura para nadar. Quando era mais nova, minha melhor prova era o 400 livre. Fiquei com um pouco de trauma porque comecei a não melhorar mais o tempo, e não queria mais nadar. Estamos recuperando ela agora.

E você ganhou essa prova no Finkel agora..
Sim, fizemos a dobradinha eu e a Bruna [Primati]. A gente estava no mesmo quarto, e já na segunda-feira comentei com ela que a gente podia fazer uma dobradinha. Ela falou: vamos fazer! Foi muito legal essa prova. A curta para mim é bem mais fácil, a prova cai pela metade. O 400 é como se fosse o 200 na longa, o 200 é como se fosse o 100.  Curta é outra prova, totalmente diferente.

Dobradinha com Bruna Primati no Finkel

Dobradinha com a companheira de quarto Bruna Primati no Finkel

Vai nadar essa prova lá no Mundial?
Vou. Devo nadar o 4×200 livre, o 400 e o 200 livre, eu e a Larissa [Oliveira].

Logo depois do Mundial tem o Open, você está conseguindo focar em tudo, ou tem alguma competição que é prioridade?
No começo do ano a gente conseguiu focar em tudo, com o Maria Lenk e o Brasileiro. Acabei nadando até melhor o Brasileiro. Acho que dá para ter bom desempenho nas duas. Mas o principal é a seletiva do PAN e Mundial, que é o Open.

Falando em PAN, essa foi sua primeira seleção absoluta, em 2011. Como foi essa experiência?
Eu até tinha ido para algumas preparações que já eram no absoluto, altitude, competições no Canadá. Mas foi sensacional. Quando eu subi no pódio, queria que demorasse mais. Eu estava anestesiada de alegria, queria que aquilo demorasse a passar.

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Pódio do revezamento 4×200 no PAN de 2011

Acho que o esquema de Vila é muito legal, acaba sendo uma mini Olimpíada. Quando você vai para Mundial, fica em hotel, a comida é ótima, na Vila o esquema é totalmente diferente: apartamento, cama não é tão boa. Mas é incrível. Pelo que a Joanna e Daynara me falam, na Olimpíada também tem isso de você dormir e ficar com o pé para fora da cama por exemplo.

Você falou muito de Olimpíada. É seu objetivo maior?
Sim. Eu acho que todo atleta tem o sonho olímpico. Tenho até uma reportagem de quando eu tinha 7 ou 9 anos, ainda na academia, quando nadei o Troféu Gustavo Borges. O repórter perguntou qual era meu sonho, e eu falei que queria nadar nas Olimpíadas. Eu nem sabia o que ia precisar fazer para isso, mas já queria. Sempre falei para minha mãe. E agora a gente está mais perto. Isso fica martelando na cabeça, a cada competição, a cada segundo, o foco é nadar uma Olimpíada e nadar bem, realizar meu sonho.  

Além da prova individual, o 200 livre abre a possibilidade do revezamento também. E é um revezamento que tem muita história, uma final olímpica recente. Você conversa com as outras meninas da prova sobre isso?
As 3 meninas que vêm ganhando desde 2011, eu, Larissa e Manuella, somos bem competitivas. Queremos muito a vaga individual. Mas acho que hoje dentro da gente já tem o recorde sul-americano para ser quebrado. A gente sabe que tem capacidade, só não teve o momento que estava todo mundo bem para fazer aquilo. A gente tem vontade de fazer o recorde e de pegar a final olímpica. Independente se é individual ou revezamento, é uma oportunidade, e você tem que agarrar em todas as provas. A quarta integrante do revezamento varia bastante, e tem muita menina nova chegando. A gente conversa muito que está na hora de bater o recorde, já durou muito. Atenas foi o topo da seleção feminina, onde o Brasil conseguiu mais finais. Eu realmente acho que o grupo agora, com as meninas que estão vindo, está com perspectiva de fazer isso ou melhor.

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Larissa, Manuella e Jessica revezam os lugares no pódio do 200 livre desde 2011


Vendo de fora fica uma expectativa por vocês quebrarem individualmente a barreira do 2’00, pra você tem isso também? 
Particularmente eu acho que essa barreira já foi quebrada, não só pela Manu e Monique [Ferreira], que foram as únicas que já nadaram para 1’59, mas acho que dentro de mim e das meninas tem menos. Não fico bitolada. O dia que for para sair, vai sair. Acho que em breve…  

Vi os seus resultados de juvenil, muitas daquelas meninas que disputavam as provas com você já pararam de nadar. Alguma vez pensou nisso? Como foi sua transição para o absoluto?
Nunca tive vontade de parar. Lógico que tem dias que você desanima, mas eu nunca me imaginei sem a natação. Nunca pensei em parar, mesmo. Minha transição foi engraçada. Eu sai do Junior e pensei: Meu Deus, nunca mais vou pegar medalha. Mas no primeiro ano de Sênior consegui meu primeiro título de absoluto, em 2011. E ainda consegui a vaga para o PAN. Então a transição foi tranquila. E pelo fato de ter ganho, comecei a pensar diferente. Lembro que o Rodrigo Castro falava muito comigo, que no Brasil, se eu fizesse pouco, já ia ver o quanto ia me destacar. Na época eu comia tudo errado, era difícil tomar suplemento. Foi ai que mudei, busquei nutricionista, psicólogo. Eu gosto mais do Sênior do que do Júnior, não foi algo que pesou. Só gostava mais de ser Juvenil, pelo tipo de brasileiro, as competições de categoria, essa época é  boa demais. Mas gosto muito de ser Sênior.

Um ano depois você foi para o Fluminense. Como foi 2012 para você?
Minha saída do Minas foi bem complicada. Nadei lá por 12 anos, sou sócia até hoje, sou mineira. O Minas me acolheu na infância, na juventude e na vida adulta. Sou muito grata ao clube e a pessoas que conheci lá, tenho um amor muito grande. Em 2011, tinha dado tudo certo treinando com o Vanzella. Eu acreditava muito nele e no Quinan, o preparador físico, e eles saíram do Minas. Eu já pensei no meu sonho olímpico, que mesmo que tivesse que passar por um ano turbulento, eu queria treinar com eles. Então criamos um grupo de trabalho: Vanza, eu e o Henrique Rodrigues, que é um dos meus melhores amigos, ele e o Leo [de Deus]. Ele morava em Curitiba, o Vanzella morava em São Paulo, e eu em Belo Horizonte. A gente vivia viajando, marcava treino cada hora em um lugar. Foi uma mudança que me fez muito bem, me conheci melhor e consegui desprender um pouco. Tinha dias que a Tati, que era a técnica do staff em Minas, pegava meu tempo, mas outros eu treinava sozinha. Numa academia, com pessoas velhinhas, nadando 7 mil metros sozinha. Foi um divisor de águas, um momento meu, de querer muito.

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Henrique Rodrigues, Jessica e Vanzella

A ideia de fazer esse grupo partiu de você e do Henrique?
O Henrique já estava com índice olímpico e  precisando  de um técnico. O Vanzella tinha saído. Eu enchi o saco dele e falei que ia treinar com ele de qualquer jeito. O Vanza perguntou o que achava da gente montar uma equipe, e a gente foi construindo a ideia. Em janeiro fomos abraçados pelo Fluminense, e deu certo.  

E um ano depois o Vanzella veio para o SESI, e você também.. 
Eu falo que sou o carma dele. Às vezes temos arranca rabo, mas ele me conhece muito bem e confio 100% no trabalho dele. Minha mudança para São Paulo foi bem turbulenta. Eu sou muito apegada a minha família, somos muito unidos, nós 4 e a moça que trabalha em casa, que arrumava até minha mochila. Morar sozinha foi difícil, no meio do ano eu queria voltar para casa. Aí comprei minha cachorrinha… agora estou super contente, realizada. Foi outro crescimento. Primeiro cortar o Minas, depois mudar de Minas. Acho que tudo aconteceu na hora certa.

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No Mundial de Barcelona vocês nadaram o revezamento 4×200 no dia do seu aniversário de 22 anos. Vi uma declaração sua falando que não foi um bom presente. Como foi a experiência lá?
Tive duas competições que marcaram muito minha vida. Monterrey, no Mundial Junior, e o Mundial de Barcelona. No México foi onde eu falei: “Sou uma merda. Tenho que treinar muito”. E aí comecei a me destacar dentro do Júnior. Depois diss.o, no Mundial de Barcelona, a mesma coisa. Foi bom ter sido a três anos das Olimpíadas. Foi onde vi que precisava treinar, foi um baque, de ver que tinha que trabalhar muito porque eu era ruim. O revezamento lá foi muito ruim, a gente entrou numa pilha errada. Até a hora que o Vanzella deixou a gente na porta estávamos bem, mas lá dentro entramos em um estado de nervosismo coletivo que foi horrível. Imaturidade nossa mesmo. Geramos muita expectativa, foi a primeira vez que nadamos juntas num campeonato desse porte. Mas passou, vamos ver agora no Mundial de curta.  

Quando o SESI foi desclassificado no revezamento 4×200, no Finkel, depois de bater o recorde sul-americano, você fez um post apoiando as meninas. Também já vi algumas vezes você desejando sorte para as mais novas. Como é sua relação com elas?
Meu objetivo na natação não é parar e falar que só nadei, você tem que deixar alguma coisa. O que a Monique, Mariana, Fabíola deixaram. Elas eram amigas, disputavam provas, mas se uniam por uma coisa maior que era ver a natação feminina brasileira bem. Uma nadava bem e contagiava a outra. Quando nadava com a Fabíola no Minas, ela me passava uma segurança de que estava no caminho certo, que tinha como chegar lá. Quando viemos para o SESI, nosso objetivo é a pedagogia do exemplo para as crianças. O projeto é de poucas meninas, treinando junto com as novas, que podem ver os treinos e se espelhar. Procuro ser próxima, dar opinião se elas me pedem, assim como fizeram comigo. Nesse dia da desclassificação eu me senti um pouco culpada. Fiquei muito sozinha no balizamento, queria abrir para o recorde sul-americano. Então quando a Sabrina queimou, eu pensei que podia ter tranquilizado elas, estávamos todas na pressão do recorde, me senti um pouco culpada. Deixei elas sozinhas no balizamento, não foi legal. Elas não podem sentir esse peso. Então eu tentei acolher para salvar a competição dela, que ainda tinha vários dias. E também porque é normal, todo mundo erra.

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