Entrevista: Larissa Cieslak

12 de maio de 2014

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Larissa Cieslak

Uma das principais nadadoras de medley do país na última década, Larissa Cieslak se aposentou no final do ano passado. Depois de anos treinando fundo, de participar de dois Pan-Americanos, um Pan Pacific, um Mundial Militar e de subir ao pódio em competições absolutas diversas vezes, Larissa parou de nadar e hoje se dedica à Engenharia. Nessa entrevista, a ex-atleta (“com orgulho!”), conta como foi a decisão de se aposentar,  os momentos mais marcantes de sua carreira, sua relação com os técnicos que conviveu e o que leva da natação: “A natação é uma vida”.

Como foi se aposentar?
Eu fiz uma prova em outubro, que foi quando eu parei e decidi: é isso que eu quero. Eu me formei em Engenharia, e já estava carregando  outra Engenharia nas costas, sem trabalhar, sem experiência nenhuma. Quando eu passei na prova, parei para pensar que tinha alcançado todos os objetivos de quando eu era petiz. Alcancei mais do que isso: cheguei a ganhar da minha irmã [Fabiana Cieslak], que era um deles. Atingi todas as minhas metas. Pensei em Rio 2016. É uma incógnita né? Aí pensei, ok, faltam 2 anos, eu vou treinar, posso ir, sei da minha capacidade. Mas uma medalha, uma final, seria muito difícil. Eu sei da minha capacidade e eu sei onde posso chegar. Nadar 4’40, 4’35, eu sei que não conseguiria. Foi aí que comecei a pensar em parar. Pensei: melhor eu parar agora, ter 2 anos de experiência na minha área e assistir as Olimpíadas, ver meus amigos, e eu não ficaria frustrada.

E como foi depois de decidir?
Em outubro eu fui para o psicólogo para fazer a transição inteira. Conversei com o Dudu [técnico do fundo do Minas], e nesse final já estava bem difícil treinar. Decidi treinar com o Scott no meio fundo, que era mais legal também, porque tinha mais gente, e o fundo é aquela rixa. Eu treinava sozinha no fundo, porque só eu treinava medley. Então eu fui pro meio fundo. Quando chegou o Open eu já tinha anunciado no Minas, já tinha tido reunião, já tinha chorado. No primeiro dia eu fui acreditando que ia fazer meu melhor.

Aí o Vaccari fez um vídeo em minha homenagem. Comecei a chorar muito, e foi quando caiu a ficha que eu ia parar, que aquilo não era mais a minha vida. Não nadei como esperava, porque é muito difícil mesmo. O 400 medley foi a mais difícil. Passou uma história da minha vida na minha cabeça… sabe, 400 medley, a prova que me levou pra dois PANs, pro Mundial Militar, pro Pan Pacific. Foi a minha prova mesmo. Foi carregado de emoção nadar aquele 400 medley. A última foi os 200 borboleta, nadei bem, foi legal. Naquele dia eu fiquei emocionada, chorei um pouco. Mas um dia depois, dia 24 de dezembro, eu estava em casa e já era ex-atleta. Minha irmã, que já parou, me ajudou muito. Foi meu primeiro Natal como ex-atleta. No Reveillon, eu tinha orgulho de falar “sou ex atleta, e agora sou engenheira”. E no mestrado comecei a ver que as pessoas são muito inteligentes, tô correndo muito atrás, estudando, lendo muito. Eu achava que não existia cansaço igual natação, mas o cansaço mental é muito grande, tem dias que eu não aguento. Mas eu estou adorando, tô feliz, sei que fiz a escolha certa.  

Qual foi a prova mais marcante da sua carreira?
Foi o 400 medley que classificou para o Pan de 2007. Minha irmã estava pré convocada, e não pegou nem final para a prova. Eu tinha astigmatismo, e quando preciso nadar muito bem, prefiro nadar sem lente e não enxergar nada, e nadar. Sabia que o tempo da Lilian Cerroni era 4’57” mais ou menos. Eu fui, nadei a prova, e na eliminatória, ganhei da Joanna [Maranhão]. Perguntei para ela quanto tinha feito e ela entendeu que eu perguntei quanto ela tinha feito e falou: 5’05”. E minha irmã parecia uma macaca na arquibancada, foi no Julio De Lamare, e eu não entendi nada. Pensei, por que ela está pulando? Foi quando me falaram que eu tinha feito 4’54”, tempo que daria a vaga.

Para a final ela falou, me olha na arquibancada, eu vou falar se você pegou a vaga. Nadei sem lente de novo. Lembro que a Lilian até passou o peito na minha frente, e foi quando eu fechei muito forte e fiz 1’03” no crawl. Bati e vi a Fabiana comemorando muito. Deu 4’54” de novo, classifiquei pro PAN, foi a prova mais emocionante mesmo, e muito porque eu tive o apoio dela ali.

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E como assim você nada sem enxergar? 
Ah, não sou totalmente cega, enxergo o T no fundo, mas não consigo ver o placar por exemplo. T
eve até uma prova  que foi o 200 borboleta quando eu era Júnior. Muitas das meninas não nadavam mais, então não tinha ninguém mais na prova. Só que eu nadei a final achando que tinha alguém na raia 2, e nadei forte para passar, e a pessoa não saía do meu lado. Quando cheguei, vi que não tinha ninguém, era água no óculos. E no final foi bom porque melhorei meu tempo!

Mas outra prova que me marcou foi em 2009, quando eu fui para o Minas treinar com o Vanzella. Na Copa do Mundo, no Rio, em 2010, eu peguei medalha nos 200 e 400 medley. No Finkel, quando a Joanna deslocou o ombro, eu ganhei as três provas, 200 borbo, 200 e 400 medley. Foi triste porque a Joanna não estava e aconteceu o que aconteceu, e ela sempre foi referência. Mas ganhei as minhas provas, ganhei da Georgina, fiz 4’52”, foi a competição perfeita, sabe?

Falando na Joanna, vocês pararam juntas né.. como você vê a natação feminina hoje?
Acho que a natação feminina tem que ser mais unida, tem que ter um Centro de Treinamento para a mulher. Não tem jeito, mulher é muito mais emotiva, isso de treinar só com homem afeta muito.Teria que ter o que o Vanzella está fazendo lá no SESI. Mulher entende mulher, TPM, entende quando você ganha um dia e a outra sai puta da piscina. Acho que seria um bom jeito de dar uma alavancada. Mulher é competitiva igual homem, mas nos clubes acaba ficando uma ou outra. A Carol Bilich por exemplo, que treina sozinha, imagina se tivesse alguém do lado?

Por que você começou a nadar?
Eu tenho 4 irmãos. O mais novo sempre teve asma, pneumonia. A gente estudava a tarde e de manhã ficava sem fazer nada. Aí minha mãe colocou ele na natação, mas ele não ia, e acabou me colocando também para eu levar ele pra aula. A Fabiana começou logo depois. Quando ele parou a gente foi pro Joquei, já competindo. A Fabiana quando era petiz 2 já ganhou Brasileiro Infantil. Eu treinei no Joquei até 2003, e em 2004 fui pra Unisanta. Era Júnior 1, e meu técnico cubano voltou para os EUA. Minha irmã já era campeã sul-americana e resolveu ir pro Santa e eu fui atrás. Sempre estudei muito, estava em colégio forte em Goiânia, mas quando vi ela indo, resolvi ir também. Ela foi para a faculdade, e eu transferi para o colégio. Deu super certo para mim, para ela não, tanto que parou logo depois. Deu muito certo com o Marcio Latuf, foi onde eu cresci.

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Como foi sua relação com os técnicos ao longo da carreira?
Teve o Gustavo, o cubano, foi ele que me colocou na natação. Na época era só eu e minha irmã. Às vezes a gente chegava brigadas no treino e ele falava: vocês não vão treinar hoje, vão fazer as pazes. Ele era um pai.

Depois teve o Marcio que eu cheguei quando era Junior 1. Uma história dele que eu lembro foi que ganhei todas as finais B que eu nadei um ano, e ele falava que eu era café com leite, porque era a época que o Santa tinha todas as meninas de medley. Foi um ano muito bom.. eu era a única da equipe principal que estudava, então treinava a tarde, e a Monique Ferreira também, então foi muito bom. Eu tinha toda atenção dele, era novinha. Foi ele que me colocou no PAN, no Sula, tenho muito a agradecer a ele. 

Depois eu fui treinar com o Vanzella, que de relação técnico-atleta o que mais deu certo foi ele. Eu treinava forte, mas eu sempre dormi muito. Às vezes eu ligava para ele e falava que tinha acabado de acordar, pedindo desculpas, e ele falava: “tudo bem, vem a tarde”. Dava muito certo com ele, o que ele falava eu fazia. E foi uma seqüência legal, em 2010 eu nadei o 4 Nações, peguei medalha, nadei o Pan Pacific, nadei a Copa do Mundo, o Finkel que eu falei e no Open peguei atleta mais eficiente, em Guaratinguetá. Tudo que eu almejei, eu alcancei. Foi super marcante na minha vida.

Em 2011 teve todo o problema quando ele foi mandado embora. Foi bem chocante, eu achei que ia parar de nadar. Já estava um pouco velha para nadar. Mas o Dudu me acolheu. Ele tinha um jeito diferente, eu falava que não ia nadar porque estava cansada, ele falava para eu ir, ou eu estava em casa dormindo, ele mandava mensagem. Ele pegou o fundo e o meio fundo e depois separou as duas equipes. Eu acabei sobrando. O treino do Vaccari era muito velocidade, e o do Dudu era muito fundo. E nesse momento o Dudu foi muito compreensivo. Eu treinava com o fundo mas ele adaptava. Se o fundo fazia 20×400, eu fazia 12×400 medley, por exemplo. Devo muito a ele. Foi a época que eu me formei, então ele entendia a época de fim de curso, sabe? E no final treinei com o Scott, foi pouco tempo, não tive uma relação como os outros, mas me ajudou a terminar minha carreira. 

Tem algum recado para deixar para os leitores do blog?
Eu queria dizer que estou muito feliz com a minha decisão mesmo, mas é aquela coisa, a natação é uma vida. Quem está nela vive aquele mundo. Então eu diria para os leitores aproveitarem, curtirem, os atletas precisam disso. Eu sou uma eterna torcedora. Torço por tudo, para ver meus amigos nas Olimpíadas. Quando abrir a venda de ingressos eu vou estar lá…

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0 comentários em "Entrevista: Larissa Cieslak"

  1. kika disse:

    Um SER HUMANO sensacional que faz falta em qualquer lugar!
    Mais sucesso nessa nova etapa, não tenho dúvidas de que será brilhante!
    Beijos nosso Lalá

  2. Larissa Cieslak disse:

    obrigada pela oportunidade e o meu MUITO OBRIGADA A TODOS OS ENVOLVIDOS NESSA TRAJETORIA QUE ME AJUDOU A MOLDAR QUEM SOU HOJE!!!! todos os tecnicos, os atletas, as equipes multidisciplinares por onde passei…. OBRIGADA!!!!

  3. Maressa Nogueira disse:

    Lala, fico feliz por saber que você fez uma boa transição entre a carreira de atleta para a profissional e acadêmica que se inicia. Que também, para isso, teve profissionais que entenderam a importância de auxiliá-la nesta fase. Não vou te desejar boa sorte, porque você é competente e dedicada demais para contar com sorte, mas desejo que você tenha sempre esse seu “sexto” sentido aguçado, a sua alegria estampada em seu sorriso e objetivos cada vez mais desafiadores, pois sei que conquistará todos. Parabéns pela carreira que se encerrou, a presente e a que está construindo! Vou mostrar ao mais jovens (infantis e juvenis que treino) um pouco do que é ser atleta através dessa sua entrevista. Um grande exemplo! Bjão.

    • Larissa Cieslak disse:

      Maressinha, ainda bem que quando nadei na Unisanta tinha voces mais velhos como exemplo, uma geraçao que todos estudavam e estavam ao mesmo tempo que se dedicando a natacao tbm constuindo um futuro… foi uma honra treinar com voce e parabens por onde voce esta tambem… so sucesso sempre!!!! =)

  4. João Pimentel disse:

    Foi uma enorme honra ter a oportunidade de treinar com você LALA!!! você sabe quanto a admiro!! Seu sucesso na engenharia é nítido!! Grande beijo!!

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