Entrevista: Larissa Martins Oliveira

17 de março de 2014

Entrevista com Bia Nantes3 comentários em Entrevista: Larissa Martins Oliveira

“Eu estou acreditando no impossível”. Com personalidade forte, Larissa Martins Oliveira é um dos maiores destaques da nova leva de velocistas brasileiras. Natural de Juiz de Fora e nadadora do Pinheiros desde 2011, Larissa tem 21 anos e é especialista no 100 e 200 livre.  A nadadora estreou em Mundiais de piscina longa em Barcelona, no ano passado, fazendo o melhor tempo do revezamento 4×100 livre na ocasião. Campeã Sulamericana em Santiago, no Chile, no início deste ano, Larissa falou em entrevista sobre sua carreira, os objetivos para esse ano e a relação com o técnico André Ferreira (Amendoim).

Beatriz Nantes: Você ficou bem emocionada no pódio do 100 livre no Sulamericano semana passada. O que essa vitória e essa competição representaram para você?
Larissa Oliveira: Essa competição foi meio que um passo que eu precisava passar. O início desse ano tive alguns problemas. Foi difícil, desde o primeiro dia de treino, não foi fácil. Eu precisava ter um resultado que me mostrasse que esse foi o caminho certo, que está tudo tranquilo, certinho mesmo. Quando eu vi que eu tinha conseguido ganhar, que fiz um resultado legal, foi uma realização.

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Campeã Sul-Americana dos 100 livre Foto: Satiro Sodré/SSPress

BN: Gostou do tempo também?
LO: Gostei. O meu melhor é 55’’2 em Barcelona abrindo revezamento, e oficial é 55’’3, do Open. Eu achei que para a época foi bom, como todo mundo estava pesado, achei que foi um tempo bacana, bem perto do meu melhor.

BN: Qual o objetivo para esse ano?
LO: A competição do ano é o Pan Pac [Pan Pacific] né. O que eu quero para esse ano é isso, apesar do índice ser muito difícil, principalmente para o feminino, que ainda somos inferiores. Mas estou acreditando.

BN: Você nada bem os 100 livre, os 200 livre, e mesmo os 50 livre. Qual sua prova favorita?
LO: Na verdade a que eu gosto mais é os 100 livre. Mas eu sei que a melhor prova é os 200 livre. No momento não está sendo, acho que por causa de encaixe. Só os 50 que eu não gosto muito. É muito rápido! Não consigo pensar, me concentrar, falar  “força, vamo”.

BN: Você acha que a leveza é um diferencial seu, já que você não é tão alta.
LO: Realmente a coisa da leveza é uma vantagem minha, todo mundo fala que tenho uma posição na água muito boa. Esse negócio da desvantagem de tamanho, teve uma época que eu fiquei “Ah, não sou alta, não sou forte, será que eu tenho chance a nível mundial?”. Só que esse ano eu comecei a pensar diferente. Já que é tão difícil, que é tão impossível como todo mundo fala, eu estou acreditando no impossível. No sentido que, por mais que eu seja menor, eu acredito.

BN: Seu submerso é muito forte. Você treina para fazer 30m (15m na ida e 15m na volta)?
LO: Sim, a gente treina bem pesado para o submerso. É uma vantagem que eu sei que consigo tirar de todo mundo, onde eu realmente torço para tentar me destacar.

BN: Foi no Pinheiros que surgiu isso, ou você já focava nisso antes?
LO: Eu sempre tive um submerso bom, e no Pinheiros eu aprimorei ele junto com o Amém [Amendoim].

BNComo é sua relação com ele? Você sempre exalta ele nas suas vitórias.
LO: Quando eu cheguei aqui eu não tinha nada, família, amigos, não conhecia quase ninguém. E desde quando eu cheguei comecei a treinar com ele. Eu senti como se ele fosse meu porto seguro, que tudo que precisasse poderia contar com ele. Isso ajuda muito, a gente não tem só o atleta-técnico, eu sei que ele é um apoio para mim. Aconteceu de cogitarem a hipótese de treinar com outro técnico no Pinheiros, por conta do esquema, quando aconteceu eu bati bem o pé, só fico se for para continuar com ele. Ele me passa confiança de que eu consigo chegar nas Olimpíadas, me coloca para cima, está junto comigo.

BN: Como foi essa vinda para São Paulo? Antes, você sempre tinha morado em Juiz de Fora?
LO: Sempre morei lá. Cheguei a nadar no Botafogo mas treinando com meu técnico, o Gérson, em Juiz de Fora. Quando eu era mais nova eu ia muito para seleção de categoria, e no Multinations eu conheci o Carlão. Meu pai é corinthiano roxo, eles se deram bem. O Carlão me chamou para nadar lá e eu fiquei 1 ano nadando pelo Corinthians, e no final do ano o Pinheiros me chamou. Só que como eu não tinha terminado o 3º ano, minha mãe falou para eu ficar em Juiz de Fora, e depois viria para São Paulo. Esse um ano, nadei de novo pelo Corinthians, e aí o Pinheiros me chamou de novo. Eu já tinha acabado a escola e pensei em vir, tentar dar uma alavancada. Cheguei no Pinheiros em 2011.

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Foto: Satiro Sodré/SSPress

BN: Foi difícil?
LO: Foi difícil ter que deixar minha mãe, pai, irmã, eu era muito apegada. Isso me fez sofrer um pouco, é a parte que eu menos gosto, de não ter a família por perto. Só que meu sonho é grande. Eu sei que em Juiz de Fora eu não ia chegar perto dele. Então ficou uma balança. E minha mãe me incentivou, e sempre que dá meus pais vem para cá também.

BN: Que sonho é esse?
LO: Meu sonho é um pouco ousado. Eu acho que ir para as Olimpíadas já é uma satisfação grande. Ir, muita gente vai. Eu queria ir e ter um resultado expressivo lá.

BN: Você pensa nisso para 2016 já, ou para 2020?
LO: Eu quero para 2016, é o meu foco. Eu até estava conversando com uma amiga no Chile, que eu não tenho tempo a perder. Se eu for para 2020, ótimo, mas não quero depender de 2020, acho que minha hora já é 2016.

BN: Como é sua rotina aqui em São Paulo, você mora sozinha?
LO: A rotina é bem dividida por período, cada época tem um volume diferente, tanto de água como musculação. Agora a gente está num período de 10 treinos + 3 sessões fora. Moro com o Daniel Orzechowski, meu namorado.

BN: Vocês treinam juntos? Como é essa relação?
LO: Agora a gente não está treinando mais junto, mas antes a gente treinava. Então era tudo junto. É uma questão de se adaptar, não é fácil ficar 24 horas junto, mas tem a parte do apoio que é bom. Ele sempre sabe o que eu estou passando.

Daniel e Larissa

Daniel e Larissa

BN: Você tem algum ídolo na natação?
LO: Como eu vim de cidade pequena, nunca fui muito ligada no esporte nível mundo. Tanto que quando eu comecei, não sabia quem era Phelps, Lochte, ninguém mesmo, eu não acompanhava. Depois que eu vim, eu comecei a ver que o horizonte é mais amplo do que eu imaginava. Comecei a ter mais vivência, com a Flavia Delaroli, Michelle Lenhardt, a Gabi Silva, essas pessoas são meu ponto de referência, que eu via como ter a atitude que elas tinham em competição. Ídolo mesmo eu não tenho, mas a princípio, quando eu comecei, foram elas. Hoje como eu tenho ido para competições internacionais, vejo muito essas meninas, já começo a me espelhar nelas. Eu vejo a Katinka [Hosszu], que ganha um milhão de provas, a Missy Franklin, que também nada os 200, a Ranomi [Kromowidjojo], que é campeã olímpica. Eu comecei a olhar para todo mundo.

BN: O que você tem achado da programação da CBDA, de levar vocês para competições fora?
LO: O ano passado foi quando eu comecei mesmo a viajar para fora. Eu fui convocada para a Copa do Mundo de Singapura, e fui bancando mais duas. A CBDA deu o Mare Nostrum, como preparação para Barcelona. Essas viagens vão mostrando que não é tão distante. Acho que o grande salto foi por conta dessas competições. Eu comecei a reparar em tudo. Mesmo coisas pequenas, ver como elas fazem aquecimento fora da água, ativação, ver como elas iam soltar depois da prova. Eu tento absorver o máximo.

BN: Como foi a experiência do Mundial de Barcelona?
LO: Eu fiquei muito feliz por ter ido, em contrapartida como eu só fui para nadar revezamento, queria ter nadado uma prova individual. Chegando lá eu pedi para abrir o revezamento, foi onde eu fiz o meu melhor tempo e foi o melhor das brasileiras, assim ganhei a vaga para o 4×100 medley. Achei que foi mais um degrau que eu subi, mas eu queria ter nadado prova individual.

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Gracielle, Alessandra, Daynara e Larissa em Barcelona Foto: Satiro Sodré/SSPress

BN: Você falou que a meta esse ano é o Pan Pacific, você está pensando também no Mundial de curta ou o foco é para longa mesmo?
LO: Eu penso nos dois, mas até pela data, eu penso em uma coisa de cada vez. Primeiro tem o Maria Lenk, tentar fazer o índice do Pan Pacific. Aí, se fizer, tem o Pan Pac. Depois disso, zerou, é pensar no índice para Doha.

BNVocê gosta de treinar?
LO: Eu gosto de treinar. Todo mundo fala que não, mas eu tenho muito prazer em chegar no clube. Acho que também porque a equipe está muito bacana, ficou um pessoal bem legal, e isso ajuda. Eu treino meio fundo, tem o pessoal de medley também e o Fabio Santi, que é o que mais nada junto comigo.

BN: Você falou que não acompanhava muito natação mundial em Juiz de Fora, ao mesmo tempo você sempre se destacou na base. Você sempre quis ser nadadora?
LO: Era uma coisa minha. Eu me sentia muito bem na piscina treinando. Aquela coisa que eu não sabia porque, como. Eu só sabia que eu gostava.

BN: Quando começou a nadar?
LO: A nadar, desde quando eu me entendo por gente. Competir mesmo foi quando virei petiz. Quando era infantil já comecei a ganhar brasileiro. No juvenil, eu continuava indo para os pódios, mas não cheguei a nadar tão bem, de ganhar minhas três provas. Depois no júnior voltei a nadar melhor, e aí vim para o Pinheiros.

BN: Nessa época de juvenil, ou em algum outro período difícil, você já pensou em parar de nadar?
LO: Tem época que é muito difícil, a gente pensa mesmo. Não em parar de nadar, mas em desistir, e não porque quer, mas porque é um caminho difícil. Mas é esse mesmo caminho que motiva. Quando a gente consegue aquela coisa pequena, é muito gratificante, e isso vai motivando.

BN: Qual foi seu momento mais marcante na natação até hoje?
LO: O que mais me marcou , que é uma prova que eu lembro até hoje, foi o Finkel de 2011 em Belo Horizonte. Era o que eu queria, ganhar um Finkel, mas quando eu vi que realmente tinha conseguido, lembro como se fosse ontem, bati a mão no placar e sai correndo chorando para abraçar o Amém, agradecer. Foi uma das cenas mais marcantes.

Campeã do 100 livre no Finkel 2011

Campeã do 100 livre no Finkel 2011

BN: Deixe uma mensagem para os leitores do blog
LO: Acho que é isso que eu falei. Muita gente falava para mim que eu tinha que ficar mais forte, porque não sou grande, e que seria muito difícil, porque minhas provas eram 50, 100 e 200, que tinha que ser alta, que todas são altas…. e hoje eu não me importo mais com isso. Todos falavam que é impossível. Eu passei a acreditar no impossível. Se tem algo que eu sempre falo pra mim, é que eu acredito no impossível.

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3 comentários em "Entrevista: Larissa Martins Oliveira"

  1. […] não fica pensando nisso então? Já que você mencionou ela, quando entrevistamos a Larissa, ela comentou que de tanto ouvir as pessoas falando sobre  ser difícil nadar essas provas sem […]

  2. Rosilene Bernardes disse:

    Parabéns, Larissa! Objetivo, determinação e amor foram e são elementos fundamentais na sua vida.
    Minha sobrinha tbm pratica natação em um clube em Juiz de Fora e tem o mesmo nome q vc;Larissa Oliveira.
    Natação é tudo de bom! Larissa é o nome!
    Parabéns! :-)

  3. […] Mas ela quer mais, muito mais. Larissa Martins é exemplo de dedicação, como você pode ver na entrevista feita há uns meses com a Bia. E é mais uma na lista de atletas do coach Amém, que são pura raça nos […]

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