Entrevista: Marcos Macedo

29 de setembro de 2014

Entrevista com Bia NantesNenhum comentário em Entrevista: Marcos Macedo

Um dos convocados para o Mundial de Doha no final deste ano, Marcos Macedo desafia a lógica da natação no Brasil hoje. Treinando em Natal, cidade onde nasceu, Marcos divide os treinamentos com a faculdade de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cursada em período integral. Esse será seu segundo Mundial (o primeiro foi em 2011, em Shangai), e o primeiro em que está classificado para nadar prova individual, o 100 borboleta. Há dois anos, ele ficou a apenas 7 centésimos do índice olímpico na prova. Marcos falou sobre a carreira com a Swim Brasil no intervalo entre uma prova de reposição na faculdade e seu treino.

Beatriz Nantes: Não é só que você faz faculdade: você faz Medicina, e na Federal. Como é conciliar isso com os treinos?
Marcos Macedo: O
 principal é ter organização. Eu procuro ter horários bem determinados. Faço até tabelas, planilha de excel, com horários de estudo. Basicamente minha rotina é aula todo dia de manhã e de tarde, treino a noite, e estudo quando chego em casa. Se falta alguma coisa, procuro completar no final de semana.

Como fica a questão do descanso?
A parte do descanso é o pior, o que fica mais prejudicado. Quando tem competição eu procuro adiantar os estudos para conseguir ficar uma semana tentando dormir cedo, colocar o sono em dia. Mas realmente o descanso fica comprometido, não tem como dormir mais do que 4 horas por dia. Mas tento compensar no final de semana também. 

E no caso da faculdade, como os professores lidam com as aulas e provas que você perde por causa de competição?
Geralmente é tranquilo, o pessoal costuma me ajudar bastante. Nunca tive problemas. No início do semestre eu sempre falo com cada professor e digo quando vou faltar, peço para adiantar o que for preciso.

Dá tempo de fazer musculação ou você está só nadando?
Faço trabalho fora d’água sim, de duas a três vezes por semana, dependendo da época. Saio da aula entre 17h30 e 18h, vou para o treino, e saio direto para musculação, onde fico até 21h30. Faço o mesmo treino de musculação do Minas.

O clube aceita bem o fato de você treinar em Natal, ou preferiam que você treinasse em Minas mesmo?
Por eles eu treinaria lá. Mas eles apoiam, nunca passaram por cima dessa questão. Tanto que as propostas sempre foram de transferir a faculdade para lá, para estudar e treinar. O problema é a questão da distância. Em Natal é tudo perto. Lá é distante. Além disso, a grade é diferente, eu teria que atrasar um período. Não achei viável me mudar para Minas e só conseguir treinar duas vezes por semana com o pessoal por causa dos horários.

Marcos Macedo treina em Natal e defende o Minas desde 2012

Marcos Macedo treina em Natal e defende o Minas desde 2012

Você treina sozinho em Natal?
Eu tenho uma equipe, a CEI, treinamos na piscina do SESI. A maioria do pessoal é mais novo, juvenil, júnior. É uma equipe pequena.

Li uma reportagem em que você dizia que já teve propostas para clubes do Sudeste, mas você optou por sempre treinar ai, fora a época que foi para os EUA. Por que?
Desde a época do colégio eu me preocupava em como ia ser conciliar os estudos com o treino se fosse para fora. Como os clubes maiores veriam essa minha relação, sempre tive medo. Uma coisa que me ajuda é estar numa cidade pequena. Da minha casa para o hospital são 5 minutos, para a piscina são mais 5, tudo é perto. Isso facilita. Desde pequeno eu sabia que meu desejo era fazer Medicina, desde o primeiro ano do colegial, quando começaram os primeiros convites de treinar em outros clubes.

Desde pequeno você já sabia também que queria nadar? Você já era destaque na base, foi para Mundial Junior, nadou Chico Piscina…
Desde pequeno eu já estava competindo e sempre gostei. Entrei na natação por causa da asma, com 5 anos. Desde mirim já estava competindo, sabia que queria nadar.

Teve algum momento da sua vida que você só nadou, sem estudar?
O único momento que fiquei sem estudar foi no final de 2011 e no primeiro semestre de 2012. Fui para os EUA, na Flórida, treinar no Davie com o Coach Alex, focando a seletiva olímpica. Treinei junto com o Felipe Lima. Mas foi a única época.

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E no final você ficou a 7 centésimos do índice para Londres, né? Como foi ficar tão perto?
No momento você fica muito triste, claro. Hoje em dia eu vejo que eu me atrapalhei na verdade. Não fiz o índice porque psicologicamente não estava preparado, eu acho, o nervosismo atrapalhou. No início foi bem complicado, talvez se eu tivesse ficado mais distante do índice teria sido mais fácil. Mas hoje eu encaro bem. Sei que tem coisa para melhorar, visando as Olimpíadas de 2016.

Agora você fez o índice para uma prova individual em Mundial pela primeira vez. Qual o sentimento?
Eu gostei bastante, apesar de não ter treinado especificamente para essa seletiva. A gente estava focando no índice, mas sem esquecer que o principal objetivo é o Open, que vai ser seletiva para o Pan e Mundial de longa. Então a competição foi muito boa, porque foi até melhor do que estávamos esperando. Esperava nadar para 50”4, então fiquei mais feliz pelo tempo [50”06, quarto melhor tempo do mundo na temporada] do que pela vaga. Gostei muito do resultado.

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Agora que você vai ao Mundial, como fica o foco até o final do ano? Mundial ou Open?
Agora que a gente nadou um pouco melhor do que o esperado, conversei com meu técnico e vamos tentar fazer uma programação para nadar bem tanto o Mundial como o Open. O objetivo é estar pelo menos em uma final, que eu acho que com 49 alto dá para entrar. Resolvemos dar um pouco mais de importância para curta, mas sem esquecer que o Open vai ser muito importante.

Marcos e Nicholas Santos serão os representantes do Brasil no 100 borbo em Doha

Marcos e Nicholas Santos serão os representantes do Brasil no 100 borbo em Doha

E ainda tem as provas no final do ano…
Sim, eu volto do Mundial e uma semana e depois tem o Open. Com relação as provas, vou estar tranqüilo, mas as aulas vão até a primeira semana de dezembro, então vou viajar antes de terminar. Provavelmente na volta vou passar uma semana em Natal repondo as aulas práticas, que não vai ter como adiantar.

Você estuda durante as competições?
No início da faculdade era mais tranqüilo, dava para ficar uma semana sem pensar nisso. Hoje em dia está mais complicado, então eu costumo tirar umas 3  horas por dia para estudar. Pelo calendário das competições eu costumo ter um dia sem provas, então consigo passar uma manhã toda estudando no hotel. Mas nada que atrapalhe na competição.

Para 2012 você trancou a faculdade, acha que deve fazer isso de novo até 2016?Acho que sim. É provável que sim, mas vou ver quando entrar no internato como vai ficar minha rotina. Por enquanto eu já sei como é, e o período mais pesado já passou.  Se for necessário e eu perceber que não vou conseguir treinar tão bem, eu tranco.

Costuma ser senso comum que nos EUA não existe esse problema de estudar e treinar. Imagino que para uma faculdade como Medicina seja diferente. Você tentou algo por lá?
Quando estava nos EUA até mandei alguns emails, o coach Alex foi atrás e entrou em contato com algumas faculdades. O que a gente viu é que eles dão bolsa para os primeiros 4 anos, que é o que eles chamam de pré Med. Nesses 4 anos eu conseguiria nadar NCAA. Mas lá são 8 anos de faculdade , então depois tem mais 4 anos que eles não costumam dar bolsa de jeito nenhum. Seria muito caro, bem inviável mesmo.

Li uma reportagem recente em que você comentou que teve uma crise de asma um dia antes do 4×100 livre em Shangai, que foi seu primeiro Mundial. Isso ainda acontece?
Hoje em dia é bem raro, depois que fiz um tratamento, as crises são bem esporádicas. Só uso as bombinhas em caso de necessidade. Em Shangai aconteceu isso, mas não acho que foi o principal determinante para eu não nadar tão bem como o Maria Lenk. Teve um pouco de nervosismo, de chegar no primeiro Mundial. E a convocação foi de última hora, meu planejamento não foi feito para lá [Marcos Macedo foi convocado em substituição a Nicholas Santos, que teve o resultado do Maria Lenk anulado por ter resultado adverso para furosemida em exame antidoping]. Fui convocado duas semana antes, cheguei 5 dias antes, ainda estava com jet lag. Acho que isso foi o principal, mais do que a crise de asma.

No mesmo ano você pediu desconvocação do PAN de Guadalajara, alegando que não estava treinado adequadamente para a competição, uma atitude que foi bem elogiada na época. Como foi isso?
Foi exatamente isso. Tinha juntado Mundial, Universíade, e eu não estava na convocação inicial do PAN. Tanto que alguns atletas foram cortados um pouco antes, teve uma confusão. Em Shangai eu tive informações de que não ia nadar o Pan, então tirei férias depois do período na China com as duas competições. Quando saiu a convocação, vi que faltava pouco tempo e não teria condição de ir. 

A medalha no 4×100 livre, que você ia nadar, era quase garantida. Mesmo assim você preferiu não ir?
A vontade era estar lá. Mas não achei que seria correto viajar sabendo que não tinha condições de nadar o revezamento. Eu ia nadar só as eliminatórias. Apesar de querer, não tenho nenhum arrependimento. O Nicholas acabou convocado e estava em ótimas condições.

Marcos foi prata no revezamento 4x100 livre no Universíade em 2011, ao lado de Chierighini, Nicolas Oliveira e Henrique Martins

Marcos foi prata no revezamento 4×100 livre no Universíade em 2011, ao lado de Chierighini, Nicolas Oliveira e Henrique Martins

Falando nisso, e o 100 livre? Continua treinando para essa prova ou o foco é total no 100 borboleta agora?
Hoje o 100 borbo é prioridade. Mas desde o Maria Lenk eu já estou treinando um pouco mais para o 100 livre, tentando fazer mais algumas séries. Eu tenho que ajustar muito minha técnica de crawl, é o que estou tentando trabalhar para ter melhor resultado. Vamos ver se a partir do próximo ano já consigo buscar esse revezamento.

Sua rotina é incomum para muitos nadadores e também acaba sendo um exemplo para quem acha que não tem como estudar e treinar no Brasil. Qual você diria que é seu principal diferencial?
O principal é organizar o tempo. Procuro não perder tempo durante a semana com outras coisas, ficando na internet, vendo facebook, essas coisas. Já que não tenho tempo, chego e utilizo o tempo da melhor forma possível. Nas horas que é para estar na aula, concentro na aula, no treino a mesma coisa. É tudo uma questão de organização.

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