Entrevista: Walter Pereira Lessa

5 de janeiro de 2015

Entrevista com Bia Nantes2 comentários em Entrevista: Walter Pereira Lessa

Walter Pereira Lessa viveu em dezembro  seu momento mais feliz como nadador profissional. Durante o Open, o nadador que treina em São José alcançou o índice para o Mundial de Kazan no 50 livre, com 22”17 – tempo que também é índice para as Olimpíadas do Rio. A marca o coloca em quarto lugar no país na prova em que o Brasil é mais forte, com Cesar Cielo e Bruno Fratus entre os três melhores do mundo em 2014. Exaltando o processo e focado nos detalhes, Waltinho, como é conhecido, se diz “neurótico e sistemático”, fala sobre o ano que ficou fora da natação, a meta de fazer 21”, o Team Velocity e como é morar longe da esposa e filho em busca de seu sonho. “Sem sonho a gente não vive. É o que sustenta nosso coração, nosso dia a dia”.

Como é seu treinamento?
Sou formado em Educação Física e esse ano de 2014 resolvi ter autonomia sobre meus treinos. Pedi para o head coach de São Jose  fazer o meu treinamento, tanto fora como dentro da água. Sou fascinado por metodologia do treinamento. Queria ver se conseguia achar o segredo, o que faltava. Fiz de tudo nos clubes que passei, Pinheiros, Minas, Unisanta, mas não consegui achar a chave. Uma coisa que sempre pesou para mim, por exemplo, foi o final de prova. Fui treinando, me conhecendo, montando as séries, e fazendo mudança, me encontrando. No segundo semestre eu treinei com o pessoal do Team Velocity, do Alan Vitória, com a Daiene Dias. Foi uma experiência legal por ter a mesma filosofia, o treino é bem intenso, com volume pequeno, mas são 10 a 11 sessões por semana, e a preparação física é muito forte.

Esse ano vai manter assim?
Pra esse ano eu vou manter assim. Quero tentar competir mais fora do país, principalmente no primeiro semestre, antes do Maria Lenk. 

Como foram esses treinos com o Alan? 
Tenho uma grande amizade com ele. Quando passou o Finkel, resolvemos treinar no Maria Lenk juntos, pela estrutura que oferece. Ficamos um mês lá, entramos com um mini projeto e a comissão do Maria Lenk aprovou. A estrutura de lá é absurda, foi um dos motivos dessa pilha toda. Estamos tentando marcar mais um treinamento antes que seja interditado, talvez eu fique algumas semanas em Vitória. Mas os treinos eram muito fortes. De 6 dias de treino, a gente vomitava 4 dias.

O cross fit faz parte dessa preparação física forte que mencionou?
Como sou formado e tenho esse beneficio de entender o treinamento de força, explosão, sei que hoje para o velocista a preparação física é extremamente importante. Resolvi dar essa ênfase. Faço o cross fit, mas adapto. Consigo agregar algumas coisas e transferir para biomecânica da natação. E o cross fit trabalha muitas coisas importantes, agilidade, força, coordenação motora, levantamento olímpico. Venho agregando isso fora da água para implementar.  

Ainda mais no 50 livre, que cada detalhe é importante…
Quanto mais velho a gente fica, mais neurótico e sistemático vai ficando também. O que você come, o que você treina, tudo é importante. Esse último semestre eu assistia umas 50 vezes a prova da final olímpica, uma final de Mundial, vendo o Césão, Fratus nadando. O 50 livre é um xadrez. Você tem que saber como vai fazer os primeiros 15 metros, os 10 metros seguintes, os próximos 15, ver atentamente cada fase de prova. É muito estratégia. Vou aprendendo a lidar com isso. Sempre tive os primeiros 15 a 25 metros entre os 3 primeiros do Brasil, e meu rendimento caía drasticamente depois. Comecei a estudar o que estava faltando. 

Além de ser um xadrez, o 50 livre é a prova mais forte do Brasil hoje. Mentalmente, como é lidar com isso?
No Brasil, os 10 primeiros vão estar ali, entre os 50 do mundo. Junto com o peito, é a prova que mais tem atletas bem ranqueados. Apesar de estar disputando uma vaga com os top 3 do mundo, que são o Césão e o Fratus, isso me fortalece demais. Disputar com quem foi medalhista olímpico, de mundial, fortalece a gente e faz entender que ali todo mundo é humano e são adversários. Ninguém é Deus e nem é invencível. Mentalmente eu sei disso.

Como é sua estrutura de treinamento? Você faz e gosta do trabalho com psicólogo esportivo?
Tenho um grupo multidisciplinar que me da assistência. Nado pela FADENP em São José, e tem a lei de incentivo municipal, com parte da verba indo direto para o atleta. Tenho uma equipe multidisciplinar, e semanalmente faço trabalho com psicólogo, que adoro. Acho importante demais, principalmente na semana que antecede a competição, que é quando gera mais ansiedade e desconforto.

Além de nadar você também é professor na Companhia Atlética. Como é conciliar essa rotina?
Como temos uma parceria, tenho flexibilidade grande pra poder competir e viajar pra treinar. Eu busquei isso porque estava um pouco estressado só nadando, pensando apenas nisso, achei que seria uma boa válvula de escape. E além de trabalhar, eu também sou pai de família….

Como é conciliar isso também?
Meu filho mora com a minha esposa em São Lourenço, Minas. Vou para lá a cada 2 semanas, fica a 200 km de São José. Hoje faz parte da minha vida estar presente na vida deles. Minha dedicação como pai é sempre maior que como atleta. Eles são minha fonte de inspiração maior, prova de que vale a pena o sacrifício que eu faço, morar longe, passar perrengue. A gente se pergunta sobre isso, se vale a pena perder um pouco da infância do meu filho. Mas quando ele fala que me viu na televisão, quando eu levo uma medalha, é como se fosse o maior presente do mundo. Minha esposa me apoia muito. É um sonho deles também.  

familia

Por que você começou a nadar?
Comecei aos 5 anos, meu pai também foi nadador em Catanduva, foi campeão paulista, hoje é campeão master. Sempre tive envolvimento com a piscina. Ja fui um projeto de jogador de futebol, mas uma hora tive que escolher.

Se arrepende da escolha?
Não me arrependo. Eu gosto e amo muito, hoje com mais propriedade eu sei que fiz a escolha certa. A gente sempre busca um índice, é difícil. Por mais que seja irônico isso, depois de 15, 20 anos, eu sei que escolhi certo, mesmo que eu não consiga uma vaga.

Você ficou um ano afastado da natação, por que isso aconteceu?
Eu já passei por duas cirurgias, e a primeira, em 2003, foi depois que eu cai de moto. Na época eu estava em um processo de muita raiva. Estava passando do júnior 2 primeiro ano para segundo ano, e tinha ganhado todos os brasileiros de infantil até então. Na época estava bem perto do índice para o PAN de Santo Domingo, que era 23”15. Foi uma mistura de raiva e decepção, então fiquei afastado mesmo, não queria nem ver as provas. Então comecei a faculdade de fisioterapia, queria esquecer a parte aquática.

E por que você voltou?
Quando eu me recuperei fiquei pensando se ia voltar. Ainda estava pensativo quando abri meu email e vi que tinha uma mensagem do Marcelo Vaccari, hoje técnico do Minas e meu técnico por vários anos, um grande amigo. No email, ele perguntava se eu ia voltar ou não, e ele colocou uma foto minha no pódio. Aquilo ali me fez ver automaticamente que precisava voltar. Voltei e o meu pensamento era melhorar o mais rápido possivel, nao tinha mais dúvidas.

Qual foi seu momento mais feliz na natação até hoje, uma prova inesquecivel?
Sem dúvidas foi conseguir o índice do mundial e olímpico no Open. Foi uma mistura de alívio e felicidade, por tudo que eu passei. Foi o momento que pra mim poderia parar ali. Era um sonho conquistar um índice, independente da vaga ou não. Foi um sonho realizado, uma consagração, o momento mais feliz da minha vida profissional como atleta.

Captura de Tela 2015-01-05 às 21.17.38

Você lembra como foi a comemoração, com quem você falou, quando saiu da piscina?
Uma das primeiras pessoas foi meu psicólogo, que foi me acompanhar no Rio. A gente visualizou isso junto, inclusive minutos antes da prova fizemos um trabalho de visualização. A palavra foi essa: executar o que tínhamos previsto. Mas seria injusto não mencionar outras pessoas. Nadei em vários clubes e conheço bastante gente, todo mundo veio me cumprimentar, me dar parabéns. Eu fiquei muito feliz por isso. Todo mundo que conhece minha história de superação, de voltar de lesão, de ter varias mudanças, ser pai de família, pegar estrada fim de semana. Técnicos de outros clubes, amigos, todos comemoraram. A minha grande felicidade foi essa, ver as pessoas realizando aquela vitória comigo.

E agora que um sonho foi realizado, quais os próximos?
Agora a meta é o Maria Lenk de 2015. Voltei a treinar já no dia 25, para não perder condicionamento. Tive uma lesão em setembro e fiquei 6 semanas parado, então não senti a necessidade de tirar 2 semanas de férias. A meta agora é nadar para 21. Está bem palpável. E tentar conquistar alguma vaga para alguma seleção absoluta, que seria minha primeira. A meta é essa.

walter

Está treinando também para o 100?
Eu vinha treinando tanto para o 100 como o 50. Estou aprendendo a nadar o 100 agora, e melhorei mais de um segundo da minha melhor marca. Acho que o 100 é uma prova aberta, não vejo tantas pessoas garantidas. Provavelmente são 6 vagas para o revezamento, os 4 mais 2 reservas. Também é uma prova para pensar em brigar, não vejo porque não. Estou muito focado e neurótico com os detalhes mesmo. No final do semestre, fiquei assistindo os vídeos das provas de 50 livre. No Mundial de curta, vi o Manaudou e o Césão nadando. Encontrei vários defeitos na minha braçada e consegui arrumar, isso agregou muito para o Open.

Em uma semana você conseguiu mudar?
Sim… o Diogo Yabe me ajudava, eu mandava video para o Alan. Em 1 semana e meia consegui fazer essa mudança. Percebi que para o 50 livre, na braçada submersa, você não precisa dobrar, do jeito que ela entra, você puxa. Se você reparar quando entram com a palma da mão, esperam centésimos ou milésimos de segundos para fazer o apoio da braçada e já puxar. Na semana que antecedeu o Open, fiz 22’’60 usando esse estilo. Só faltava polir, raspar…

E deu certo…
Deu… está dando. A gente vive em um mundo de provações. Você tem que provar que é bom pai, bom nadador, que consegue sustentar essa pressão.  Só eu sei onde quero chegar. Eu preciso arrumar pessoas que acreditam também. Se você consegue segurar a pressão, ótimo. Em 2013 pensava se ia continuar nadando. Fiquei nessa dúvida. E eu pensava nisso, que sabia onde queria chegar. Por isso quis tanto montar minha periodização. 

Tem algum recado que queria deixar para os leitores?
Fora o recado de feliz ano novo, tem 3 palavras que eu sempre falo: sonhar, executar e perseverar. Sonhar porque sem sonho a gente não vive. É o que sustenta nosso coração, nosso dia a dia. Executar é colocar em prática, é o que eu preciso fazer para realizar o sonho. E o mais importante é perseverar. Na dificuldade temos que continuar, nem sempre as coisas vão ser maravilhosas. É a base que eu tenho hoje em dia.

Walter Pereira Lessa é patrocinado pelo Hotel Faro e FADENP. Apoio: Cross Fit Vale, cIa atletica, Caldinho São Dimas, AESJ, Instituo Ferrarezi, Clinicas Tsuru.

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2 comentários em "Entrevista: Walter Pereira Lessa"

  1. Danilo disse:

    Excelente entrevista! Parabéns ao Waltinho e sucesso nesse ano! Muito legal essa escolha e as perguntas, parabéns Bia!!!
    Danilo

  2. Eloisa Bressan Soares disse:

    Parabéns, Lessinha! Continue com sua garra, força e fé! Sucesso pra vc! Um grande abraço

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