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Entrevista: Talita Lima Ribeiro

6 de outubro de 2014

Entrevista com Bia Nantes, UniversitárioNenhum comentário em Entrevista: Talita Lima Ribeiro

Talita Lima Ribeiro parou de nadar profissionalmente em 2008, depois de uma carreira que incluiu um Mundial de longa (Barcelona-2003) e um Pan-Americano aos 17 anos. Nona colocada no Mundial de curta em 2004, Talita passou três temporadas treinando e estudando nos EUA, em Virginia Tech. Nadadora do Pinheiros até os 23 anos, ela reencontrou a natação na faculdade de Medicina da Unicamp. Depois de nadar seu último Intermed, competição que reúne as principais faculdades de Medicina de São Paulo, ela falou sobre o significado da natação e do esporte:  “Hoje é muito claro para mim que minha vida não existe sem a natação”.

Sua decisão de parar de nadar profissionalmente, quando entrou na faculdade, foi difícil?
Para falar a verdade, no momento que eu estava parando não foi difícil. Tem algumas coisas que dão saudades até hoje, como alguns momentos e as oportunidades que eu tive nadando profissionalmente, que não poderia ter mais fazendo Medicina. Finkel, Troféu Brasil, Maria Lenk, é o melhor que tem na natação de alto nível e sempre foi um prazer pra mim competir defendendo o Pinheiros. Mas no fundo, quando fiz essa transição para o universitário, o que mais sentia falta era dos objetivos e  sonhos que a gente tem quando nada. E sentia falta mais do dia a dia também, de todos os desafios para cumprir diariamente como profissional. Aqui os desafios são diferentes. As prioridades mudam um pouco, não de ordem, mas de proporção. 

Que tipos de sonhos?
Pensar em Olimpíada, em PAN, essas coisas eram muito gostosas, mas não tenho mais.

E você sente que realizou os sonhos que tinha?
Profissionalmente, acho que a única coisa que faltou foi Olimpíada. Eu fui para Mundial de longa, Pan-Americano, Mundial de curta, bati recorde sulamericano, fui para Copa do Mundo, fui estudar fora. Tudo isso foi a natação que me deu.

Com 17 anos você se classificou para o PAN depois de ser campeã brasileira absoluta. Era algo que você esperava?
Eu já tinha estado no pódio do absoluto antes, quando treinava com o Vanzella. Evolui muito com ele. Em 2003 comecei a treinar com o Albertinho e veio o trabalho de força dele, percebi que estava melhorando. Mas não tinha visão de que ia ganhar. Eu nem estava pensando em PAN. No Sul-americano da Odesur, que foi antes do Troféu Brasil,  tinha feito 1’04”34 no 100 costas sem estar polida, estava muito bem. Quando liguei para o Albertinho para falar do tempo, ele me deu parabéns e falou que eu tinha chance de fazer algo espetacular no Troféu e pensar na vaga para o PAN. Até então isso nem estava na minha cabeça. Lógico que eu sabia dos resultados das meninas, mas nunca fui muito ligada nisso. Meu foco era melhorar e baixar meu tempo, meus objetivos raramente eram ligados a ganhar algo ou bater recorde. Quando ganhei fiquei muito surpresa e feliz, a Fabíola era absoluta. Eu nem tinha parado para pensar que para ganhar eu tinha que ganhar dela, sabe?

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Talita comemora vitória no Troféu Brasil em 2003 e vaga para o PAN e Mundial

Deve ter sido incrível nadar esse PAN e o Mundial.
Foi incrível e meio que aterrorizador. Eu tinha 17 anos e logo de cara a primeira seleção absoluta foi Mundial de longa e Pan. Era eu e Gustavo Borges, eu sentia um pouco de inadequação, estar fora do lugar. Mas isso fazia parte do friozinho na barriga, de fazer algo novo e maravilhoso. Foi uma experiência meio difícil de descrever. No Mundial eu aquecia, me concentrava, e quando saia da água passava o Ian Thorpe! Eu pensava: “como assim, eu tô aqui com o Thorpe?” No Brasil, já nadava absoluto desde infantil 1, estava acostumada a estar na mesma competição das grandes figuras do Brasil, lá não. Tentei me concentrar para fazer minha parte, mas infelizmente eu não nadei bem essa época. Lembro que nessa rotina a gente ficou 3 semanas em altitude no México e ficamos muito tempo viajando, ganhei peso e nadei mal. Eu me senti mal com isso, principalmente no PAN, porque queria representar bem o país e sentir orgulho do que estava fazendo lá. Apesar disso tudo, foi uma experiência absolutamente incrível de abrir a mente, foi muito importante pra construir o que eu penso de esporte e de carreira.

O que, por exemplo?
Ver o nível de seriedade e profissionalismo que existe por aí. Tinha muitos profissionais envolvidos nas equipes de outros países: biomecânico, fisioterapeuta. Lembro de entrar no ginásio e ver macas e macas. Também tínhamos nossos massagistas e o PC [Paulo Cesar Marinho – Biomecânico da Seleção Brasileira] já estava nas viagens, mas você olhava as outras equipes e a sensação é que aquilo já estava acontecendo há muitos anos. Uma coisa que me impressionou muito foi ver a arquibancada lotada, me fez pensar bastante na nossa cultura em relação ao esporte. Aqui tem sempre as mesmas pessoas nas competições, os familiares e corajosos que ficam do nosso lado. Eu acho que a natação tem que ser, além do esporte maravilhoso e transformador que é, prazeroso para assistir e inserir esse esporte dentro da realidade.

Ano passado o Mundial foi lá em Barcelona de novo, você acompanhou?
Sim, e lembro que não conseguia desligar. Pensava que 10 anos atrás eu estava lá, é um negócio muito louco. E aquele lugar é tão monumental, aquele pé direito gigantesco… é uma experiência muito única. E o PAN também foi muito legal. Toda prova saía medalha pro Brasil. Muita gente que subia no pódio eu tinha visto treinando no México, mesmo quem eu não conhecia, são pessoas que aprendi a admirar bastante pela perseverança. Quando treinamos em altitude, não estávamos nas melhores condições, a curta era aquecida e a temperatura da piscina longa era sempre ruim, uma piscina cheia de jato. Lembro de um pessoal do fundo fazendo umas séries malucas enquanto todo mundo estava do lado de fora esperando, e eles destruindo. Ter essa experiência de treinar e depois ver essas pessoas tendo resultados legais, foi muito gostoso e bonito de ver.

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Você gosta de acompanhar natação hoje em dia?
Eu adoro. É mais fácil acompanhar pela internet, e quando vejo notícias, vou atrás dos vídeos da prova, porque ver ao vivo é mais difícil. Tento acompanhar principalmente o pessoal do SESI, por causa do Vanzella, e o pessoal do Albertinho também.

Você falou bastante do Vanzella, ele foi o ‘técnico da sua vida’? 
Do jeito que foi minha carreira, não dá para eu apontar um técnico da vida, mas tiveram 3 grandes pilares: o Taba, Vanzella e Albertinho. O Taba tem aquele perfil de técnico disciplinado. Treinei com ele no infantil e eu sempre fui tranquila, disciplinada. Mas ele foi uma pessoa que me colocou na direção certa de como levar aquele potencial para frente. O Vanzella foi quem me fez amadurecer em relação ao esporte, enxergar que meus resultados podiam me levar para a seleção. E o Albertinho foi quem realizou essas coisas comigo. Enxergo os três como mentores, eles sempre foram meus companheiros e são pessoas importantíssimas na minha vida. Quem treina esporte de alto rendimento passa muito mais tempo treinando do que fazendo as outras coisas. Eles foram pessoas que ajudaram a construir minha personalidade, meu caráter, meus valores. Princípios e valores.

Nas categorias de base você sempre se destacou, desde essa época já queria fazer Medicina?
Eu não lembro de algum momento em que eu não nadasse e também não lembro de não querer ser médica. Sempre nadei e sempre quis ser médica. No terceiro colegial todo mundo estava pensando em faculdade e, no meu caso, foi o ano do PAN. Estava preocupada em repor aula e passar de ano – mas meu colégio sempre me ajudou muito. Minha cabeça estava em outro lugar mas eu sabia que queria Medicina, que estava só adiando. Em 2004 eu só nadei porque tinha Mundial de curta e Olimpíada. Eu sabia que se eu entrasse no cursinho ia parar de nadar. Meus três irmãos pararam de nadar para estudar. Na metade do ano surgiu a proposta dos EUA e eu nunca tinha ouvido falar de ninguém que nadasse e fizesse Medicina, para mim eram coisas completamente incompatíveis. Foi quando ouvi dizer de uma pessoa em Pernambuco que também queria ser médica. Conversei com ele e fui fazer a Pré Medicina, que são 4 anos, onde você pode ter bolsa e nadar o NCAA. Não tinha ideia do que ia fazer depois, mas foi uma oportunidade de conciliar estudo com natação de alto nível, então topei.  

E como foi lá?
Foi maravilhoso. Eu nunca tinha morado fora, e logo de cara fui morar em outro país. Mas eu tinha suporte para tudo, não tinha perrengue. Logo nos primeiros dias, quando conheci as pessoas, me senti tão acolhida que fiquei muito tranquila. Eles se esforçaram muito para me ajudar. Tem uma pessoa que te ajuda a ver sua grade e não bater com o treino, te ajuda com as matérias. Até nos feriados, não precisava nem pedir para ninguém e já ia para casa da família de alguém. A sensação era de que se você quisesse, não ia ter empecilho. A estrutura é montada para você ter sucesso.

Quanto tempo ficou lá?
Fiquei 3 semestres. Voltei porque  um familiar adoeceu e eu precisei ficar. Eu sabia que quando precisasse ficar, ia ser de vez. Ai voltei para o Pinheiros, em 2006. Treinei até maio de 2007, e ai comecei o cursinho.

Como você lida com isso de ter tentado ir para as Olimpíadas e ficado fora?
Não foi um trauma, nem um pouco. Às vezes me dói mais pensar no PAN até. Em 2004 eu estava bem, estava satisfeita. Conseguir ou não conseguir é outra coisa. Ter focado no 100 livre foi um pensamento estratégico. E no final eu baixei muito meu tempo, fiz 57”, mas as meninas nadaram melhor. Acho que até por essa questão de meus objetivos sempre terem sido voltados para evoluir e sair da piscina sabendo que nadei bem. Vi que terminei a temporada do jeito que queria. Não ir para a Olimpíada não foi algo trágico.

No mesmo ano você foi para o Mundial de curta em Indianapolis e lá nadou bem.
Esse Mundial foi bom. Eu tinha nadado bem o Finkel, que foi a última seletiva, e foi quando eu bati o recorde sul-americano e fiz o índice individual. Foi uma conquista muito marcante para mim, porque das outras vezes eu tinha ido pelo revezamento. Lá nadei bem também, fui para a semifinal, por pouco não entrei na final.

Comemorando índice individual para o Mundial de curta de 2004

Comemorando índice individual para o Mundial de curta de 2004

Em uma entrevista para o Daniel Takata você falou sobre como foi ver o Popov, ele era seu grande ídolo?
Olhando agora, é difícil falar em grande ídolo. O que aconteceu é que aprendi a admirar as pessoas e ter grandes exemplos de caráter e dedicação, nem tanto de resultado. O Popov era um ícone, uma figura muito peculiar que eu tinha ouvido falar muitas vezes. via ele como uma figura histórica da natação mundial. E achava provocativo e interessante aquela coisa dele nadar de sunga, meio contra a tecnologia. Quando eu fui para o Mundial e ele passou, eu congelei, de olhar e falar “Meu Deus, é o Popov”. Era mais uma admiração pela história dele.

Tem alguém que você destacaria dessas pessoas que foram exemplos de caráter e dedicação?
O Rogerio Romero foi um grande exemplo, o Gustavo Borges e a Flavinha [Flavia Delaroli]. Com ela eu pude conviver mais que os dois, admirava demais o jeito dela levar o esporte, com muito compromisso e ao mesmo tempo bom humor e leveza. Teve uma época que convivi mais com o Gustavo, porque treinávamos com o Albertinho. Ele sempre me passou uma impressão de integridade. Fico na dúvida se isso é algo fácil de ver. Não que as outras pessoas não sejam íntegras, mas ele tem um jeito de ser que realmente passa muito isso para as pessoas. Acho ele acima da média nesse sentido e admiro mais do que os resultados. 

Quando você entrou na faculdade, imaginava que ia continuar nadando e que ia se envolver tanto?
Não, foi uma surpresa. Quando passei no vestibular, achei que tinha um passe para parar de nadar e me concentrar nos estudos. Não tinha muita noção de como era essa atmosfera do esporte universitário, que te arrebata quando você chega na faculdade. Não só o esporte, mas a cultura da Universidade. Quando entrei e vi que tinha técnico, treino, estrutura para o esporte, comecei a conhecer e tomei gosto muito rápido, vi que seria um esquema diferente do profissional. Eu sou muito mais feliz por ter continuado nadando esses 6 anos, pela maneira que foi. Foi muito importante na minha vida. Algumas pessoas me perguntavam se eu também ficava nervosa, se tinha medo antes de nadar, mesmo já tendo competido antes, e ficavam abismadas quando eu dizia que sim. Porque no fundo, é o quanto você dá de importância para aquilo.

Equipe da Unicamp

Equipe da Medicina-Unicamp

Por que você acha que foi importante, depois de ter integrado a seleção brasileira e conquistado tanta coisa como profissional?
A minha experiência na faculdade me fez repensar muita coisa. Eu tive contato com pessoas que nunca nadaram na vida, não sabiam nem dar uma braçada, e toparam vir treinar com a gente. Porque viram nisso algo que podia fazer delas pessoas melhores. Eu entrei em 2009, mas em abril rompi um ligamento e fiquei sem treinar. Então quando eu entrei de cabeça nessa experiência aqui, ver o que as pessoas traziam para o esporte, me fez colocar as coisas em outra proporção. Meu foco aqui sempre foi construir uma equipe, ajudar as pessoas a entender que o esporte tem papel transformador importante, e ajudar as pessoas a passarem por isso dessa maneira construtiva. Construímos uma relação de companheirismo, fraternidade, a noção de que o esporte não é só uma questão numérica.

É lógico que quem nada profissionalmente e está no alto nível vai ter a performance medida por isso. Mas aqui o foco é outro. E eu me orgulho bastante de como conseguimos formar uma equipe que pensa assim. De construir as coisas no dia a dia, mesmo sendo estudante, de se propor a fazer algo diferente, que é um risco que normalmente as pessoas não querem correr. O esporte é um revelador do caráter, da personalidade, das coisas que podem ser melhoradas. Por tudo que eu vivi lá, esse é um grande valor que eu enxergo do esporte. Fico me perguntando se o que eu sinto hoje em relação a natação é o jeito que os técnicos de base sentem, quando vêem uma criança na frente deles, e conseguem ver a personalidade desses atletas se formando.

Agora você está no sexto ano e acabou de nadar seu último Intermed, como vai ser parar?
Vai ser muito difícil. Quando eu senti que estava concluindo a minha etapa na natação profissional, estava um pouco decepcionada com meus últimos desempenhos e também com algumas outras coisas do esporte. Por isso achei que ia parar de nadar na faculdade. Mas quando você entra, tem um prazo. São 6 anos, é uma data imposta, que não necessariamente é quando você está cansado, precisando de um tempo. Eu estava no pique total, me dedicando com muito prazer. Vai ser muito duro. Só não foi ainda porque estou ocupada com a parte acadêmica, tendo que estudar para a residência e precisando pensar nessa parte da vida. Mas quando isso baixar, não vou mentir, vou sofrer bastante.

Tenho  esses dois momentos para comparar. Em 2008, eu pensava que talvez se eu parasse tinha um monte de coisa da minha vida que ia melhorar, ia estudar mais, ser melhor aluna, ter tempo para outras coisas. E hoje é muito claro para mim que minha vida não existe sem a natação. Sei que vou continuar nadando, não sei se águas abertas, nadando duas vezes na semana, nadando como master. Talvez demore para acontecer essa volta, mas não tem jeito. Hoje eu sei que sou mais feliz e melhor nadando. A natação está consolidada em mim, faz parte da minha vida. Se tudo der certo e eu continuar aqui, ainda vou ver meus queridos atletas e companheiros. Isso talvez sane um pouco essa despedida.

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