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Perfil: Laura Onuchic

3 de julho de 2015

PerfisNenhum comentário em Perfil: Laura Onuchic

“A gente vive em um mundo muito pragmático, na faculdade é assim. Você está sempre pesando o custo benefício, o risco de se dedicar, e se você pensa muito, no que está ganhando de verdade, o tempo que está perdendo.. às vezes parece não fazer muito sentido. Eu faria tudo de novo, não me arrependo de nada. Para quem não curte tanto ou vê tudo como sofrimento, realmente não é uma coisa que você deva fazer. Porque você investe muito, mas não tem um retorno de dinheiro, de trabalho. Acaba tendo a importância que a gente dá para a coisa. Se você dá grande importância e te faz feliz, vale muito a pena”. Laura Onuchi, aluna e atleta da Medicina-USP, resumiu nesse trecho o espírito do esporte universitário. Não poderíamos estrear essa seção com ninguém melhor.

Família

Família

Diferente de muitos destaques da natação universitária (Talita Lima Ribeiro, Lucas Naufal, Caio Pantarotto, Henrique Mattos, para ficar apenas na Interusp e Intermed), Laura não tinha um passado como nadadora federada. Aprendeu a nadar quando criança e fez vários esportes, era diretora do grêmio do colégio, mas não chegou a competir por clubes. Prima de André Schultz, atleta do Pinheiros que fez parte da seleção brasileira, Laura é de uma família que incentiva o esporte e tem currículo acadêmico invejável: seus pais e seus 2 irmãos fizeram Faculdade de Medicina na USP.

Aprovada direto do ensino médio no vestibular em 2008, Laura se encantou com a Atlética. “Morei nos EUA quando era criança e lá tinha muito incentivo ao esporte, várias competições para crianças, gincana, coisas para desenvolver atividades motoras. Eu participava de tudo. Quando voltei para São Paulo, com 10 anos, achava que ou você era sócio de um clube e treinava ‘profissional’ ou ficava no colégio, não tinha muito intermediários. Na faculdade eu entrei e achei tudo aquilo muito legal, tinha o clube [A AAAOC, Atlética da faculdade, possui uma estrutura de 35 mil metros quadrados com piscina, campo, quadras e pista de atletismo] que era animal. E você é super acolhido pelos times da faculdade. Os técnicos eram os melhores, muitos de nível nacional, que são da seleção e dão treino para a gente na hora do almoço”.

Viciada em treino
Um desses técnicos era o da natação: Sérgio Marques, o Serjão. Técnico de atletas como Felipe França no Corinthians, ele permanece como técnico da Medicina-USP. “Desde o primeiro tiro que eu dei ele falou que meu tempo era bom para o que eu nadava, que era horroroso. Falou que eu ia aprender e ia ficar bom”. Laura ouviu isso e tomou uma decisão simples: treinar, e treinar muito.

“O Interusp era minha Olimpíada. Eu trocava plantão para treinar, fazia de sábado e domingo para poder ir nos treinos. Deixava de ver meu namorado, ia treinar virada, fazia de tudo para conseguir ir, era a disciplina mais pesada do mundo. No começo eu nadava 2 mil metros e saia morta, era aquela coisa de rodar até o nado parar de ser nojento. O Sérgio ficava segurando uma borracha para eu aprender a sair, era só rodar e repetição. No 2o e 3o ano era pegar bagagem e músculo, rodava 3, 4, 5 mil na base. Cheguei a ir para os swimming camps que o Sérgio fazia na casa dele em Atibaia, com os atletas profissionais, e nadava 10 mil por dia. Alguns atletas profissionais nadavam na piscina da Atlética, como Lucas Salatta e Juliana Kury. Vira e mexe eu ia e caia no treino deles. A Ju me dava dicas, porque nadava 50 livre. Achava que esse era o caminho”.

Lyuji, Daniel Igami, Sergio e Laura

Lyuji, Daniel Igami, Sergio e Laura

No primeiro ano da faculdade, Laura já estava nadando para 29”no 50 livre nos revezamentos e era titular. “Eu achava bem justo. Treinava, melhorava, dava resultado. O que eu gostei na natação é que era outro nível de treino, todo mundo levava muito a sério, a equipe era super respeitada. O treino era sofrido, forte mesmo, mas as pessoas iam. Ai no segundo ano, o Sérgio arranjou uns Jakeds para a gente”.

Foi exatamente ai que eu conheci a Laura: uma menina alta e forte, que não tinha o nado mais bonito, mas chegou no Interusp para ganhar o 50 livre, atropelando todo mundo. “Hoje eu vejo que até no revezamento B todo mundo tem traje, mas naquela época a gente usava elanca! Ele insistiu que ia ser bom e conseguiu para todas as meninas, animou muito a gente”. Deu certo. E mais do que ganhar sua prova, Laura foi a protagonista do título da Medicina, algo que não acontecia há anos.

Recordes
O primeiro recorde da Interusp veio um ano depois, em 2010, no 50 costas (32”39). E o recorde do 50 livre, sua principal prova, foi superado em 2011 (27”74), em sua quarta participação na competição, duas semanas depois de machucar o pé, e permanece até hoje.

“Olhando em retrospecto eu acho que tinha um biotipo bom para o negócio, peguei o momento bom, me dava bem com as pessoas, e treinava muito mesmo. Depois ficou ainda mais legal porque meu irmão começou a treinar lá, antes mesmo de passar, e quando passou, minha família inteira era da faculdade. Tudo foi muito especial, mas extremamente exaustivo”.

Forte, evoluindo, ganhando e em um meio onde predominam insinuações sobre doping: Laura era um alvo perfeito sobre o tema. “Eu sei que isso existe no meio universitário, mas eu não procurei saber e nem me ofereceram. Sou totalmente contra e nem poderia fazer nada pelo meu histórico familiar”. Deixo meu orgulho de lado e falo para ela que acho que as acusações eram despeito (e falo porque já me inclui, vergonhosamente, nesse coro). Perguntei o que a Laura sentia sobre isso. “Eu achava que tirava um pouco do valor do que eu tinha feito. Para mim era muito mais do que recorde, era uma conquista pessoal, conseguir competir do lado de meninas que tinham uma história na natação. E ai o que eu ouvia era: ela toma bomba. Mas eu pensava: sou forte, vou fazer o que? E a única pessoa para quem todos esses tempos fazem diferença era eu. Não me dava dinheiro, fama, só felicidade. Eu queria ficar me explicando no começo, depois parei de ligar”.

Se os títulos de clubes são importantes em Maria Lenks e competições absolutas, nos torneios universitários eles são uma verdadeira obsessão. É claro: lá, todo nadador pensa, também, em sua prova individual e em sua melhor marca, mas conquistar o título pela equipe é o motivo de tudo. Não é melhor nem pior do que no absoluto, mas certamente diferente.

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“Ganhamos no meu segundo, terceiro e quarto ano. No quinto, foi uma competição toda errada. Uma nadadora boa nossa, Flavinha, se formou e parou; não teve placar da FAP, e no costas não pegaram minha chegada direito. Perdemos para a Poli. Mas no sexto ano foi pior. Eu tinha certeza que a gente ia ganhar. Entrei pensando que era meu último ano, estava muito fixo que ia dar certo. Achei que ia bater o recorde do crawl e borbo e que o revezamento ia dar certo. Ganhamos o primeiro rev, bati o recorde do borbo, e do crawl fiquei muito perto. Quando chegou no revezamento medley, antes de cair eu já vi que não ia rolar, porque a menina do peito da Poli fazia 35”. No fundo eu já sabia que não ia, mas achava que ia dar… era para ter sido perfeito, e foi ruim”.

Redenção
Como num filme, dois anos depois o roteiro foi idêntico, mas com final distinto. Já formada mas fazendo residência, Laura ainda podia nadar pela faculdade, mas a decisão não era tão óbvia. Depois de fazer um estágio fora, nos EUA, e animada com dois veteranos da residência que também nadariam (Lyuji e Igami), Laura resolveu treinar para a Interusp. Sérgio montou um esquema de 5 semanas de treino para a competição. “Foi um negócio extremamente focado. Duas semanas de “base” de 2.500, e chegando perto, 1.500, tudo curtinho, intervalado, com muita série para 100% e A3, tudo com muito objetivo. Nadei bem e ganhei o borbo e o crawl, e levamos o revezamento. No de medley foi disputa até o final, igual dois anos antes, mas dessa vez ganhamos por 2 centésimos”.

Sérgio, o técnico do Corinthians, ficou alucinado na arquibancada e pulou na piscina depois do título. “Ele fala que sente o mesmo de um Maria Lenk ou Mundial, porque gosta da natação, do esporte em si. Ele já disse que gosta de dar treino para nós porque fazemos só pela paixão. Ele fala: ‘Vocês tão se ferrando, não tem dinheiro, mas chega a competição, é o dia mais importante da vida de vocês’. Acaba contagiando. Ele se alimenta e cria isso para a gente, e faz com muita paixão”.

A ficha demorou a cair quando o 6o ano acabou. “Fiquei meio desorientada, demorei para entender que não ia rolar mais. Eu olho com tanto carinho, realmente aquilo foi a minha vida. Meus melhores amigos são de lá mesmo, fui madrinha de casamento. Em alguns momentos, realmente, o curso passava a não ser prioridade. Mas você aprende tanto, conhece pessoas, fica muito disciplinado, que é uma coisa importante também, ser resiliente, a residência começa muito puxada, mas você aprende a segurar o tranco. Mas uma hora tem que acabar. Não sei se foi o último. Essa Interusp pra mim foi sensacional, foi um dia que voltei no tempo. Ficar com os técnicos, conversar, foi muito bom”.

No profissional, no master, no universitário, não existe esporte melhor que esse.

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