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A dor e a delícia de ser atleta no Brasil

24 de junho de 2015

Diário de Joanna13 comentários em A dor e a delícia de ser atleta no Brasil

Olá vocês! Demorei bastante pra me “render” a ideia de criar um blog, mas minha vontade de me expressar sempre foi muito grande, então pensei: por que não juntar isso tudo e refletir junto com vocês?

Estou animada com esse desafio, cheia de idéias e aceitando sugestões do que querem ler por aqui.

Decidi começar propondo uma reflexão e tocando num ponto delicado (se não fosse assim não seria eu, né?rs) Com a aproximação dos Jogos Pan Americanos (menos de um mês, yeaah!) e Jogos Olímpicos dentro de casa daqui a um ano, os atletas começam a ganhar mais espaço na mídia.

Sabe aquelas histórias que vocês acham bacana quando lêem nessas épocas? De superação, lesão, retorno, fracasso, vitórias e derrotas? Essa é nossa rotina sempre, gente, não acontece de 4 em 4 anos, não somos atletas apenas para esses eventos, somos atletas todos os dias, e assim como vocês, somos suscetíveis a erros e é sobre isso que quero falar.

A imprensa e o público criam e alimentam as figuras em cada edição desses jogos: a promessa, a surpresa, a decepção, e atire a primeira pedra o atleta de alto rendimento que nunca fez parte de uma dessas categorias, rs.

Pensem comigo, em 2004 eu fui chamada de “revelação”, “namoradinha do Brasil”, “grata surpresa” entre outros, tudo isso pelo quinto lugar que conquistei na prova dos 400 medley; por outro lado, a Daiane dos Santos também foi quinto lugar e foi chamada de “decepção”, “amarelona”.

Nós duas conquistamos a mesma colocação, e ela foi injustamente crucificada por não ter trazido uma medalha pro país, enquanto eu virei mártir. Eu vos pergunto: vocês acham que ela não queria essa medalha? Vocês acham que ela não treinou pra essa medalha?

Vamos agora para 2008, um ano após o Thiago Pereira conquistar aquele tanto de ouro nos Jogos Pan Americanos do Rio em 2007, ele foi finalista em Pequim em duas provas, mas não trouxe medalha, acabou crucificado e chamado de vários nomes horríveis pela imprensa e pelo público, já o Cesar Cielo surpreendeu levando o ouro nos 50 livre.

Quatro anos depois, o Thiago finalmente conquista sua sonhada e suada medalha olímpica, dai o discurso muda, ele se torna o herói, enquanto o Cesar, que nos trouxe um bronze em Londres é chamado de decepção. Olhem só: decepção por ter conquistado sua terceira medalha olímpica, mas não foi ouro, então não serve.

Quem de vocês nunca se preparou pra conquistar algo e na hora sentiu um frio na barriga? Uma insegurança? Quem nunca teve medo do fracasso? Quem nunca se sentiu desmotivado por não conquistar o emprego sonhado? Ou por não ter passado num concurso? Ou ter reprovado no vestibular? Isso é a vida, algumas pessoas ganham espaço na mídia (atletas principalmente) e é compreensível que o público se espelhe e queira isso junto com o atleta, até ai tudo bem, é uma troca de energia bacana, a gente sente e agradece por isso. Mas num universo como o do esporte de alto rendimento são sempre 3 medalhas em jogo para pessoas do mundo inteiro buscando.

Ou seja, por mais que a gente treine, se esforce, se empenhe, em alguns momentos nós não vamos corresponder com as expectativas (nossas e dos outros), iremos surpreender, iremos nos reerguer, iremos buscar, iremos lutar incansavelmente, isso eu posso garantir, mas medalha? São inúmeras as variáveis.

Sendo assim, acontecerão novamente: agradáveis surpresas e tristes decepções, cabe agora a vocês, público, serem mais brandos e mais compreensíveis, se colocarem no lugar do atleta que trabalha pra representar vocês e sentem uma imensa dor, quando são chamados de “amarelão” ou então “foi pra Olimpíada para passear”.

Que tal pensarmos a respeito?

Abraços.

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13 comentários em "A dor e a delícia de ser atleta no Brasil"

  1. Carlos oliveira disse:

    Bem vinda….já te sigo no Twitter e vou fazer o mesmo no teu blog….posso colaborar com comentários pq acompanho bastante…
    O escopo serão os esportes aquáticos, esportes olímpicos, ou esportes em geral?

  2. Tayronne disse:

    Uma grande parcela de culpa é da imprensa pois eles que colocam rótulos e como uma grande parte da população não tem criticidade segue o mesmo discurso, as pessoas nem pensam antes de falar, quando Ketleyn ficou em 3º na Olimpíada eu estava dentro de um mercadinho assistindo a disputa e ai o dono do mercadinho disse “Brasileiro é foda não ganha uma só fica em terceiro”, eu olhei pra ele e disse “vai la na Olimpíada ser terceiro pra ver se tu consegue” na mesma hora ele disse “é deve ser difícil mesmo chegar lá” , não sei se o que ajudou ele mudar de opinião se foi o que eu disse ou meu olhar fuzilante. rsrsrs, Parabéns pelo Blog e continue escrevendo, sucesso total para você na piscina e fora dela.

  3. Clarissa Ramos disse:

    Não poderia ter começado com melhor discussão!!
    Quem foi atleta sabe bem o que você está dizendo.
    Treinamos por horas e horas todos os dias, nos abdicamos de férias e momentos com a família para conquistar a tão almejada medalha de ouro.
    Mas no dia da prova tudo dá errado.
    Não por ansiedade… Não por “amarelar”. Simplesmente nada deu certo. Ou os outros atletas, que assim como você treinaram arduamente dia após dia, foram melhores.
    Em esportes individuais é um detalhe que define o vencedor. Em esportes coletivos é uma interação que deve estar em completa sincronia.
    É hora de compreender que não podemos ser apenas patriotas quando o atleta vence. Temos que torcer pela vitória sim, mas principalmente apoiar nas derrotas. Pois as derrotas desmotivam… mas ter o apoio da torcida faz uma diferença gritante. É o que nos põe de pé para dar a volta por cima e vencer.
    Hoje não sou mais atleta. Hoje sou espectadora. Hoje sou fã. E mais ainda, sou admiradora dos nossos guerreiros, que lutam contra seus próprios limites e contra as críticas muitas vezes injustas.
    Parabéns pelo texto.
    Bjo

  4. Flavia disse:

    Maravilhoso e verdadeiro seu texto!! Como os atletas precisam de respeito e sensibilidade da imprensa, de comentaristas e jornalistas que muitas vezes parecem completamente distantes da realidade que eles “deveriam” conhecer, antes de serem tão levianos!!!!! Obrigada, Flavia Chierighini

  5. Cheyenne disse:

    sabe Joanna, este sempre foi um dos meus grandes medos como mãe de um aprendiz de atleta! Acho o esporte ingrato! Eu acompanho de perto os treinos, vejo quanto se esforçam, mas se na hora não for campeão, fica um sentimento por parte dos de fora, de tarefa não cumprida! Muita pressão! Vc vai ser mãe um dia e vai entender essa minha aflição! Parabéns mais uma vez pelo post, e queria dar uma sugestão de tema a ser abordado: o início da sua carreira! Vc é espelho para muitos q começam, e nós país não sabemos ao certo qual a hora q essa brincadeira vira coisa séria! Acho q vai ajudar muito explicando sobre os investimentos que uma criança precisa de ter, além dos treino! ( alimentação, psicologia, fisioterapia…) beijos

  6. Renato disse:

    Bela estreia Joanna, muito bom o artigo. A pressão é forte, e não é para qualquer um!

  7. Juliana disse:

    Que belo texto de estreia!

    Concordo com alguém que já comentou aqui, sou jornalista mas vejo que a culpa maior é da mídia mesmo. Incita os espectadores a interpretarem dessa forma. Como se fosse “fácil”. Não sou da editoria esportiva mas gosto de acompanhar. E como joguei voleibol muitos anos sei o quanto é difícil e exige dos atletas.

    Faz muita diferença quando pessoas célebres usam suas vozes para as boas causas (como a da redução da maioridade penal). Parabéns e sucesso!

  8. Ed Araujo disse:

    Parabéns Joanna seu blog está em meu favoritos…….vc nos foi uma surpresa maravilhosa…..

  9. Eduardo Alvim disse:

    Primeiramente queria te parabenizar, pela atleta que vc foi e é, exemplo para todos que tomam conhecimento da tua história. Lembro de uma entrevista em que sua mãe falava em treinamento nas madrugadas, café da manhã no carro e outras coisas que valorizam cada conquista.
    Falando sobre a questão levantada por você, acho que um dos maiores problemas dos críticos, é a falta de conhecimento sobre os assuntos. Há alguns anos um cara criticou o povo, dizendo que o brasileiro se acomodava com um ridículo quinto lugar, conquistado pelo Thiago Pereira, e um conhecedor respondeu para ele o seguinte: ” Qual sua profissão? e ele respondeu: repórter. O conhecedor então disse: Imagine que houvesse uma votação e você fosse considerado um dos cinco maiores repórteres do mundo. É essa a importância de estar em quinto numa olimpíada” O repórter se calou e acredito que tenha entendido. A vida de atleta é cheia de dores e sacrifícios, mas com grandes alegrias também. A grande maioria das pessoas não faz a menor ideia do que é necessário para um nadador chegar a uma olimpíada. Não sabe quantos anos de preparação ele enfrentou desde a infância, para passar por todos os estágios que isso exige. Nossa imprensa está começando a mostrar a vida, o dia a dia, a história e os detalhes que cercam um atleta. Tomara que nosso povo, e os críticos também, comecem a entender que os atletas são assim como eles, humanos e pessoas normais, com erros e acertos, conquistas e derrotas, mas acima de tudo muito empenho em conseguir fazer o seu melhor. Tenho em meu pensamento que só com esclarecimento se consegue entender e respeitar os feitos de alguém, seja ele atleta ou não. A mídia apenas mostra o que um atleta está fazendo para ser campeão (às vezes), não mostra que aquela trajetória é feita de anos de sacrifício. É uma pena que alguém seja tratado de fracassado, ou amarelão, ou ridículo, por não ter sido campeão. O melhor exemplo que conheço no esporte chama-se Vanderlei Cordeiro, que deu uma demonstração ímpar do que é respeito, educação, espírito esportivo, ao não reagir com violência, desabafo ou falta de educação e falta de respeito, ao episódio em que a medalha de ouro seria sua, mas não foi. E depois, ele pulou de alegria ao ver que tinha ganho uma de bronze. O verdadeiro significado de campeão moral, para mim, é esse. Levante mais questões, para que possamos comentar. Mais uma vez, parabéns Joanna, sou um de seus admiradores.

    • Joanna Maranhão disse:

      Dudu, concordo com tudo que escreveu, principalmente falando do querido Vanderlei, basta 5 minutos de conversa com ele pra gente entender o contexto do que ele passou e aquela reação, ele faria tudo novamente. Gosto quando você diz que “respeitar os feitos de alguém, seja ele atleta ou não”, é exatamente isso, buscar o melhor de si, estamos todos fazendo isso quando levantamos pela manhã, uns de forma ética, outros querendo atropelar etapas e pessoas mas todos buscam evoluir, o equilibrio está em buscar sua evolução, respeitando o espaço do outro. Grande abraço!

  10. Deborah disse:

    Caí aqui no seu blog por causa de uma matéria em algum site aí sobre a “orientação” do COB sobre o que um atleta fala ou não quando está na concentração.
    E nos comentários, tinha um povo retardado falando que já que você não vai representar “87%” da população, que então devolvesse o dinheiro que o país investiu em você.
    Na hora toquei nesse mesmo assunto do post. Agora todo mundo quer ser representado por você, mas durante o ano todo, todas as dificuldades, quando os atletas do PAItrocínio, ou ir pra outro país pra conseguir viver sendo atleta, ninguém te representa, ninguém saí rosnando indignidade.
    E aí na época de competições importantes, vêm a mídia, cria toda uma expectativa e todos viram “fãs”, “brasileiros com muito orgulho”, e na hora que o atleta, mesmo tendo feito a melhor prova da sua vida,perde, começam jogar pedras, vociferar “não me representa”, xingar, acabar com a auto estima…

    Muita hipocrisia.
    Boa sorte no PAN.
    Estou com você.

    • Joanna Maranhão disse:

      Oi Deborah, obrigada pela mensagem. O posicionamento do COB é mais pra ter um controle mesmo, eles precisam manter um equilíbrio diante de uma situação como essa. A imprensa adora fazer o papel do bagunceiro (não todos os veículos, claro) e ai o atleta as vezes fica perdido nesse mar de elogios e críticas infundadas, o importante é o que eu e os outros atletas sentimos dentro da gente todos os dias, desde a hora que a gente levanta, até a hora que a gente vai dormir, a gente é atleta 100% do tempo, ser seguro de si mesmo, do quanto trabalhou e buscou, quando essa plenitude nos alcança, a agressividade não atinge, eu desejo que todos os atletas sintam isso que sinto, fico triste quando percebo uns ou outros tristes pelos comentários do público e da imprensa. Grande abraço!

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