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Depois que fui atleta de verdade…

4 de agosto de 2015

Diário de Joanna22 comentários em Depois que fui atleta de verdade…

Já ouvi de mainha diversas vezes: “eu era pior do que você, fazia e só depois pensava, mas depois que eu fui mãe…”

Certos acontecimentos e experiências mudam nossa vida completamente.

As vezes a gente opta por essas experiências, outras vezes a vida te joga no meio do mar em fúria e, ou você se vira, ou você se afoga.

É assim pra todo mundo, meus amigos, ninguém está a salvo de uma turbulência. E se você nunca viveu uma situação que te desafiou, sinto informar que você está preso a zona de conforto e isso não é um bom sinal.

O que eu estou tentando dizer é que, a partir do momento que você vive uma determinada situação que gera pressão, você se torna mais compreensivo com o outro.

Acredito que isso seja maturidade (viu mãe?Daqui a uns anos vou repetir essa frase pra meus filhos)

Ser atleta no sentido literal da palavra, teoricamente deveria fazer com que as pessoas se tornassem mais compreensivas.

Se você chegou até esse ponto do texto,  já foi ou ainda é nadador, me responda algumas perguntas:

– Você já se decepcionou com um resultado?

– Já criou uma expectativa em relação a uma prova e quando olhou pro placar o seu mundo desabou?

– Vai dizer que você nunca sentiu a pressão de um call room?

– Ou estava tão nervoso momentos antes da prova que pensou: “o que eu estou fazendo aqui?”

Se você respondeu SIM a uma dessas perguntas: Parabéns, você é um ser humano!

Se você respondeu NÃO a todas as perguntas: Meus sentimentos, mas você NUNCA foi atleta de verdade.

É fácil ser positivo quando a temporada é progressiva, as melhoras acontecem, os tempos despencam, todo mundo passa por essa fase “juvenil”, é uma maravilha!

Você só se torna atleta de verdade quando toma uma porrada, piora seu tempo, não faz um índice, não entra em uma final, quando as coisas dão errado e você ainda tem que se explicar pra jornalistas que nunca deram as caras numa sexta-feira pela manhã as 07h pra te ver treinar.

No ano passado eu assisti pouco do Mundial de Doha pela televisão, o que me chocou foram as publicações ao final da competição por parte dos “especialistas” da modalidade: CHUPA ESTADOS UNIDOS; BRASIL: CAMPEÃO MUNDIAL DE NATAÇÃO; ORGULHO DA NATAÇÃO DO MEU PAÍS; YES WE CAN.

Sabe a primeira coisa que pensei?

Que nesse ano, essas seriam as primeiras pessoas a criticar o desempenho do Brasil no mundial da Rússia.

Não porque eu estava prevendo um fracasso, mas por saber que seria após o pan americano, em piscina longa e num nível fortíssimo como nunca se viu.

E não é que eu estava certa?

São “ex atletas”, “jornalistas”, “treinadores” que criticam Cielo, falam em crucificação, decepção, vergonha, alerta vermelho ou coisa pior.

Sabe o que eu queria?

Queria ver todos esses dentro de um balizamento ali do lado de um Ryan Lochte ou de uma Katina Hosszu batendo no peito, passando por todo o processo, sentindo o que a gente sente, buscando como a gente busca, comemorando uma semi-final porque ela é o primeiro passo de tudo, sentindo um baita orgulho de ver o Nicholas ganhar sua primeira medalha em mundial de longa…

Ah como eu queria vê-los nessas situações, mas acontece que vocês nunca foram atletas de verdade, nunca vão compreender, portanto, jamais chegarão até aqui.

Antes de terminar esse post eu queria dizer que tenho tanto orgulho da minha semi-final dos 200 medley, foi simplesmente maravilhoso estar no meio desse ambiente, sentir o frio na barriga, me forçar, dar meu máximo, ver meu nome e meu país serem anunciados pelo locutor, e enquanto essas situações me proporcionarem prazer, eu vou continuar na batalha, ainda que uma vez ou outra eu fracasse, porque depois que eu fui atleta de verdade, eu me tornei uma pessoa mais feliz.

 

 

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22 comentários em "Depois que fui atleta de verdade…"

  1. Rosane disse:

    Foi exatamente por isso que com apenas 1 ano de trabalho vc pode sair da sua zona de conforto e perceber que tudo é possível!!! A cada dia vc prova isso…..keep searching, keep working!!!

  2. Camila disse:

    Sensacional joanna! Definitivamente quem hoje crítica não tem ideia do que é ser atleta de Alto rendimento, sofrendo pressões de todos os lados e ainda assim ter que manter o foco na competição. Me decepciono toda vez que leio no noticiário algo relacionado à “fulano decepciona”… enfim, continue sendo essa atleta exemplo que sempre foi! Nem imagino a sensação que deve ter sentido ao ficar na mesma sala da dama de ferro! Rs, falando nisso fica qui uma sugestão p um próximo texto: bizarrices dos atletas, seja no aquecimento, Call room ou vila, que você já presenciou nessas tantas competições as quais ja participou! Beijão :)

  3. alaide ferreira disse:

    mensagem linda ! parabenssssss

  4. Veridiana disse:

    Uma mensagem para todos, independente da experiência com o meio esportivo. Parabéns Joana! Pela atleta, mulher inspiradora, ativista e quase vegetariana! Não é difícil, sou ovo lacto desde 2006!

  5. Ricardo disse:

    Genial!
    Parabéns pelo texto.

  6. Leonardo disse:

    Sempre fico nervoso quando vou competir, sempre nadando os mesmos estilos. Quando eu aumentava meu tempo ficava muito bravo pensava em para de nada mais depois q li esse texto fiquei sem palavras.
    Tenho 13 anos e obrigado por me ensentivar a nadar.

  7. Ser atleta é ter a coragem fe entrar numa casa fe terror e sair intacto e sem medo!

  8. Patricia disse:

    Não sou atleta, competi um pouco em travessias de mar….. Mas é isso mesmo, não da para ouvir as críticas desse pessoal sem pensar no que vc falou !!!
    Parabéns !!!!!

  9. Nossa senhora… CONCORDO COM EXTREMAMENTE TUDO !! Adorei o texto e sou muitoooo sua fã 😛 <3

  10. Rodrigo G disse:

    Uma das coisas que o atleta também precisa lidar é com a expectativa dos outros: da família, do clube/academia, dos amigos, ai depois que se tornam famosos, dos fãs e dos “urubus”… Aliás, gostaria muito de ler um texto seu falando sobre isso. Como você lida com essa enxurrada de expectativa alheia? Como você lida com o que lê na Internet e se, de fato, dentro da água essas coisas influenciam positiva ou negativamente.

    Eu fui um atleta meia-boca. Uma coisa curiosa é que grande parte dos meus melhores tempos foram feitos em treino. Eu era muito “descontrolado” em competição e essa expectativa dos outros me afetava sempre de uma forma muito ruim. Lembro que toda vez que eu ia competir 100 borboleta, que não era minha prova e eu detestava nadar, meu técnico dizia assim: “olha, hein!? Não vai travar nos últimos 25mts… Não deixa o piano cair nas costas”. A prova acabava ali pra mim e, obviamente, sempre terminava a prova como se estivesse naufragando. O curioso é que na época nunca percebi aquilo como pressão, ou como algo prejudicial, mas desde a caída na água, eu fazia a prova pensando no momento que o piano caíria sobre mim… e caia! rsrs

    Um vez escrevi pra você pelo Twitter que gostaria de te ver nadando 200 costas… Acho que escrevi algumas vezes, e certa vez, você nadou (muito bem, só pra constar) e eu escrevi pra te parabenizar. Minha surpresa foi que na sua resposta disse: “lembrei de você!” E ai eu me dei conta de que , apesar de não te conhecer pessoalmente, de não ser uma pessoa próxima a você, minha expectativa, de certa forma, te marcou e imediatamente pensei no quanto a expectativa dos outros me prejudicou como nadador. Desculpe!!! rsrs

    Quando vejo centenas de comentários sobre o final de prova do Thiago Pereira, fico pensando o quanto isso o influencia, se quando está lá nos últimos 15 metros, e vê aqueles japoneses alucinados vindo que nem torpedos, se esses comentários,muitas vezes agressivos, ajudam a tirar um pouco mais de força ou tornam o “piano mais pesado”…

    • Joanna Maranhão disse:

      Acho que existem os dois lados da moeda, Rodrigo. Lidar com a expectativa alheia não é fácil, mas sabe o que é mais difícil? Saber lidar com a própria expectativa. Porque a gente treina todos os dias, sabe o que fez e ai quando não sai, é difícil não fazer “o mundo cair”.
      O que eu fiz foi filtrar o que escuto e de quem escuto, tem pessoas que não agregam em absolutamente nada, elas só sabem colocar pra baixo e nada nunca está bom, essas eu consegui me desprender. Mas existem outras (como você quando falou dos 200 costas) que motivam, em que sentido?Você não estava pedindo pra que eu vencesse os 200 costas, você disse algo que no fundo eu sabia: que era uma boa prova pra mim, entende a diferença?
      kkk
      Grande abraço!

  11. Gabi disse:

    Tem mais nem graça, vir aqui e dizer que vc incrível. Mas é sim. Atleta de uma sensibilidade que encanta. Na torcida sempre, com final ou sem final, pq ser atleta não é uma prova…é uma vida! Catar esse ingresso do revesamento, perco por nada!

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