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Influência dos pais no esporte

7 de setembro de 2015

Diário de Joanna7 comentários em Influência dos pais no esporte

Sumi mas voltei!!!! E já tinha prometido esse tema de post antes, mas achei que alguém poderia se expressar muito melhor do que eu, por isso pedi pra minha psicóloga Isabela Amblard escrever a respeito do tema.

Bela além de ter sido atleta de natação e integrante da seleção brasileira (estivemos juntas no revezamento 4×200 livre no mundial de Indianápolis em 2004) é mestre em psicologia  pela UFPE e doutoranda também pela UFPE.

Confiram o texto e deixem seus comentários…

Olá! Convido vocês a refletirem comigo sobre um tema muito delicado, a influência dos pais no rendimento esportivo dos filhos.

Sabemos que a família tem importante papel no desenvolvimento da criança e do adolescente, assim, a estrutura e o cotidiano familiar podem afetar positiva ou negativamente a vida destes.

Os pais apresentam a função social de segurança, apoio e cuidado para os filhos, como um suporte estruturante. Nos dias de hoje, esta função está aliada aos valores da sociedade competitiva em que vivemos e, consequentemente, a busca dos lugares de sucesso para os seus filhos é um marcador importante. O que isso significa? Os pais, com o desejo de proteger seus filhos de um mundo excludente, cruel, em que apenas os primeiros têm vez, almejam que eles tenham sucesso, seja na escola, como o melhor aluno da turma; no vestibular, com a conquista da concorrida vaga; no trabalho, com o salário mais alto; e no esporte, com a obtenção do primeiro lugar.

É comum considerar vencedor apenas o mais rápido, o mais habilidoso, aquele que atinge o primeiro lugar e é premiado com medalhas e troféus, sendo este um modelo a ser seguido/admirado por todos. Ao ser campeão no esporte, o filho/atleta “garante” um lugar de destaque que o beneficia com boas relações sociais, atenção dos professores, visibilidade na mídia, possibilidade de um retorno financeiro, etc.

Podemos pensar que ser pai/mãe deste atleta também traz um reconhecimento social satisfatório e até mesmo um sentido de realização para os pais, por compartilharem do cotidiano esportivo do filho e/ou projetarem seus desejos e frustrações nele. Para os filhos, compartilhar as conquistas com os pais parece justo, tendo em vista que, na maioria das vezes, eles os acompanham durante toda a sua trajetória esportiva. Satisfazê-los, portanto, por meio de resultados em campeonatos apresenta um sentido de retribuição ao investimento afetivo e financeiro dos pais que, por sua vez, tentam prover as melhores condições ao desenvolvimento esportivo do filho.

Dificuldades costumam aparecer quando os filhos/atletas percebem, nos pais, comportamentos e sentimentos antagônicos como felicidade, orgulho, satisfação em momentos de vitória, e tristeza, raiva, decepção em momentos de derrota. Há aqueles pais que chegam ao extremo com brigas e agressões aos filhos, bem como aqueles que nem precisam dizer nada para mostrar o descontentamento com a performance, basta um olhar ou a ausência do abraço, do apoio.

O desejo de fazer os pais felizes com uma vitória traz ao filho/atleta uma preocupação excessiva com o seu rendimento. Questiono: será que os filhos estão preparados para serem responsáveis pela felicidade/tristeza dos pais? Que grande responsabilidade, não?! Afinal, quem não quer ver seus pais felizes e orgulhosos? E aí, rapidamente, vemos acontecer uma reviravolta nos sentimentos dos atletas ao participarem de uma competição.

Se antes parecia uma experiência prazerosa, divertida, esta passa a ser sofrida, tensa, de grande responsabilidade e vivida com altos níveis de ansiedade, estresse e medo, pois todos se sentem pressionados pelos pais e buscam satisfazê-los. Nesse sentido, os atletas tendem a ter prejuízos nas suas performances esportivas, por dificuldades de lidar com os aspectos emocionais e, ao fim das suas provas ou jogos, experimentam alívio por ter acabado aquele evento estressor. É comum, com o passar do tempo, os filhos desistirem do esporte, por não saberem lidar com essas questões, pois os efeitos negativos passam a ser mais relevantes do que os positivos.

Esses pais parecem não se dar conta dos diversos benefícios que a prática esportiva proporciona, como: a melhoria na saúde, bem-estar e qualidade de vida, o comprometimento de seu filho com o esporte, a disciplina nos treinamentos, o respeito aos técnicos e adversários, o fair play ou espírito esportivo, as relações sociais extremamente favoráveis ao seu desenvolvimento, e as dificuldades que seu filho/atleta passou para chegar até a competição.

Ainda no aspecto psicológico, vitórias e derrotas oportunizam lidar com experiências que envolvem autoconfiança, autoestima, autoimagem e controle emocional, como uma espécie de “preparação” para outras situações da vida cotidiana que, certamente, enfrentarão ao longo da vida pessoal e profissional futura.

Felizes são os pais que podem enxergar/preservar nos seus filhos o prazer e a felicidade que eles sentem em praticar esportes e lidar com momentos de competição. É verdade que a competição tende a perder o sentido lúdico na medida em que há a especialização esportiva, e isso tem acontecido cada vez mais cedo, mas pai e mãe não são treinadores. A eles, a vitória deve ser sempre pessoal, pois seu filho consegue superar-se a cada dia e, por isso, já merece todos os prêmios!

Fica, portanto, uma dica para os pais: por favor, compreendam o sentido (amplo) do esporte e não limitem o potencial/desenvolvimento dos seus filhos. Uma vitória é muito mais do que uma medalha, e o esporte é muito mais do que um celeiro de campeões em torneios!

Isabela Amblard

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7 comentários em "Influência dos pais no esporte"

  1. Gabi disse:

    Oi Joanna, muito bom texto esse da sua psicologa. Sempre achei que dentro do esporte escolar os colégios deveriam ter uma maior aproximação com os pais de alunos/atletas (na realidade com todos os pais). Já me assustei inúmeras vezes com o comportamento de alguns pais a arquibancada durante jogos dos filhos. Pais inclusive que esquecem que do outro lado ta o filho de um outro alguem. É tenso. Rs …
    P.s. dei um pulo nos jogos escolares e pra minha supresa te vi nadar! Adorei chegar lá e vê que ia ter o desafio, ganhei o dia.

  2. Maressa Nogueira disse:

    Olá Joanna! Parabéns, não só por abordar um assunto que os profissionais envolvidos com a iniciação esportiva e as etapas de formação no esporte tem conhecimento de sua importância, mas principalmente, por meio de seu blog, permitir que temas como esse não sejam abordados de maneira empírica. Belinha, mais uma vez: parabéns pelo texto e seu excelente trabalho; o esporte tem muito a ganhar com profissionais como você!

  3. Elvis Aaron disse:

    Boa tarde, Joana.
    Conheci a Isabela em setembro em um congresso de Pscicologia do Esporte na cidade de Rio Claro- SP e mantemos o contato. Ela me indicou o seu blog e primeiramente parabéns.
    Vi que tu és uma companheira de profissão e fico muito feliz por isso, pois conheço sua bela trajetória como atleta de alto rendimento e espero conhecer também como educadora.
    Se possível, gostaria de manter o contato através do meu e-mail, pois apesar de trabalhar com futebol muitos relatos da natação podem me auxiliar no dia a dia.

    Um abraço.

    Att, Elvis Aaron (Preparador de Goleiros no Coritiba FC – PR)

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